Hungria: há quem o veja como ‘novidade’, mas já faz alguns anos que ele se tornou um dos maiores rappers do Brasil
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Hungria: há quem o veja como ‘novidade’, mas já faz alguns anos que ele se tornou um dos maiores rappers do Brasil

“Consolidação” é um termo bastante relativo quando o assunto é música. Valem os números de execuções, a crítica, o público dos shows? Depende do cenário e, muitas vezes, do artista. Tomemos o exemplo do rapper Hungria, de 27 anos: são mais de 7 milhões de inscritos no canal dele no YouTube, frente a 4,9 milhões de Projota, 1,1 milhão de Emicida e menos de 500 mil de Criolo. Desde 2015, Hungria vem emplacando músicas nas listas de mais ouvidas do rap nacional. Ainda assim, foi indicado na categoria “Experimente” do prêmio Multishow 2018, que indica “novos” artistas — e saiu dela vencedor.

Hungria Hip Hop, como ficou conhecido, vem desde o início da carreira, iniciada aos 14 anos com a música “Hoje Tá Embaçado”, comendo pelas beiradas. Investiu no trap quando o subgênero do rap ainda era visto como algo “gringo” demais, e em músicas que não falavam de mazelas sociais quando o rap nacional era colocado apenas nessa posição. “No começo, ouvi ‘por que esse playboy está cantando rap?’. Só que ninguém estava lá onde eu morei, na minha quebrada”, diz o músico, nascido na periferia da Cidade Ocidental, a cerca de 50 km de Brasília. “E agora todo mundo está cantando assim. As pessoas costumam nos enaltecer quando tudo dá certo. Aí, todo mundo te abraça e vira ‘estilo’, mas antes o que diziam era: ‘Esse rap é modinha’".

Atualmente, o debate com viés depreciativo sobre subgêneros dentro do rap já pode ser considerado ultrapassado. O crossover entre diferentes estilos e a aceitação de que o rap vai além das letras sobre drogas e violência são tão triviais que fazem parecer distante o tempo em que artistas como Projota, conhecido por hits românticos, eram taxados de “não autênticos”. Mas, talvez, essas percepções expliquem em parte a razão de Hungria, mesmo sendo um fenômeno de público e de internet, ainda ser visto por muita gente como “novidade”.

Gustavo da Hungria Neves começou a se sustentar com a música cerca de 6 anos atrás. “E não precisava de muito. Uns R$ 800 que tirava por mês, naquela época, eram uma fortuna, dava pra ajudar em casa e tirar um lazer”, relembra. As coisas começaram a mudar quando Hungria passou a focar no YouTube. Com uma visão ampla, ele começou também a postar vídeos da rotina de shows e de bastidores, o que intensificou a relação com os fãs. Para completar, investiu em clipes bem produzidos e repletos de ostentação financeira, mais ou menos na mesma época em que KondZilla, o midas do funk paulista, começou a fazer o mesmo. O trabalho constante na plataforma de vídeos segue rendendo frutos: o clipe mais recente de Hungria, “Chovendo Inimigo”, lançado em 30 de novembro de 2018, foi o vídeo de rap brasileiro mais visto de janeiro de 2019 (até o fechamento deste texto, são mais de 42 milhões de visualizações).

Soma-se a isso a quantidade na qual Hungria compõe. No momento da entrevista, em janeiro, ele já sabia que nos próximos meses divulgaria uma nova faixa, mas ainda não havia definido qual. “Acredita que estou com umas dez pra escolher lá?”, questiona. “Estou observando o momento. Às vezes, escrevo, acho a música foda e no dia seguinte enjoo”.

O artista é consequência das pessoas que o cercam (...). Minha maior inspiração são os guerreiros da vida cotidiana, e minha mãe é uma delas.

Ele ainda canta com Claudia Leitte na canção “Saudade”, lançada em dezembro, e deve soltar em março parceria com Léo Santana. Estaria Hungria de olho no público do axé? “Acho que tudo que fazemos de diferente em termos de parceria nos leva aos olhos de outras pessoas. Penso que, com essas parcerias, o Hungria chega para um público que não o conhecia. E isso é muito importante”, afirma ele, falando com a segurança peculiar de quem é capaz de citar a si mesmo na terceira pessoa. “O rap mudou demais. Se não tivesse mudado, se não tivesse aberto a mente, não estaria onde está”.

Hoje amigo de gente como Mano Brown, indiscutivelmente um dos maiores nomes da história do rap brasileiro, Hungria elogia sua equipe (“O artista é consequência das pessoas que o cercam”) e sempre exalta a importância da mãe (“Minha maior inspiração são os guerreiros da vida cotidiana, e minha mãe é uma delas”). Em 2018, fez a primeira turnê internacional, pelo Japão, e em fevereiro saiu pelos Estados Unidos. Em março, chega a vez da Europa. Também planeja o primeiro DVD da carreira para 2019.

Hungria pode não estar nas listas de melhores lançamentos feitas por críticos, nem ser visto como um rapper cool pela elite que consome o estilo, mas é difícil negar que é, atualmente, um dos maiores rappers em atividade no Brasil. “Enquanto o som não chegou em determinado lugar, a gente tem que trabalhar mais. Uma hora a gente arromba o portão e o som entra”, teoriza. “Enquanto não abrem o portão, continuamos atrás das chaves.”

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