Geoff Emerick, o explorador dos Beatles
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Geoff Emerick, o explorador dos Beatles

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Geoff Emerick tinha 17 anos quando começou a trabalhar como assistente de masterização para a gravadora EMI e, para se envolver melhor com o local de trabalho, pediu para assistir à gravação de algum artista no estúdio da empresa londrina. Para não atrapalhar nenhum outro trabalho mais importante, deixaram que Geoff assistisse ao primeiro registro de um grupo que poderia assinar com a gravadora nos próximos dias. 

Os Beatles haviam acabado de chegar de Liverpool e tinham sido dispensados por outras gravadoras antes de serem reconhecidos pelo produtor George Martin. Geoff Emerick não fazia ideia que aquela banda, que pertencia à sua geração (George Harrison, o caçula dos Beatles, era dois anos mais velho que ele), mudaria sua carreira e o tornaria um nome icônico em uma área quase nunca reconhecida. 

Ele morreu na tarde desta terça-feira (02/10), vítima de um ataque cardíaco, e encerrou uma biografia cujos grandes feitos se confundem com alguns dos momentos mais importantes da carreira da banda formada por John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr. O quarteto gostava dele pois tinha uma afeição pela sonoridade norte-americana dos discos de rock (que conheciam bem por morar em uma cidade portuária), com que Geoff estava familiarizado por fazer a masterização destes mesmos discos para o mercado inglês.

Ele assinou a engenharia de som de dois discos emblemáticos dos Beatles e recebeu Grammys por ambos. Além dos Beatles, ele trabalhou com os Wings de Paul McCartney (com quem ganhou outro Grammy, pelo disco "Band on the Run"), Jeff Beck, Elvis Costello, Supertramp, Badfinger, America, Cheap Trick, Jeff Beck, Kate Bush e Zombies (justamente no clássico "Odessey & Oracle").

Pude conhecê-lo pessoalmente no final do semestre passado, quando o estúdio portoalegrense Áudio Porto o convidou para dar uma masterclass em suas impressionantes instalações, acompanhando também a gravação de um single. Emerick já havia vindo ao Brasil no início do ano, em abril, para participar da feira carioca Rio2C. Polido e bonachão (e praticamente sósia do Raul Gil), esteve por trás de algumas das grandes inovações feitas pelos Beatles e comentou algumas delas no encontro que tivemos.

'Tomorrow Never Knows'

A faixa mais emblemática e experimental do disco "Revolver" marca também o início das aventuras dos Beatles no estúdio — e foi a primeira faixa a ser gravada no novo álbum. Para conseguir a sonoridade que tanto conhecemos, Geoff aproximou o microfone do bumbo para escancarar o peso do ritmo hipnótico para além das regras permitidas pela EMI. Mas, para o som não ficar em primeiro plano, tirou o próprio suéter e colocou dentro do bateria. “Foi a primeira vez que alguém fez isso num estúdio”, me explicou, lembrando sobre como ajudou a voz de John Lennon a soar como havia pedido ao produtor George Martin (“como o Dalai Lama no Himalaia”), ao fazê-la passar por um pedal Leslie. “Não existiam plug-ins nem filtros”, contou, comparando com os atuais estúdios digitais de gravação.

'A Day in the Life'

“É uma longa história, porque eles tinham uma ideia do que seria a faixa, mas não sabiam como interligar as partes”, disse Geoff, que considera a faixa final da obra-prima "Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band" o ápice de sua carreira. Especialmente a colagem entre as duas partes da músicas, e a utilização do crescendo feito pela orquestra como uma espécie de furacão musical em câmera lenta. “Foi ali que o mundo deixou de ser preto e branco e passou a ser colorido”, contou.

'The Ballad of John & Yoko'

O clima ruim entre os Beatles após o fracasso comercial do filme "Magical Mystery Tour" fez com que Geoff pedisse para não participar das gravações do disco seguinte da banda, que ficou conhecido como o "Álbum Branco". Embora este figure em muitas listas como a melhor obra dos Beatles, Geoff o considerava "horroroso". Logo depois, porém, o engenheiro de som foi convocado novamente por Paul McCartney para a gravação de um single, “The Ballad of John & Yoko”, que curiosamente foi gravado apenas com John e Paul tocando todos os instrumentos — por sugestão de Geoff.

O lado B de 'Abbey Road'

“Foi uma ideia de Paul”, disse ele sobre o medley com várias músicas que encerra o último disco gravado pelos Beatles. Mas executada por ele e George Martin, que tiveram que pegar diferentes trechos de diferentes músicas e interligá-los usando as fitas de gravação, analogicamente. “O mais difícil foi fazer a passagem de ‘Mean Mr. Mustard’ para ‘Polythene Pam’, porque eram duas gravações ao vivo”, lembrou.


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