Heróis: quatro cordas para John Entwistle
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Heróis: quatro cordas para John Entwistle

Considerado por muita gente o primeiro grande baixista da história do rock, John Entwistle partia há 17 anos, deixando um legado que vai além de simplesmente participar, como mais um integrante, da banda The Who. Embora sua personalidade fosse mais reservada, John sempre se destacou como instrumentista e compositor — mesmo com quantidade de músicas bem menor do que a do guitarrista Pete Townshend.

Mesmo considerado quieto, John Entwistle sempre entrou de cabeça na temática explosiva e autoirônica do Who, grupo em que tocou até o dia de sua morte, em 27 de junho de 2002, provocada por overdose de cocaína no quarto de um hotel próximo a Las Vegas, onde a banda se apresentaria no dia seguinte. Aqui, separamos quatro fatos notáveis sobre o “Dedos de Trovão” — um dos apelidos pelos quais John era conhecido. Um para cada corda de seu baixo.

John Entwistle, e seu casaco de esqueleto, com The Who David Redfern/Redferns
John Entwistle, e seu casaco de esqueleto, com The Who David Redfern/Redferns

Sol: no princípio, trompa e trompete

John Entwistle começou, de verdade, como músico tocando trompete, além de trompa, aos 11 anos, depois de ter aulas de piano clássico desde os sete. Foi como trompetista que, aos 14 anos, ele tocou em seu primeiro grupo, The Confederates (“Os Confederados”), que tocavam jazz tradicional, no estilo de Nova Orleans e tinha ao banjo um colega de escola, Pete Townshend, um ano mais novo.

John, com o baixo e a trompa Michael Putland/Getty Images
John, com o baixo e a trompa Michael Putland/Getty Images

O standard “When The Saints Go Marching In” esteve no set list do primeiro de John Entwistle e Pete Townshend juntos, com The Confederates, em 5 de dezembro de 1958, na Igreja Congregacional de Acton County, bairro de Londres onde eles cresceram.

No The Who, trompa e trompetes foram usados, esporadicamente, em pequenas partes, principalmente das composições do próprio John Entwistle, como “Whiskey Man” e “My Wife”, mas também em material do guitarrista Pete Townshend, principal compositor da banda. No clipe abaixo, John aparece tocando trompa em um programa de TV no qual o Who apresentava o single “Pictures Of Lily”, de Pete.

Ré: o baixo em destaque inédito no rock

Descrito pelo colega Bill Wyman, dos Rolling Stones, como “o homem mais quieto em privado, porém o mais ruidoso no palco”, John Entwistle foi o primeiro baixista do rock a amplificar seu instrumento com paredes de caixas Marshall, comum para guitarristas.

Era a forma que ele encontrava para competir, ao vivo, com a potência da guitarra de Pete Townshend e com a bateria de Keith Moon.

Além disso, John Entwistle, referência do instrumento no rock, transpôs, de certa forma, o “baixo solo” que já era comum no jazz. É o que acontece em “My Generation”, faixa-título do primeiro álbum e primeiro grande sucesso do Who (que já tivera dois singles antes). O solo principal é de John, que passa à guitarra de Pete — autor do hit — somente um complemento no final, antes de Roger voltar a cantar as estrofes.

Em outro clássico composto por Pete, “Won’t Get Fooled Again”, podemos sentir o virtuosismo de John Entwistle, em uma faixa especial, com o baixo separado, divulgada após sua morte. Embora não tenha seguido esse caminho, o baixista sempre creditou os estudos de piano, trompa e trompete por sua habilidade. Uma curiosidade é que John resolveu passar para o baixo por ter dedos muito largos, o que lhe trazia dificuldades com o braço mais estreito da guitarra, mas era adequado às cordas mais grossas do instrumento que abraçou. Ele também costumava afinar seu baixo em tons mais agudos, para poder solar com mais destaque.

Lá: poucas e (muito) boas composições

Embora Pete Townshend fosse o compositor principal do Who, John Entwistle sempre contribuiu com músicas de sua lavra, geralmente cantadas por ele mesmo e com letras bem singulares. É o caso de “Boris, The Spider”, única composição dele a ser lançada como single pela banda, em 1966, mesmo ano em que foi incluída no álbum “A Quick One”. Escrita em cima da linha do próprio baixo, a letra narra o caminhar de uma aranha pela parede, em tom de comédia.

Um bom enredo para um conto surreal é da história narrada por John em “Whiskey Man”, do mesmo álbum. Nela, o baixista conta a história de um amigo íntimo que só ele é capaz de ver - quando bebe - e que, infelizmente não pode acompanhá-lo, quando é levado para uma temporada em… tratamento. (“Whiskey man's my friend, he's with me nearly all the time / he always joins me when I drink, and we get on just fine / Nobody has ever seen him, I'm the only one / Seemingly I must be mad, insanity is fun (...) Two men dressed in white collected me two days ago / They said there's only room for one and whiskey man can't go”).

Na ópera-rock “Tommy”, concebida por Pete, John Entwistle contribui como autor da faixa sobre o primo do personagem principal, “Cousin Kevin”.

No álbum seguinte, “Who’s Next”, de 1971, John Entwistle volta à autoironia, com “My Wife”. Longe de uma canção romântica tradicional, ele expõe o medo de a mulher Alison Wise, com quem se casara quatro anos antes, matá-lo, depois de ele passar o fim de semana na farra.

John, com a então mulher Alison   Stan Meagher Daily Express/Hulton Archive/Getty Images
John, com a então mulher Alison Stan Meagher Daily Express/Hulton Archive/Getty Images

“My Wife” acabou tornando uma música frequente nos shows do Who, assim como “Heaven and Hell”. Incluída no Lado B da versão da banda para “Summertime Blues”, de Eddie Cochran e Jerry Capehart, gravada ao vivo, em 1970 e lançada como single de trabalho do álbum “Live At Leeds”. Além da letra em que brinca com a dicotomia entre céu e inferno, John Entwistle faz, com seu baixo, um ótimo duelo/dueto com a guitarra de Pete Townshend na hora do solo.

No mesmo ano, John Entwistle foi o primeiro integrante do Who a lançar um álbum solo, “Smash Your Head Against The Wall”, enquanto costumava se apresentar com a banda vestindo um casaco com o desenho de um esqueleto. “Who Came First”, primeiro disco solo de Pete Townshend, foi na verdade, o segundo a vir, em 1971.

Tempos depois, em “Face Dances”, de 1981 — já com o baterista Kenny Jones no lugar de Keith Moon, morto no ano anterior —, John Entwistle fez a autobiografia “The Quiet One”, além de “You”.

John Entwistle, na capa de Smash Your Head Against The Wall
John Entwistle, na capa de Smash Your Head Against The Wall

Mi: desenhou a capa de um disco do Who

É de John Entwistle o desenho da capa de “The Who By Numbers”, álbum lançado pela banda em 1975 e para o qual ele contribuiu com um composição, “Success History”. A capa traz os integrantes desenhados como se estivessem em um livro de “ligue os pontos”.

A capa de The Who By Numbers
A capa de The Who By Numbers

Extra (Dó ou Si): The Who não existiria sem ele

John Entwistle usava baixos de quatro cordas, número padrão. Mas, se tocasse os de cinco, a quinta corda — dó, mais grave, ou si, mais aguda — poderia ser este last, but not least.

Sem John Entwistle, o The Who simplesmente não existiria. Foi ele quem convenceu, em 1962, o então guitarrista Roger Daltrey a incluir Pete Townshend em sua banda, The Detours, na qual John já comandava as quatro cordas graves, de um baixo caseiro, feito por ele mesmo. Pete passou a ser o único guitarrista da banda quando Roger resolveu passar a ser o cantor.

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