Indiano que pedalou até a Suécia por amor tem história contada em música
Índia

Indiano que pedalou até a Suécia por amor tem história contada em música

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O indiano P.K. Mahanandia era um jovem pintor pobre, de uma casta intocável, que vivia no centro de Nova Délhi. Ainda adolescente, ouviu da mãe a previsão de que se casaria com uma mulher que viria de longe, nascida sob o signo de touro, envolvida com música e dona de uma floresta. Charlotte era uma jovem sueca, que vivia em boas condições em uma pacata cidade na Escandinávia. Nascida sob o signo de touro, era professora de música para crianças e vivia em uma casa cujo terreno abraçava parte de uma floresta. As histórias dos dois se cruzaram em uma noite de dezembro na capital indiana: P.K. fazia desenhos em uma praça por onde Charlotte passou. Mais de quarenta anos depois, eles ainda estão juntos. 

O enredo beira o inacreditável se acrescentarmos a ele o fato de que, depois que Charlotte retornou para a Suécia, P.K. juntou dinheiro para conseguir ir ao seu encontro. Tudo o que ele conseguiu comprar com o que arrecadou foi uma bicicleta. Com ela, P.K. pedalou por cinco meses e quase oito mil quilômetros até chegar em Gotemburgo, quando finalmente reencontrou sua musa inspiradora.  Este ano, jornada foi contada em música, composta e gravada pela cantora britânica de jazz Brigitte Beraha e pelo pianista Frank Harrison. Trabalhando em um projeto conjunto, Brigitte precisava de uma letra que se encaixasse em uma melodia romântica composta por Frank. A inspiração veio de P.K. e Lotta, como Charlotte é conhecida. 

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“Minha mãe me mostrou um artigo sobre a história deles e aquilo me comoveu de uma forma muito profunda, o que me deixou surpresa porque eu não sou de chorar com facilidade. Mais ou menos na mesma época, Frank havia escrito uma música bem romântica e me pediu para compor a letra. Eu soube logo que aquela história de amor era o casamento perfeito para isso”, conta a cantora, cuja composição passou a se chamar “The man who cycled from India for love” (ou “o homem que pedalou da Índia por amor”) e faz parte do álbum “The way home”. 

 A questão é que eu estava cegamente apaixonado e só pensei que ou eu conseguiria encontrá-la ou eu morreria. E se eu morresse, eu a encontraria na próxima vida.

Após a gravação, Brigitte enviou o link com a música para P.K. com a certeza de que ele não responderia. Foi quando veio a surpresa.  

“Após algum tempo, ele respondeu dizendo a família inteira tinha ficado muito emocionada. Poucos dias depois, eu estava sendo apresentada ao P.K, à Charlotte e ao filho deles, Karl, em Londres”, conta Brigitte. No encontro, ela convidou a família para o lançamento do álbum, esperando que eles não fossem aceitar o convite. Embora o filho, Karl, more em Londres, o casal ainda vive na Suécia com a outra filha, Emelie. “Nós ficamos muito felizes quando eles disseram que estariam lá. Foi tudo muito especial e lindo. Eles ainda espalham amor por onde passam”, completa a artista. 

PK e Lotta, junto com a família, posam ao lado de Brigitte / Arquivo pessoal
PK e Lotta, junto com a família, posam ao lado de Brigitte / Arquivo pessoal

A VIAGEM DE BICICLETA ATÉ A SUÉCIA

“Eu não tinha dinheiro para comprar um carro. Ela (Charlotte) foi para a Índia em 22 dias, mas eu não tinha noção de geografia, não sabia qual era a distância. Talvez isso tenha sido a minha força”, ri P.K, um senhor sorridente e bem-humorado de quase 70 anos. Quando ele conta que não entendia de geografia, não é exagero. Não bastasse a aventura de bicicleta por si só, o retratista indiano quase foi parar na Suíça à procura de Charlotte. 

“Eu estava confundindo Suíça com Suécia. No caminho, encontrei alguns europeus e falei sobre a minha história e eles me disseram que eu não deveria ir para a Suíça, mas sim para a Suécia”, gargalha P.K., ao mesmo tempo em que, com um tom de voz sereno e consciente, reconhece que vislumbrou a própria morte como uma possibilidade na jornada, mas nem isso o impediu de seguir. “A questão é que eu estava cegamente apaixonado e só pensei que ou eu conseguiria encontrá-la ou eu morreria. E se eu morresse, eu a encontraria na próxima vida”, reflete.  

O casal em registro dos primeiros anos do relacionamento / Arquivo pessoal
O casal em registro dos primeiros anos do relacionamento / Arquivo pessoal

Com a convicção de quem parece que viveu aquele momento na noite anterior - e não há 40 anos - P.K recorda: “Eu cheguei em Gotemburgo em 28 de maio de 1977, sem forças para ficar em pé. Estava fisicamente acabado mas me enchi de alegria quando a vi”, conta. Lotta havia dirigido por 70 quilômetros para encontrá-lo. Segundo P.K, ele estava fedendo muito. Já Lotta discorda: “Para mim, parecia perfume.”  

A história de PK e Charlotte é repleta de misticismo, surpresas mas, principalmente, de amor. Foi essa aura de encantamento mútuo que fez a história correr o mundo e virar livro nas mãos do autor sueco Per J. Andersson, no ano passado (“A Incrível História do Homem Que Pedalou da Índia à Europa Por Amor”, de Per J. Andersson, Editora Letramento). A repercussão da obra já levou o casal para Amsterdam, Roma e, em agosto, eles irão para a China. A publicação foi até entregue pela rainha Silvia, da Suécia, de presente para o ex-presidente indiano Pranab Kumar Mukherjee durante uma visita a Estocolmo.  

P.K. e Lotta vivem em uma cidade pequena da Suécia. No sábado seguinte ao que conversamos, celebrariam o casamento de um casal de amigos. “Eles quiseram nos colocar no lugar do padre”, conta um P.K orgulhoso, antes de perguntar sobre a vida amorosa da repórter. “Minha história não é tão bonita quanto a de vocês, mas é muito bonita do seu próprio jeito”, respondo. “Isso é muito bom. Importante é que vocês cuidem um do outro”, conclui, com toda sabedoria de quem entende do assunto. 

Quando pergunto qual música representaria o amor deles, eles riem. “A da Brigitte não conta”, brinco. Os dois pensam por uns instantes. Depois de tantos anos juntos, fica difícil escolher uma que resuma a história que compartilham. “Existem muitas boas expressões do amor em músicas. A vibração da música sozinha é uma expressão de amor”, reflete Charlotte, “mas acho que escolheríamos alguma que não é feita de palavras, apenas som.” Talvez seja isso. Um amor dessa forma, não precisa de muitas palavras. Apenas som. 

PK ganhava seu sustento vendendo desenhos em uma praça de Nova Délhi / Arquivo pessoal
PK ganhava seu sustento vendendo desenhos em uma praça de Nova Délhi / Arquivo pessoal

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