‘Hip-Hop Boulevard’: ponto histórico de Nova York ganha placa comemorativa no aniversário da cultura de rua
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‘Hip-Hop Boulevard’: ponto histórico de Nova York ganha placa comemorativa no aniversário da cultura de rua

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Kool Herc é considerado o pai do hip-hop. O jamaicano, nascido Clive Campbell, foi o responsável — junto com a irmã, Cindy — por organizar e animar as festas que deram origem a toda um movimento cultural que ganhou o mundo a partir do Bronx, em Nova York. Como forma de agradecimento, ele recebeu, no último domingo (11), uma placa de rua oferecida pelas autoridades municipais em homenagem a sua carreira, em que se pode ler "Hip Hop Blvd" (Hip-hop Boulevard). 

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"A vida noturna é uma incubadora essencial para a nossa cultura", disse, durante o evento, Ariel Palitz, que ocupa o invejável cargo de diretora de vida noturna da cidade. A placa foi instalada no espaço conhecido como Cedar Playground, entre Cedar Avenue e Sedgwick Avenue, na West 179th. 

Kool Herc e Cindy Campbell (à dir.) foram homenageados em evento organizado pela prefeitura de Nova York / Foto: Reprodução
Kool Herc e Cindy Campbell (à dir.) foram homenageados em evento organizado pela prefeitura de Nova York / Foto: Reprodução

A homenagem chega 46 anos depois de Kool Herc iniciar o movimento. Em 11 de agosto de 1973, os irmãos Campbell organizaram pela primeira vez a "Back to School Jam", festa em local fechado, a sala de recreação do prédio 1520 da Sedgwick Avenue . Cindy Campbell, sua irmã, também foi homenageada pela prefeitura. 

"Nova York sempre foi vanguardista no avanço do entretenimento e das artes e, em 1973, o hip-hop nasceu em uma festa no Bronx que contou com o estilo experimental do DJ Kool Herc", escreveu o prefeito da cidade, Bill de Blasio, em uma carta lida no evento. "Esse novo som lançou um novo gênero musical conhecido por amplificar as vozes da juventude de comunidades marginalizadas e por cativar o imaginário de pessoas ao redor de todo o mundo", completou. 

O DJ Kool Herc segura a placa com o novo nome da rua / Foto: Reprodução
O DJ Kool Herc segura a placa com o novo nome da rua / Foto: Reprodução

Clive Campbell chegou a Nova York em novembro de 1967. Um inverno rigoroso como ele não conhecia e um conjunto habitacional sem quintal no Bronx recepcionaram o futuro DJ, sua irmã e seus pais. "Naquela época, ser da Jamaica não era cool. Bob Marley ainda não tinha feito do país um item 'fashionable'", lembra Kool Herc, no livro "Can't Stop Won't Stop — A History of The Hip-Hop Generation", acrescentando que, nos primeiros dias, avisaram que em certos lugares do bairro gostavam de jogar quem era da Jamaica dentro das latas de lixo.

Kool Herc escapou do bullying ao se destacar como corredor, na escola (muito antes de Usain Bolt) e ao ser exposto aos discos de Temptations, Smokey Robinson e James Brown, seu herói de adolescência. Logo, já tinha perdido o sotaque jamaicano e se integrado a uma turma de pichadores, espalhando "CLYDE AS KOOL" pelos muros do Bronx.  Uma nova inclinação esportiva, no basquete de rua, com um estilo de jogo em que se impunha pelo físico, lhe valeu o apelido Hercules. 

Nas primeiras festas que Kool Herc e Cindy Campbell organizaram na Sedgwick Avenue, a frequência era de estudantes de high school, sem idade para entrar em boates, e gente que morava longe demais dos lugares que ainda estavam abertos no Bronx. Os eventos em lugar fechado ficaram para trás assim que eles organizaram a primeira block party na rua. Com ajuda de seu colega Coke La Rock, Koool Herc adotou o know-how dos sound systems jamaicanos, avisando que, ao primeiro sinal de briga e tumulto, desligaria o som.

Koool Herc já se diferenciava dos DJs normais de discoteca por usar recursos típicos dos heróis jamaicanos como U-Roy, Count Machuki, King Stitt e Big Youth, com gritos de guerra, chamados para dançar e espaço para arriscar algumas rimas curtas. Quando um bêbado chegava e cumprimentava efusivamente um amigo, podia estar nascendo um novo bordão para a turma ali reunida. Assim surgiu "to my mellow, my mellow is in the house", por exemplo.

Observando os dançarinos, Kool Herc percebeu que esperavam por determinados trechos das músicas para mandar os passos mais empolgados e criativos. Geralmente era no break instrumental, com a parte rítmica ganhando destaque. O groove era mais importante que tudo: melodia, harmonia, canção... Foi então que ele desenvolveu sua técnica chamada Merry Go-Round, mixando duas cópias do mesmo disco para poder ficar repetindo, prolongando aqueles momentos de break instrumental que faziam o povo "ficar selvagem" nos passos.

À medida que as festas começaram a ficar mais cheias, Kool Herc mudou-se um pouco mais adiante na Sedgwick Avenue, para o Cedar Park. Em pouco tempo, as gangues locais e das redondezas passaram a ficar mais motivadas para se juntar às festas e arrasar nos passos e interações. "Herc estava popularizando uma nova hierarquia do que era cool", como diz o texto de Jeff Chang em "Can't Stop Won't Stop". E logo moleques como Joseph Saddler, apelidado Flash, estavam ali, babando e gestando novos aspectos do hip-hop. "Eu olhava aquele cara grandão, com um sistema de som enorme, fortemente protegido. Pessoas de quatro aos 40 anos se divertindo muito... Com aquela música que não tocava no rádio. Para mim, aquele DJ era como um super-herói", lembra o cara que ficou conhecido como Grandmaster Flash. O resto é história hip-hop.

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