Hi Hat Girls: iniciativa promove aulas gratuitas de bateria para garotas de todas as idades
Inspiração

Hi Hat Girls: iniciativa promove aulas gratuitas de bateria para garotas de todas as idades

Publicidade

A decisão de aprender a tocar um instrumento envolve uma série de fatores. Fazer aula com um profissional ou aprender sozinho, tempo disponível para estudo, acesso ao objeto escolhido e praticidade estão entre eles. Ajudando a encurtar esse caminho para quem tem interesse por bateria, um coletivo formado por mulheres, Hi Hat Girls, promove a oficina “Bateria para garotas!”, voltada exclusivamente para o público feminino.  

BATERISTAS: Lugar de mulher também é na bateria

VEJA TAMBÉM: Julgada por tocar bateria, mulher conta como venceu o bullying na escola

Criada em 2012, a iniciativa começou como uma revista gratuita e digital — “Hi Hat Girls Magazine” —  sendo a primeira e única publicação sobre mulheres bateristas da América Latina. A ideia para a revista partiu de Julie Sousa, baterista há mais de 10 anos no cenário rock e heavy metal, ao perceber a escassez de mulheres tocando o instrumento nos eventos que participava. “Era muito pontual. Uma ou outra. Não era uma presença tão constante e isso me incomodava. Não queria continuar sendo a única menina do festival ou única baterista do show”, conta Julie, em entrevista ao Reverb.

Participantes de uma das oficinas de bateria do coletivo Hi Hat Girls, no Circo Voador, no Rio de Janeiro / Foto: Divulgação / I Hate Flash
Participantes de uma das oficinas de bateria do coletivo Hi Hat Girls, no Circo Voador, no Rio de Janeiro / Foto: Divulgação / I Hate Flash
A gente viu que as meninas abraçaram e começaram a colar na gente

Para dar vida a essa ideia, ela fez a proposta num grupo do Facebook só com bateristas mulheres e recebeu de volta uma resposta positiva de profissionais de todo o país.  “Meses depois, em setembro de 2012, saiu a primeira edição da revista em versão digital e gratuita, com exercícios, entrevistas divulgação de bandas e resenhas.  Com uma periodicidade muita incerta porque era um trabalho totalmente voluntário. Foi assim até março de 2016, com média de duas por ano”.

Mas a baterista achou que ainda não era suficiente e sentiu que dava para fazer mais. Foi aí que a Hi Hat Girls saiu do meio virtual e passou para o físico. Em março em 2016, o coletivo realizou o primeiro Encontro de Mulheres Bateristas, em São Paulo e no Rio de Janeiro.  O público foi muito maior do que o esperado, mesmo sendo um workshop mais avançado, voltado para musicistas experientes. “A gente viu que as meninas abraçaram e começaram a colar na gente. Ficaram mais ativas nas redes sociais.”

Mulheres de todas as idades são aceitas nas aulas de bateria promovidas pelas Hi Hat Girls / Foto: Redação
Mulheres de todas as idades são aceitas nas aulas de bateria promovidas pelas Hi Hat Girls / Foto: Redação
Descemos um pouquinho para poder subir as meninas que querem aprender

Após o fim da aula em São Paulo, como ainda podiam utilizar o espaço, elas deixaram a bateria livre para quem quisesse se arriscar. Já no Rio isso não foi possível, gerando um novo desconforto. “Muitas meninas que estavam lá talvez tenham ido só para ter esse primeiro momento. Então, tínhamos que fazer algo para reverter isso. Pensamos em algo que pudesse dar essa primeira oportunidade para quem estava começando do zero.” E, assim, surgiu a primeira oficina Bateria para Garotas!, em novembro do mesmo ano. 

Houve então uma troca de pensamento, pois elas perceberam que poderiam atingir um público, de forma mais significativa, abrindo às aulas para quem fosse inexperiente. “A gente inverteu um degrau de importância. Descemos um pouquinho para poder subir as meninas que querem aprender”, ressalta Cynthia Tsai, que junto com Julie Souza e Gê Vasconcelos, está à frente da sede no Rio de Janeiro. Desde então, as aulas propostas a quem também quer ter esse primeiro contato não pararam mais e todo mês acontece, no mínimo, uma em um dos 6 estados com integrantes do coletivo. 

As oficinas das Hi Hat Girls recebem mulheres com ou sem experiência em tocar bateria / Foto: Redação
As oficinas das Hi Hat Girls recebem mulheres com ou sem experiência em tocar bateria / Foto: Redação
O ambiente é diverso e cada professora tem sua própria forma de ministrar as aulas

No curso, as alunas têm acesso a conhecimentos básicos e experimentação prática, com o propósito de estimular o interesse e contribuir para a desconstrução de estereótipos de gênero na música. O ambiente é diverso, com mulheres de diferentes idades, perfis e condições sociais distintas. Cada professora tem sua própria forma de ministrar as aulas, têm independência conforme o que acha válido, mas há algumas convenções a serem seguidas. Por exemplo, todas as alunas saem tocando uma música. “Também tem essa coisa de pegar o regional, sentir a turma. Tem questões que a gente leva em consideração no momento”, explica Julie.

Todo esse trabalho é feito de forma voluntária. Então, a ideia é sempre gerar pouco custo através de parcerias com espaços públicos ou instituições ligadas à música. Com essa proposta de doação e troca, a Hi Hat Girls conseguiu mobilizar uma rede de bateristas mulheres que abraçaram a causa e chamaram para si a responsabilidade de ministrar aulas.  Algumas delas, inclusive, já tinham sido entrevistadas para a revista digital. Atualmente, há oficinas em São Paulo, com duas bateristas à frente (Lary Durante e Paula Padovani), no Rio com três (Cynthia, Julie e Gê), uma baterista na Bahia (Lorena Martins), outra no Pará (Karen Agié), duas em Goiás (Nathalia Reinehr e Ariadne Sousa), outra em Porto Alegre (Bya de Paula) e duas em Minas Gerais (Hellen Kelmer e Carla Detoni). Além das contribuições esporádicas de outras profissionais.

Julie Souza ensinando uma das aulas como segurar as baquetas / Foto: Redação
Julie Souza ensinando uma das aulas como segurar as baquetas / Foto: Redação
Tem muita verdade. Tem muito da gente ali. Eu me vejo tanto naquelas meninas

Para Cynthia, muito dessa mobilização se deve a identificação de quem é experiente com quem está começando a aprender: "No fundo é uma coisa que a gente gostaria de ter tido quando a gente começou a tocar bateria e aí vem o desejo de ajudar e fazer parte disso”. Tese reforçada por Julie: “Tem muita verdade. Tem muito da gente ali. Eu me vejo tanto naquelas meninas. Na minha época eu queria que tivesse algo assim porque teria evitado tanto desgaste”.

E com desgaste ela quer dizer situações machistas. Isso porque as três bateristas já viveram momentos desagradáveis, como ser barrada na entrada do próprio show pelos seguranças ou ter a capacidade questionada ao comprar uma baqueta. De experiências assim brotou, ainda que de maneira intrínseca, a vontade de fazer dessas oficinas um ambiente acolhedor, livre de julgamentos, em que as participantes se sentissem à vontade para experimentar. “Foi natural porque tem muito a ver com a ideia de oferecer algo novo para quem não teve acesso. Natural e ao mesmo tempo veio no pacote”, explica Julie. 

Elas sabem bem como aprender algo novo pode ser intimidador, dependendo do lugar e de quem está ensinando, principalmente para quem é mulher. A baterista Gê Vasconcelos, por exemplo que - além de integrante da Hi Hat - faz parte da famosa banda Gangrena Gasosa há dez anos, começou a tocar em uma escola de música, com pessoas que estavam mais avançadas e não guarda boas lembranças. “É constrangedor você começar em algum lugar em que as pessoas já saibam tocar. Até quando eu queria me arriscar mais eu tinha vergonha de errar.”

Crianças tocando uma das caixas da bateria na oficina da Hi Hat Girls / Foto: Redação
Crianças tocando uma das caixas da bateria na oficina da Hi Hat Girls / Foto: Redação
A intenção é fazê-las experimentar e acabar com a ideia de que não são capazes

Já nas oficinas não tem essa. As bateristas pregam que a tentativa por si só é o acerto e as participantes são estimuladas a deixaram qualquer vergonha ou receio de lado durante as aulas, como destaca Cynthia: “A bateria é um instrumento de difícil acesso para se testar. Ter uma bateria para você sentar, bater, fazer  que você quiser, disponível é muito importante. E, talvez, essa seja aquela faísca que falta. Eu falo: Testa. Tenta!”. 

O que inicialmente tinha como intenção aprimorar o próprio conhecimento, sem pretensão, se tornou uma forma de incentivar outras mulheres a tocar um instrumento muito mais atribuído aos homens. Há exemplos de alunas que saíram das oficinas, começaram aulas regulares e depois montaram sua própria banda. A iniciativa vem crescendo, organicamente, e se destacado como um projeto de transformação através da música, afinal o aprendizado que fica vai muito das aulas teóricas e práticas. Como reforça Julie, “a intenção é fazê-las experimentar e acabar com a ideia de que não são capazes”.

A Hi Hat já foi contemplada com o fundo-semente do Conselho Britânico através do Active Citizens, programa do British Council Brasil e recebeu a premiação Heloneida Studart de Cultura 2018. Agora, a iniciativa passa por um processo de estruturação, com auxílio de mentorias, na intenção de capitalizar recursos para que seja ampliada, mas sem perder a essência, preservando o objetivo inicial de oferecer aulas gratuitamente. “Quando a gente pensa em crescer não é para cima. É para os lados. Atender um maior número de pessoas”, finaliza Gê.  

Publicidade

Relacionados

Canais Especiais

Ícone do FacebookÍcone do TwitterÍcone do InstagramÍcone do YoutubeÍcone do DeezerÍcone do SpotifyÍcone do Pinterest