Ian Curtis: morto há 40 anos, o líder do Joy Division tocou à distância muito antes do coronavírus
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Ian Curtis: morto há 40 anos, o líder do Joy Division tocou à distância muito antes do coronavírus

Antes de Kurt Cobain (1967-1994), antes de Renato Russo (1960-1996), houve Ian Curtis (1956-1980). A imensa maioria dos fãs e discípulos o conheceu quando ele já estava morto e sua banda, Joy Division, encerrada. Ian Curtis se enforcou há 40 anos, em 18 de maio de 1980. Foi sua terceira tentativa de suicídio. Tinha 23 anos, depressão e uma epilepsia que estava sendo obstáculo para o desempenho necessário à beira de um grande salto na carreira: viajaria para o primeiro tour pelos Estados Unidos dois dias depois, com uma obra-prima por lançar, o álbum “Closer”.

Muito antes do coronavírus, Ian Curtis escreveu “Transmission”: “nos esconderemos desses dias/ permanecendo completamente sós/ ficando no mesmo lugar, ficando fora do tempo/ tocando à distância, o tempo todo fora do alcance”. Também escreveu “Isolation”, a canção que parece talhada para este 2020 da pandemia, mais do que a música homônima que John Lennon lançou dez anos antes, em 1970: dançante, mas nervosa/neurótica, em cima dos módulos rítmicos repetitivos programados pelo baterista Stephen Morris e recortada por riffs de sintetizadores com timbres glaciais influenciados por Kraftwerk.

Ian Curtis em cena: carisma e letras marcantes (Martin O'Neill/Getty)
Ian Curtis em cena: carisma e letras marcantes (Martin O'Neill/Getty)

Ian morreu no mesmo ano em que John. Virou ídolo para uma geração seguinte no rock, de adolescentes e jovens dos anos 1980 — gente como o próprio Renato Russo, da Legião Urbana. O suicídio veio antes do lançamento do segundo álbum, “Closer”, mas Ian já tinha a mística, já era visto como visionário por um número considerável de fãs. Muitos deles, é verdade, eram jornalistas, radialistas, críticos de música e fãs de rock alternativo — na época, chamado de pós-punk — na Inglaterra e em alguns pontos da Europa.

O Joy Division dava pouquíssimas entrevistas. Em termos de texto, as canções falavam por si, dentro do que se conseguia depreender da mixagem de cada gravação (as letras não vinham nos encartes dos discos, só as tirava quem estivesse realmente disposto a ouvir várias vezes seguidas — e tivesse ótima compreensão da língua inglesa).

A construção da imagem, porém, era incrível. Contribuiu para a mística desde o momento zero. Apesar de todo o poder e carisma do grupo ao vivo e do apelo visual que seus jovens integrantes pudessem ter, eles nunca apareciam nos discos. Nem na capa, nem na contracapa, nem em lugar nenhum — apenas as imagens genialmente arquitetadas pelo designer Peter Saville, o geniozinho da gravadora Factory.

Capa do semanário inglês "New Musical Express" sobre a morte de Ian Curtis: um álbum apenas, mas repercussão imensa (Reprodução)
Capa do semanário inglês "New Musical Express" sobre a morte de Ian Curtis: um álbum apenas, mas repercussão imensa (Reprodução)

Um single de edição limitada lançado pelo selo francês Sordide Sentimentale, em março de 1980, intitulado “Licht und Blindheit” (“luz e cegueira”, em alemão), com “Atmosphere” e “Dead Souls”, foi exceção. Mesmo assim, a foto do Joy Division tirada pelo holandês Anton Corbijn (que viria a assinar visualmente as carreiras de U2 e Depeche Mode, além de dirigir em 2007 “Control”, filme homenagem a Ian Curtis) aparece apenas na parte interior do encarte, junto de um ensaio de Jean-Pierre Turmel, dono do selo, em francês e em inglês, citando Pascal (1623-1662), o intelectual francês Georges Bataille (1897-1962) e o dramaturgo e poeta alemão Heinrich Von Kleist (1777-1811). Na capa, uma pintura neoclássica do francês Jean-François Jamul (1926-2002).

Era um tempo em que o anti-intelectualismo não era cool. Passada a violência destrutiva e primal do punk, o rock não tinha vergonha de buscar e exibir referências cultas. Como já fazia, aliás, desde o fim dos anos 1960. Dois exemplos disso, ambos ídolos daquela turma de Manchester: David Bowie, sempre um artista multidisciplinar, e Iggy Pop, que por trás da superfície de fisicalidade e espontaneidade expunha inquietações profundas e referências cultas. Não por acaso, “The Idiot”, seu álbum de 1977, com título tirado do clássico romance do russo Dostoievski (1821-1881), era o que Ian estava ouvindo na noite em que decidiu se matar.

Autodidata, Ian era um leitor muito acima da média. Conscientemente, entre os 19 e os 23 anos, se alimentou da ficção de Franz Kafka (1883-1924), Herman Hesse (1877-1962), William Burroughs (1914-1997) e JG Ballard (1930-2009), além de leituras de Nietzsche (1844-1900) e Sartre (1905-1980) para criar letras de música.

“O maior feito lírico de Ian Curtis foi capturar a realidade interior de uma sociedade em turbulência de modo tanto universal quanto pessoal”, define Jon Savage, 66, decano da crítica inglesa e um dos principais historiadores da cultura jovem dos últimos 100 anos. Testemunha ocular dos primórdios do punk britânico, ele é autor do livro mais completo sobre o grupo de Ian: a história oral transcrita “The Searing Light, The Sun and Everything Else: Joy Division”.

Versos sobre desesperança, desajuste e distanciamento social sempre tiveram imenso apelo para adolescentes de várias gerações. As letras do caderno que Ian abria no meio dos ensaios, cada vez que sacava uma boa semente de canção no trabalho dos colegas, eram sombrias, mas, até sua morte, não eram percebidas como pessoais.

A densidade artística não o impediu de ser um jovem que, em bando com a banda, inventava sacanagens e zoações, fazia todos rirem com um humor que podia ser escatológico. Outra figura legendária de Manchester, Kevin Cummins, fotógrafo do “New Musical Express” por 25 anos, lembra que Ian Curtis era um cara de “convívio divertido”, a despeito da imagem de recluso e torturado. “Parte da culpa é minha, porque sempre escolhia as fotos em que ele parecia deprimido”, brinca.

Segundo outro jornalista inglês, Paul Morley, o que mais de perto acompanhou o grupo — e foi levado por Tony Wilson, dono do selo Factory e amigo pessoal de Ian, para a casa do cantor, assim que souberam da morte —, o segundo álbum, “Closer”, era como “uma série de cartas de suicida endereçadas a um número de pessoas nas suas relações mais próximas”.

A epilepsia, diagnosticada em 1978, quando a carreira do Joy Division já era uma realidade, tinha piorado bastante. Ao longo desse tempo, ele sofreu convulsões no palco repetidas vezes. Segundo lembranças do baixista Peter Hook, Ian teve muitos episódios de ausência e pelo menos um ataque durante as gravações de “Closer”. Com pouco tempo disponível, orçamento baixo (todos tinham recém deixado seus day jobs, estavam tentando pela primeira vez se manter com o dinheiro da música) e muitas canções ainda por ser terminadas dentro do estúdio, a pressão era grande. “Nós não ajudamos muito, por ignorância. Mas Ian era o pior inimigo de si mesmo, ele nunca queria nos contrariar, dizia o que a gente queria ouvir. Nunca soubemos o que ele estava sofrendo ou pensando”, lembra Peter.

Terminaram de gravar em março de 1980, e a primeira tentativa de suicídio foi em 6 de abril. Se cortou com uma faca de cozinha, no que foi interpretado pelos amigos e companheiros de banda mais como “um momento Iggy Pop”. Mas pouco depois, tentou uma overdose de medicamentos. Com a vida pessoal desandada e o casamento em fase terminal, Ian foi acolhido por Tony Wilson (1950-2007), amigo e chefe, dono da Factory, em sua casa de campo. Ficou uma semana jogadão ali, mais sob os cuidados da então mulher de Tony, Lindsay Reade — Tony, ocupadíssimo com o trabalho como apresentador de TV e gestor de um selo emergente, não tinha muito tempo. Segundo o próprio Tony conta, em seu clássico livro “24 Hour Party People” (que inspirou o filme de Michael Winterbottom), ela não aguentou a tarefa e a dura convivência com o cantor .

Tony então foi obrigado a devolver o amigo na casa dos pais dele. À noite, porém, Ian voltou para a própria casa, onde o esperavam um documento com o pedido de divórcio e solidão. Na noite em que se enforcou, tinha revelado planos de assistir a “Stroszek”, filme de Werner Herzog sobre um músico de rua meio oligofrênico meio bebum que vai da Alemanha para os EUA.

Por quinze anos, e isso significa a década de 1980 inteira, o mito só fez crescer, influenciar e inspirar mil bandas mundo afora. Góticos, darks, pós-punks, alternativos, muitos foram os nomes dos carimbos. Imune ao suposto niilismo do espírito de época, Ian representou a velha história romântica do poeta que morre jovem. Assim foi herói e anti-herói de roqueiros intelectualizados e pseudointelectualizados, adolescentes acabrunhados ou tristonhos ma no troppo, intensos aspirantes a artistas e eventuais posers da depressão.

Até que em 1995 veio o livro da viúva, Deborah Curtis, “Touching From a Distance”... (“tocando à distância”, trecho da letra de “Transmission”, uma das músicas mais famosas do Joy Division). Eles começaram a namorar quando tinham 16 anos e se casaram quando ele tinha 18, e ela, 17, em 1975. Ian, segundo o relato, era machista, controlador, havia votado em políticos conservadores, tinha fascínio por objetos nazistas. Em 16 de abril de 1979, nasceu a filha Natalie, quando Ian já estava envolvido em uma relação extraconjugal com uma jornalista belga.

A mística pode ter sofrido arranhões nos últimos 25 anos, com cada vez mais informações circulando. Mas a reputação de Ian Curtis não diminuiu. As fraquezas, erros e dramas pessoais ficaram menores diante da perenidade de sua obra. E em 2007 ainda veio “Control”, filme homenagem dirigido pelo amigo Anton Corbijn, co-produzido por Deborah Curtis (e baseado em seu livro), imenso sucesso de público e crítica, conquistando fãs deste milênio. O jovem poeta segue inspirando e tocando à distância. Sempre vai haver adolescentes e ex-adolescentes, amantes e desamantes para se emocionar com seu verso mais famoso e certeiro: “O amor vai nos despedaçar de novo”.

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