Hildur Gudnadóttir e seu colega Jóhann Jóhansson: uma escola islandesa na arte das trilhas sonoras
Na Trilha do LEÃO

Hildur Gudnadóttir e seu colega Jóhann Jóhansson: uma escola islandesa na arte das trilhas sonoras

A Islândia é um país fascinante. Aquele pedaço de terra, no meio do Mar da Noruega, próximo (ou nem tanto, fica a 1.210 quilômetros) à Groenlândia, descoberto por vikings (que acharam-na tão fria que a batizaram “terra do gelo”), também é solo de artistas musicais não convencionais. Foi de lá, por exemplo, que veio a banda Sugarcubes, no fim dos anos 1980. Banda esta que nos revelou Björk, aquela “duenda”, parente do baby Yoda, com uma voz extraordinária. Foi de lá, também, que vieram Gus Gus e Sigur Rós, que fizeram relativo sucesso nos 1990. Sigur Rós continua na ativa e chegou a vir cá duas vezes.

Nos últimos anos, a Islândia chamou a atenção por dois músicos locais que se dedicaram a arte de criar trilhas sonoras: Jóhann Jóhannsson e Hildur Gudnadóttir. Esta última, acaba de ganhar o Oscar de melhor trilha original (score) pelo seu belo (e dark) trabalho para “Joker” (“Coringa”), categoria da qual era a franca favorita. Já Jóhannsson, infelizmente, nos deixou, subitamente, em fevereiro de 2018, aos 48 anos, por conta de overdose de cocaína.

 Jóhann Jóhannsson na prémière de 'A Teoria de Tudo'/ Michael Hurlong (Getty)
Jóhann Jóhannsson na prémière de 'A Teoria de Tudo'/ Michael Hurlong (Getty)

Ele me chamou a atenção pela sombria e climática trilha para “Sicário” (2015). O tenso filme do diretor canadense Dennis Villeneuve ficava ainda mais barra pesada com as texturas da trilha do islandês. Você saía da sala de exibição um bocado atordoado. Sem a música, o impacto seria menor. Não à toa foi indicado ao Oscar por esse trabalho. No ano anterior, havia ganhado sua primeira indicação ao Oscar pela trilha para “A Teoria de Tudo” (2014), aquela cinebiografia do Stephen Hawking, pela qual faturou o Globo de Ouro.

Não tivesse partido tão precocemente, Jóhann (que misturava orquestração tradicional com elementos eletrônicos) certamente haveria de faturar um careca dourado no decorrer da carreira. Vide o maravilhoso trabalho que fez para outro filme do Villeneuve, o sci-fi “A Chegada” (“Arrival”, 2016). Pena que não deu tempo de ele criar a trilha para a sequência que Villeneuve fez para “Blade Runner” (chegou a trabalhar nos esboços), “Blade Runner 2049”. Imagino o que ele faria, provavelmente, no remake que o canadense está preparando de “Duna”. Poderia ser o seu ‘filme do Oscar’?

Com a talentosa violoncelista Hildur, JJ chegou a dividir um trabalho (e um prêmio) pela trilha de “Maria Madalena” (2018), dele, com ela colaborando na instrumentação. Antes de partir, JJ nos deixou o score do cult “Mandy: Sede de Vingança” (2018), estrelado por Nicolas Cage.

Gudnadóttir, celista clássica de mancheia, antes de se aventurar pelas trilhas, dividiu palcos e estúdios de gravação com bandas alternativas. Como a eletrônica finlandesa Pan Sonic e a industrial inglesa Throbbing Gristle, além de ter feito turnê com a experimental americana Animal Collective. É conhecida da galera indie.

Depois de percorrer, solo, o circuito da música clássica da Europa, Hildur foi levada para o cinema pelas mãos de Jóhanssonn, que, além da colaboração em várias de suas trilhas, abriu caminho para que ela fizesse a da sequência “Sicário: Dia do Soldado” (2018). Os grandes prêmios, começaram a vir com a trilha para a minissérie de TV “Chernobyl” (BBC/HBO), que lhe valeu Primetime Emmy e Grammy.

Finalmente, veio o grande trunfo, com o seu trabalho em “Coringa” (que, antes de vencer o Oscar, arrebatou Globo de Ouro e Bafta, entre outros prêmios de prestígio). Uma trilha marcante, em que o violoncelo tem lugar de destaque e que nos leva para os caminhos internos da psique do louco personagem. É sombria. E fria. Como sua Iceland natal.

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