Ian Curtis costumava animar colegas do Joy Division em momentos difíceis: 'Vamos ser grandes no Brasil'
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Ian Curtis costumava animar colegas do Joy Division em momentos difíceis: 'Vamos ser grandes no Brasil'

Era difícil de se imaginar, mesmo no meio musical, que Ian Curtis, com uma carreira tão curta, iria influenciar de tal forma o rock underground e ser inspiração para várias gerações. "Não se preocupe, nós vamos ser grandes no Brasil. Seremos grandes aqui e lá", projetava o jovem vocalista do Joy Division, conforme revelado recentemente pelo baixista Peter Hook, em entrevista ao jornal inglês "The Independent". Há quatro décadas, em 18 de maio de 1980, aos 23 anos, Ian Curtis se enforcou para dar fim ao sofrimento que a depressão, as crises de epilepsia e uma crise conjugal tornaram insuportável. Na segunda-feira (18/5), uma live com participação de vários artistas o homenageou. Os companheiros de banda Peter Hook e Stephen Morris (baterista) também falaram ao "Independent" sobre a relação que tiveram com Ian e a importância de seu legado.

"Lembro-me de conhecer Ian no bar no Electric Circus. Éramos um grupo com ideias semelhantes, desajustados e malucos. Ele era jovem, como nós, entusiasmado, amigável e tinha 'ódio' escrito nas costas com tinta laranja, o que era bem estranho", lembra o baixista Peter Hook. "Respondi a um anúncio e ele disse 'venha tomar uma xícara de chá'. Minha primeira impressão sobre ele foi: 'como esse cara pode ser cantor de uma banda?' Era apenas um cara comum que frequentou a mesma escola que eu. Fizemos um ensaio e ele só ficou lá, sentado com o microfone e as letras, fumando e conversando. Ele estava aprendendo a ser cantor ao mesmo tempo em que estávamos aprendendo a ser banda, então, todo mundo estava fazendo algo único", rememora o baterista Stephen Morris.

Generoso e sempre disposto a compartilhar os holofotes, Ian impressionou rapidamente. "O problema era que ele era tão bom que, assim que você começava a ouvi-lo, um flash passava por aquele barulho horrível e você pensava: 'merda, isso foi bom!'. Como letrista e compositor, ele estava em outra dimensão", elogia Peter, destacando que nem mesmo sua doença o impedia de fazer shows. "Ele nunca recuava. Se tivéssemos um show e ele tivesse um ataque epilético grave, ele nunca diria: 'Sabe, eu não posso fazer o show'. Ele ira fazer, não importava o quanto seus ataques ficassem ruins, ele sempre queria continuar", conta. Eventualmente, os ataques de Ian aconteciam por algum equívoco na iluminação em cena. "Sempre acontecia quando o idiota da iluminação não ouvia você falando para não usar luzes que piscam. Ele ficava com os olhos vidrados, caía e ficava absolutamente rígido. Os roadies apareciam e o tiravam", lamenta Peter, que frequentemente o socorria nas crises.

Stephen, ainda hoje, lamenta não ter compreendido que o estado de Ian era muito grave. "Quando Ian ficou doente, ele não falou sobre isso, acho que ele pensou que iria nos decepcionar. Às vezes me pergunto se o conhecia, porque ele escreveu todas essas letras e eu sinceramente pensava que eram sobre outra pessoa. Depois, ouvindo 'Closer', falei: 'diabos, como eu perdi isso?'. Se ao menos pudéssemos conversar sobre o que ele estava passando, poderíamos ter feito algo. Mas duvido muito que fosse honesto, porque estávamos tão envolvidos com a música e os shows, que era nisso que estávamos interessados. Não queríamos parar", confessa.

O baterista assume que foram imprudentes ao não dar um tempo para que Ian se tratasse. "Em retrospectiva, havia muitos sinais de alerta. Ele tentou se matar uma vez e decidimos que, para animá-lo, em vez de cancelar o show, faríamos um mais pesado, que foi o do Bury, que terminou em um tumulto. Foi estúpido. Ele estava doente e sob muito mais pressão do que nós. Não imaginávamos o que poderia ser", lamenta.

Ian Curtis e Peter Hook em um show do Joy Division em março de 1979. Foto: Getty Images
Ian Curtis e Peter Hook em um show do Joy Division em março de 1979. Foto: Getty Images

Mesmo com tantos problemas, Ian parecia ser o mais dedicado dentro do Joy Division. "O último show que tocamos, em Birmingham, tocamos para cerca de 150 pessoas. Portanto, não tivemos sucesso. Ian sempre disse que seríamos enormes em todo o mundo. Ele ficava sentado lá enquanto comentávamos sobre não conseguir um show, um contrato de gravação ou o que fosse. Aí ele sempre dizia: 'Não se preocupe, seremos grandes no Brasil. Seremos grandes aqui e lá.' Sempre era ele quem nos pegava pela nuca e nos convencia a continuar. Ele tinha a paixão e o entusiasmo toda vez em que ficávamos desestimulados, era incrível nisso", diz Peter, que demorou a revisitar o repertório do Joy. "Mas quando chegou à data dos 30 anos (da morte de Ian), eu senti que deveria celebrar. Nós (Peter Hook e The Light) fizemos um show que esgotou, então começamos a receber convites em todo o país e depois em todo o mundo. Isso me devolveu algo que eu tinha tão cruelmente tirado de mim, que era o 'Closer' e senti que tinha o privilégio de poder satisfazer os desejos de Ian, chegando ao México e ao Brasil e tantos outros lugares", diz, satisfeito.

Peter disponibilizou um de seus grandes momentos dedicados ao Joy Division, no show "So This Is Permanent" realizado na Christ Church, em Macclesfield, em 2015. Também na segunda, foi realizado o "Moving Through the Silence: Celebrating The Life and Legacy of Ian Curtis", live beneficente para a Manchester Mind, com shows e entrevistas.

Bernard Sumner, guitarrista do Joy Division e vocalista do New Order, apareceu na live em uma ligação de Skype e relembrou curiosidades sobre o finado vocalista. "Ian era um grande fã de Frank Sinatra. Na verdade, passou a ser por causa de Jim Morrison (The Doors). Ele gostava muito dos Doors e, como Morrison era fã de Sinatra, ele começou a gostar também".

Stephen também deu seu depoimento na live, centrado na mitologia que cerca Ian Curtis e o grupo desde 1980. "O mito cresceu porque os fãs usaram a imaginação para completar as lacunas na história da banda. O Joy Division durou pouco, gravou poucos discos, deixou algumas fotos e um ou dois vídeos. Não há muito material. Então os fãs começaram a imaginar a partir daquilo e o mito se tornou maior que a realidade. Na verdade, éramos uma banda pequena, tocávamos em bares para poucas pessoas", disse.

Brandon Flowers, vocalista do The Killers, foi um dos convidados do evento. "Minha jornada para o Joy Division começou no New Order. Lembro-me claramente de ser jovem e de ver 'Bizarre Love Triangle' na MTV e sentir que era algo com que eu me identificava. Essa música incomparável, forte, bonita, primitiva e com alma: teve um impacto profundo em mim, assim como muitas outras”, comentou Brandon.

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