Iggy Pop, sobrevivente do rock, canta a mortalidade e o amor em novo disco com jazz na mistura
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Iggy Pop, sobrevivente do rock, canta a mortalidade e o amor em novo disco com jazz na mistura

Introspectivo, com toques e improvisos de jazz, e letras que refletem sobre mortalidade, amor e sexo, com direito a uma faixa com um poema de Dylan Thomas (1914-1953) recitado. Assim é o novo álbum da lenda do punk rock Iggy Pop. Claro, "Free" não é o primeiro trabalho calminho de Iggy. Em 2009, ele lançou o suave "Préliminaires", tirando onda de chansonnier francês, mas inspirado no livro "A possibilidade de uma ilha", do provocador francês — e enfant terrible de meia idade — Michel Houellebecq. Em 2012, em "Après", prolongou a viagem francófila, com toques de dixieland e Cole Porter (1891-1964), em trabalho que foi elogiado por Bob Dylan.

O ex-vocalista do Stooges fez "Free" com o músico e compositor texano Leron Thomas, 40 anos, um jazzista em constante fuga para outros gêneros musicais, e a compositora americana, baseada em Los Angeles, Sarah Lipstate, 30 anos, mais conhecida por seu projeto Noveller, que tem influências do minimalismo.

Iggy gravou "Free" depois da turnê de seu álbum anterior, "Post Pop Depression", que o levou à estrada com o vocalista do Queens of the Stone Age, Josh Homme, e o baterista do Arctic Monkeys, Matt Helders. "Eu me senti um pouco esgotado", diz, sobre o final da turnê, em entrevista à BBC.

"À medida em que você amadurece, fisicamente, quando ultrapassa os 60 e se ainda estiver ativo, é recomendável dedicar mais esforços ao trabalho mental do que ao físico", pondera aquele que não para quieto durante suas energéticas apresentações.

Iggy Pop disse que ficou esgotado ao término da última turnê. Getty Images
Iggy Pop disse que ficou esgotado ao término da última turnê. Getty Images

"Durante as gravações de PPD, morei com vários caras por semanas. No estúdio, todos juntos, suados, fedorentos, empoeirados, esse tipo de coisa por seis, oito semanas. Isso é cansativo!", confessa. O ritmo do novo álbum foi bem diferente, com a comunicação quase toda por e-mail. "Não foi cansativo fisicamente, mas um esforço emocional", acrescenta.

O álbum abre com "Free", uma faixa esparsa de instrumentação na qual Iggy entoa o verso "Eu quero ser livre". Do que, exatamente? Ele se recusa a explicar: "Não consigo ficar muito pessoal sem estragar tudo para todos". Os metais e levadas de jazz fluem pelo do novo trabalho. Da bela "Sonali" à irreverente "James Bond" e à profana "Dirty Sanchez".

As meditações de Iggy sobre a mortalidade aparecem em faixas como "The Dawn" e, em especial, na faixa que traz sua incrível voz grave recitando "Do Not Go Gentle Into That Good Night", famoso poema do galês Dylan Thomas de 1951. Difícil pensar em versos sobre a mortalidade mais cheios de "lust for life" ("tesão pela vida", nome da clássica canção de Iggy — e do seu álbum de 1977): "Não entres nessa noite acolhedora com doçura/ Pois a velhice deveria arder e delirar ao fim do dia; Odeia, odeia a luz cujo esplendor já não fulgura", na tradução de Ivan Junqueira. A ironia é que Iggy havia gravado o poema para uma mega-agência de publicidade britânica, Grey, em 2016, para promover um seminário em Cannes. Iggy achou que se encaixaria no clima do disco — com toda a razão — e refez a leitura, chamando Leron e Sarah para improvisar à volta de sua voz.

Com o corpo esbelto, bronzeado o ano inteiro de quem vive em na Flórida e mechas loiras na altura dos ombros, aos 72 anos de idade, Iggy é, sem dúvida, um dos grandes sobreviventes da música. Manca, usa um salto para compensar a diferença de comprimento entre suas duas pernas, e tem problemas de visão que atribuiu ao uso de drogas injetáveis no milênio passado. David Bowie, Lou Reed, seus velhos parceiros de Stooges (Ron Asheton, Scott Asheton), muitos de seus colegas se foram, e 2019 marca os 50 anos do lançamento do álbum de estreia dos Stooges - precursor do punk rock e um dos discos mais influentes de todos os tempos.

Iggy Pop: um sobrevivente. Getty Images
Iggy Pop: um sobrevivente. Getty Images

Mas Iggy prefere não fazer comemorações. "Uma pessoa sugeriu alugar o Madison Square Garden e colocar um monte de bandas que foram influenciadas por mim para uma grande festa. Eu não queria fazer isso porque não estou fazendo 50 anos de carreira sozinho. É uma coisa mais delicada."

Em vez disso, Iggy está preparando um livro que abrange suas seis décadas na música. Pesquisar fotos antigas e escrever sobre elas o levou a um clima reflexivo, o que sem dúvida influenciou o novo disco. "Lá estou eu vendo fotos de toda a minha história e escrevendo várias anotações para cada década. Aí você se dá conta de que muitos de seus colegas e contemporâneos morreram", lamenta.

Iggy diz que as primeiras décadas de carreira foram "as mais fáceis". "E então, nos anos 80, eu fiquei realmente rabugento. Nos anos 2000, havia algo entre irônico e 'ah, foda-se'. Nessa época acho que eu disse algo do tipo 'Eu rastejei para fora do buraco escuro da depressão até as luzes do amor e da aceitação'".

Casado com Nina Alu, ex-aeromoça, há quase vinte anos (apesar de ter oficializado a união apenas em 2008), ele mantém duas casas: uma em Coconut Grove e outra, "mais espiritual", ao norte de Miami, em El Portal. É lá que, cercado de arte primitiva, memorabília dos tempos de Stooges e sua cacatua Biggie, ele trabalha. Livre.

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