Guitarrista brasiliense Pedro Martins encanta Eric Clapton e começa a ganhar o mundo
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Guitarrista brasiliense Pedro Martins encanta Eric Clapton e começa a ganhar o mundo

Quando participou do 20º Crossroads Guitar Festival, em setembro no Texas, Estados Unidos, Pedro Martins se apresentou para o maior público de sua carreira. Mas para o músico brasiliense de 26 anos, a experiência significou muito mais do que a oportunidade de tocar no renomado festival organizado por Eric Clapton. Foi como uma viagem no tempo. "Fiquei emocionado demais vendo Clapton e Peter Frampton tocando 'While My Guitar Gently Weeps', que tem o solo de guitarra que Clapton gravou com os Beatles para o 'Álbum Branco' em 1968! Fiquei viajando!", conta Pedro, referindo-se a sua primeira paixão musical, que foi o quarteto de Liverpool. "Nasci em 1993. Em 1995 foi lançado 'The Beatles Anthology', que me iniciou na música. Eram tantos elementos da história deles, apresentados com tanta classe... eu queria morar dentro desse documentário! Lembro que passou na Rede Globo, gravamos em VHS, depois compramos as fitas, depois os DVDs, livro. Virou meu farol", conta.

O encontro entre Clapton e Frampton foi apenas um dos vários que aconteceram no festival beneficente que arrecada fundos para o Crossroads Centre Antigua, centro de tratamento de dependentes químicos fundado por Clapton em 1998. No palco do American Airlines Center, em Dallas, 35 guitarristas dividiram-se em duas noites que tiveram mais de 4 horas de show. Clapton, como bom anfitrião, se apresentou em ambas. Na primeira, o mestre de cerimônias Bill Murray o apresentou como "um jovem que acho que vocês vão gostar". Ovacionado, o "deus" da guitarra fez um mini set acústico com sua banda, incluindo versões de “Wonderful Tonight,” “Lay Down Sally,” “Tears in Heaven” e “Nobody Knows You When You’re Down and Out”, blues de 1923 de Jimmy Cox de 1923. No segundo dia, Clapton encerrou o festival com todos convidados no palco, entre eles John Mayer e James Bay. No repertório, "Hoochie Coochie Man”, de Muddy Waters, “Little Queen of Hearts” e "Crossroads", de Robert Johnson, e “High Time We Went”, de Joe Cocker.

Os Beatles foram um 'farol' na formação musical de Pedro Martins. Divlgação
Os Beatles foram um 'farol' na formação musical de Pedro Martins. Divlgação

Beto Guedes, um de seus primeiros heróis

A carreira de Pedro é cheia de viagens, sejam elas geográficas ou espirituais. Desde muito pequenino, quando ouvia o pai Oscar Azevedo tocar, até encontros quase mágicos com músicos que se tornariam parceiros, como Daniel Santiago e Kurt Rosenwinkel, Pedro é uma enciclopédia de histórias incríveis - e precoces. "A música se perde de vista na minha árvore genealógica. Cresci ouvindo meu pai tocando e estudando diariamente. Ele tem o gosto mais variado do mundo, indo de Elomar e Villa-Lobos até Chico Buarque e Ramones", descreve. Era fácil perceber que Pedro não fugiria desse DNA: "Eu não saía pra rua, não brincava de boneco. Meus pais sacaram e aí compraram um tecladinho Casio, um violão pequeno Giannini, uma bateria Pearl. Eu queria muito um baixo, mas meu pai falou que era muito pesado e ia lascar as minhas costas", diverte-se ele, que tinha cinco ou seis anos nessa época.

A música na família e os Beatles fizeram parte de sua formação básica até que, um dia, ouviu uma coletânea de Beto Guedes. "Foi uma verdadeira revelação, fiquei viciado, e aí comecei a me interessar mais por música." Isso foi aos sete anos e, pouco tempo depois, já tocava numa banda ao lado dos primos chamada Fator RH. "Comecei a sair pra tocar na noite muito novo. Isso abriu uma percepção incrível e foi um grande aprendizado", afirma Pedro, que confessa que sua infância na cidade de Gama foi, no mínimo, bem diferente. "Quase ninguém da galera da rua e da escola era ligado à música, então, ninguém entendia o que eu fazia e muitas vezes eu me sentia sentia isolado. Mas com meus primos na banda era legal, tínhamos nosso próprio mundo", destaca.

Pedro se destaca por seu jeito de tocar guitarra, mas ele é um multi-instrumentista, mesmo que não dê muita importância à quantidade de instrumentos que domina e sim ao resultado das canções. "É prazeroso ter contato com várias ferramentas para trazer à tona a música que está dentro da sua cabeça. Eu acabei tocando mais guitarra naturalmente, não sei explicar o motivo, talvez por ser um instrumento portátil. Já gravei muita coisa tocando de tudo, muito mais por concepção do que para tentar ser foda em todos os instrumentos", justifica.

Conexão cósmica e estreia em disco aos 17

Uma história de conexão "cósmica", como gosta de dizer, é a de seu encontro com o também brasiliense Daniel Santiago, violonista, guitarrista, compositor e arranjador. "O Felipe Viegas, meu parceiro e amigo, era do Hamilton de Holanda Quinteto que, na época, em Brasília, era como se fosse uma banda de rock famosa. Me chamou atenção o som do violão e a figura do Daniel. Um dia me apresentei e ele virou meu brother instantaneamente! Comecei a mandar músicas minhas, ele ouvia, trocávamos ideias. Um dia eu estava no Rio com amigos, que insistiram pra eu ligar pra ele, que acabou nos convidando para irmos para sua casa. Foi uma conexão espiritual forte, como se tudo que ele tinha pra mostrar era o que eu precisava e queria. Cheguei em casa inspirado pra caralho, só querendo compor", conta. Em 2010, aos 17 anos, Pedro lançava "Sonhando Alto", seu primeiro disco por Daniel. "Muitas músicas desse disco traduzem bem essa fase da minha vida, como "Viagem ao Rio" e "Nas nuvens". Desde então, nossa parceria só aumenta, inclusive produzimos discos juntos, como 'Simbiose', de 2015, e 'Union', de 2018", diz ele.

Inspirado por Brasília

Pedro também já tocou com Hamilton de Holanda. "Já havíamos participado de projetos coletivos, mas a primeira vez que ele me convidou para tocar foi no 'Som da imagem'. Nem tem como descrever como ele é importante na minha vida e como me inspira a fazer música. Um papo de 15 minutos com ele é como conversar anos com outras pessoas. Ele é demais!", faz elogios ao bandolinista carioca criado em Brasília.

Aliás, Pedro costuma dizer que a capital é uma influência importante em sua música, no sentido prático e abstrato. "Meu pai nasceu em Brasília em 1961. O chorinho rolou muito por aqui, tem o rock dos anos 80 com Legião Urbana, Plebe Rude, Paralamas do Sucesso. Brasília carrega uma energia forte e tem pessoas que conseguem traduzir essa vibe, como o Hamilton e o Daniel em 'Sinfonia Monumental', o Renato Vasconcelos no seu disco 'Suíte Brasília', Pedro Vasconcellos, Renato Galvão, Guilherme Marques, Rudá Lobão... ", enumera.

Kurt Rosenwinkel, ponte para o mundo

Um momento definitivo em sua carreira aconteceu quando Pedro conheceu o guitarrista americano Kurt Rosenwinkel, 48 anos, tido como um dos grandes compositores atuais do jazz, revelado a partir do trabalho com o legendário vibrafonista Gary Burton, e acostumado a tocar com grandes nomes como o pianista Brad Mehldau e o saxofonista Joe Henderson. "Isso foi mais um capítulo em minha vida movido por um encontro cósmico. Foi Daniel que me mostrou o trabalho de Kurt, um som de uma complexidade harmônica, com uma humanidade tão acentuada, enfim, música sem barreira, sem preconceito, como eu gosto. Naquela primeira visita a Daniel no Rio, ele me deu umas demos que o Kurt tinha deixado lá. Aprendi todas as músicas e cheguei a tocá-las em shows em Brasília", conta. Em 2015, Pedro se inscreveu no Socar Guitar Competition, concurso do Montreux Jazz Festival, na Suíça. "Um dia recebo o e-mail dizendo que tinha sido selecionado e que um dos jurados era o Kurt. Quando li aquilo, sabia que ia ganhar. E não falo isso por vaidade, mas para enfatizar o lado místico da situação: eu tinha certeza que um dia nossas musicas iriam se encontrar", garante.

A admiração foi mútua e o americano e o brasileiro tornaram-se parceiros e amigos. "Eu o chamei para produzir meu disco 'Vox', depois ele me convidou para produzir 'Caipi', o disco com aquelas músicas das demos, lançado em 2017, quase nove anos depois. Gravei voz, percussão, teclado, bateria de depois viajamos três anos pelo mundo. Uma história muito doida!", admira-se.

Gaveta com milhares de ideias para composições

Foi Kurt quem incentivou Pedro a cantar em público — "Eu era tímido", diz — e que o apresentou para Eric Clapton, que não hesitou em convidá-lo para seu festival anual de guitarristas. "Foi muito massa. Quando alguém como Clapton descobre sua música, uma figura que é lenda, ícone, é uma grande realização e a confirmação de que estou no caminho certo. Na apresentação, toquei músicas do meu disco e do Kurt, além de três músicas do Daniel, do 'Simbiose'", conta.

Com um "arsenal de ideias" não finalizadas que um dia vão virar músicas, resultado de criações e anotações diárias, Pedro nem sabe calcular quantas músicas já compôs. "Milhares", chuta. "Quando sinto que a música precisa de algo que eu não consigo traduzir, mando para compositores como Paulo Ohana, Fernando Anitelli, Antonio Loureiro e Dani Black", enumera, citando alguns parceiros de letras.

Desconectado da música hegemônica no país

Com um amplo mercado de trabalho no exterior para sua música, Pedro reclama da falta de incentivo para a cultura no Brasil. "Cultura inspira liberdade e hoje a gente vive sob um governo que reprime ideias, que tenta patrulhar a cabeça das pessoas. O músico virou vilão, inimigo do sistema. Mas eu jamais vou desistir de fazer as coisas no meu país", afirma ele, que lamenta também a pouca qualidade musical do que faz sucesso por aqui. "É um tipo de música rasa, que subestima o ouvinte de maneira barata, nojenta, sem senso nenhum de profundidade. É sertanejo, pop imitação picareta das coisas americanas... Eu me ligo no valor espiritual, no lado misterioso da música", diz.

Pedro está trabalhando em seu próximo disco, que tem previsão de lançamento para 2020. "Ao mesmo tempo viajo o tempo inteiro, faço muitos shows com Daniel (daqui a duas semanas vamos para o Japão), Kurt, tenho um duo com o baixista Michael Pipoquinha, com quem vou gravar um disco no final do ano", diz o músico, incansável.

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