Grupo de rap da etnia guarani faz rimas pela demarcação de terras
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Grupo de rap da etnia guarani faz rimas pela demarcação de terras

Na comunidade Aldeia Tekoá Pyau, localizada no Jaraguá, zona oeste de São Paulo, vivem três jovens rappers e um sonho: defender por meio da rima a demarcação das terras indígenas no estado. Para tal, MC Xondaro, Gizeli Paramirim e Mirindju Glowers comandam o Oz Guarani, trio de rap representante da etnia guarani, fortemente influenciados por grandes nomes do hip-hop nacional, como Sabotage, Facção Central e Racionais MC's.

Eles tocam juntos faz cinco anos e já escreveram diversas letras com temas como violência do Estado, luta pelo território e cultura local como resistência. "Uso o rap como uma forma de luta, de manifestação", disse Xondaro ao "Portal Aprendiz". "O objetivo de todo rap indígena é conseguir demarcar terras indígenas para o nosso povo."

MC Xondaro e Mirindju Glowers rimando no clipe de 'O índio é forte'/Reprodução/YouTube
MC Xondaro e Mirindju Glowers rimando no clipe de 'O índio é forte'/Reprodução/YouTube

Como o rap e o hip-hop são manifestações artísticas urbanas, os membros da comunidade em que os três jovens vivem não gostaram muito da ideia no começo. "Existia preconceito porque o rap foi uma coisa nova que entrou na aldeia. Entre os mais antigos, alguns falavam que não era certo, porque tinham medo de perder a nossa língua, a nossa cultura", relembrou o MC. "Com o passar do tempo, eles foram entendendo que as músicas passavam mensagens positivas para os nossos."

Além das mensagens políticas e de resistência, os três rappers fazem questão de cantar tanto em português, quanto em sua língua nativa. Veja o exemplo da letra de "O Índio é Forte":

"Orembaé Xondaro kuery rovae orereko´ma roxauka (Nossos jovens guerreiros chegaram mostrando nosso modo de vida) / Um dia de sol, na zona oeste, Jaraguá, Tekoa / Os mano e as mina no campo jogando bola / A criançada brincando, com o sorriso no rosto / Sendo feliz, assim que é, no meu olhar / Xerexa´py aexá tekoa (No meu olhar eu vejo] é bom lugar) / Mas então por que não demarcar?”.

Oz Guarani em cena no Sesc Pompeia, em São Paulo/Reprodução/Instagram
Oz Guarani em cena no Sesc Pompeia, em São Paulo/Reprodução/Instagram

"Cantamos em duas línguas, o português e o guarani. O guarani serve para passar a mensagem para nosso povo, para que eles percebam que, apesar do que estamos sofrendo, ainda estamos resistindo, e que somos um povo forte, não só os guaranis em toda São Paulo, mas os indígenas do Brasil."

Antes de entrar no palco, eles também mostram o respeito por sua cultura. Para Oz Guarani, é de praxe entoar cantos tradicionais e agradecerem ao Nhanderú, entidade fundadora da mitologia de seu povo. Para além da espiritualidade, eles têm outros personagens como inspiração. Um deles é Mano Brown, que, acreditam, mostrou que a luta do povo negro não é tão diferente da encarada pelos índios no Brasil.

"O rap veio da favela, da periferia e da luta do povo negro. Se você pensar bem, indígenas e pessoas que vivem na favela enfrentam uma situação parecida", declarou ele. "Nós também passamos muita dificuldade, não temos muitas opções e acabamos nos sentindo abandonados, esquecidos, tendo até depressão. E se o rap salvou a minha vida, pode salvar as de outros jovens, fortalecer as crianças que estão escutando."

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