‘Hunters’: trilha quente da série dá o clima da Nova York dos anos 70 — e tem até Tim Maia Racional
Na Trilha do LEÃO

‘Hunters’: trilha quente da série dá o clima da Nova York dos anos 70 — e tem até Tim Maia Racional

A reta final dos 70s, foi uma época pródiga para a música pop, sobretudo em NYC. Nos guetos e quebradas alternativas floresciam a disco music (sobretudo, entre o público gay negro, nas festas de galpão) e o punk rock (em bibocas como o CBGB, com a molecada branca suburbana); nas ruas, a cultura hip-hop dava seus primeiros passos com uma nova dança de rua, o break, ao som de fitas tocadas nos poderosos ghetto-blasters. Tudo isso está embutido na trilha de “Hunters”, que quando sair, renderá um álbum duplo, no mínimo. Tem muita coisa bacana do período para garimpar.

Logo no primeiro episódio, a agora manjada “Psycho Killer”, dos Talking Heads (toca tanto nas festas indie, que está quase sendo banida), é usada para fazer referência ao Filho de Sam (David Berkowitz, assassino serial que aterrorizou a cidade entre 1976 e 1977). David Byrne já disse que, Sam foi uma de suas inspirações. Nas paredes do quarto do adolescente Jonah (Logan Lerman, ele mesmo, o Percy Jackson), entre pôsteres de heróis dos quadrinhos, do primeiro filme de Truffaut (“Os Incompreendidos”, 1959) e da indefectível “pantera” Farrah Fawcett (o poster mais vendido da história americana), apenas um cartaz do Velvet Underground representa o gosto musical do personagem. Deles, Jonah escuta, em sua vitrolinha automática, “I Found a Reason” e “Oh! Sweet Nuthin”, ambas do álbum “Loaded” (1970, onde está “Sweet Jane”). No quadro de cortiça, um ticket para show de Bob Seeger & The Silver Bullet Band, é notado. Destes, toca na trilha, a clássica “Night Moves” (1976).

Logan Lerman e Al Pacino, a dupla que estrela 'Hunters' (Frazer Harrison/Getty)
Logan Lerman e Al Pacino, a dupla que estrela 'Hunters' (Frazer Harrison/Getty)

Curiosamente, na hora em que rola o grande apagão (no qual, a galera do Harlem aproveitou para saquear as lojas de instrumentos musicais, dando origem ao electro-funk; como já nos contou Afrika Bambaataa, que surrupiou uma bateria eletrônica Roland 303, cara demais para os bolsos dele), não toca “The Night The Lights Went Out”, dos Trammps, aqueles do hit “Disco Inferno” (de “Saturday Night Fever”). Talvez, por ser dance, alegre. Em vez dela, escolheram usar “Paint It Black”, dos Rolling Stones, que cai muito melhor nas tensas cenas de saques.

Como o background da série é judaico (afinal, são caçadores de nazistas), eventualmente, Jonah acaba indo a um Bat-Mitzvah (equivalente feminino do Bar-Mitzvah), onde rola uma sensacional versão de “Hava Nagila”, do mestre da surf-guitar Dick Dale. Já num episódio em que Jonah e seus amigos vão fumar um em Coney Island (onde fica aquele parque de diversões old school, cantado por Lou Reed em “Coney Island Baby”), a viagem deles é ao som de “Stayin’ Alive”, dos Bee Gees. A cena, em clima de musical psicodélico, é hilária.

O super novaiorquino Lou Reed, além dos vocais no Velvet Undergound, dá as caras solo, na trilha, ao som de “N.Y. Stars”, do álbum “Sally Can’t Dance” (1974). Até mesmo o nosso Tim Maia (que já foi imigrante ilegal em NYC), comparece na trilha, com um trechinho de “O Caminho do Bem” (1976, de sua fase Racional Superior).

Quando as coisas pesam, a clássica “The End”, do The Doors (que ficou marcada, indelevelmente, na trilha de “Apocalypse Now”), entra em cena. Até mesmo um enxerto de “Tonight!”, de “West Side Story”, é usado, numa cena super violenta. Motivo: um dos nazis é gay — e fã de musicais da Broadway! Chega a ser engraçado de tão bizarro.

Nova York é uma cidade de muitas trilhas. “Hunters” nos dá uma pequena amostra de como ela fervilhava, musicalmente, no fim dos anos 1970. Que reverberam, até hoje, na cena pop.

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