Indo além da música, Ruído Rosa Aparelhagem usa grandes caixas de som para amplificar a voz da mulher
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Indo além da música, Ruído Rosa Aparelhagem usa grandes caixas de som para amplificar a voz da mulher

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A ideia por trás do Ruído Rosa Aparelhagem é simples: amplificar a voz de mulheres. Literalmente. O coletivo, responsável pelo sistema de som de diversas festas, bailes e festivais de São Paulo, começou com o intuito de se tornar o fornecedor oficial do grupo de DJs, cantoras e MCs Feminine Hi-Fi, mas hoje suas criadoras abraçaram outros caminhos: não só cuidam dos grandes amplificadores nos eventos do Feminine, como também ampliam as vozes de mulheres em diversas outras frentes, entre elas rodas de conversa e workshops.

O Ruído Rosa nasceu em 2016, porém foi só no início de 2018 que Raphaela Ah (engenheira de áudio), Bianca Volpi (produtora executiva), Andrea Lovesteady (produtora e DJ) e Isabela Rabello (DJ e artista visual) conseguiram reunir o equipamento necessário para botar suas caixas na rua. Naquela época, o Feminine Hi-Fi já era conhecido como um dos primeiros soundsystems brasileiros comandado apenas por mulheres. “Fico muito feliz de ver a cada evento como as manas que colam se sentem felizes, livres, representadas”, afirma Andrea, que também faz parte do núcleo do Feminine ao lado de Laylah Arruda (cantora), Dani Pisces (DJ) e Lys Ventura (produtora). 

A história dos dois coletivos é interligada não só pela parceria, como também pelo fato de que o mundo dos soundsystems e da técnica de áudio sempre foram majoritariamente masculinos. Nos eventos de sistemas de som, o Feminine construiu uma trajetória que, de certa forma, tem blindado as integrantes de um machismo mais gritante. “A Rapha, por exemplo, é hoje bem conhecida e respeitada no meio técnico, já ajudou vários caras. Na cena, se eles tiverem um tipo de atitude assim, não pega nem bem pra eles”, diz Andrea. “Sempre vai ter machista, seja no público, na programação de um evento ou na produção, mas só de a gente estar ali já é um empoderamento”.

Sempre vai ter machista, seja no público, na programação de um evento ou na produção, mas só de a gente estar ali já é um empoderamento

A cultura dos soundsystems nasceu na Jamaica com o intuito de levar o reggae e suas vertentes para as ruas, alcançando o público da periferia que não tinha condições de pagar por entradas de shows e clubes. O reggae, por sua vez, é o som ligado ao movimento rastafári, retrógrado quanto aos direitos das mulheres. Ainda assim, o ecossistema dos soundsystems  — ao menos o brasileiro — é mais amigável se comparado ao universo da engenharia de áudio. Que o diga Rapha, formada pelo reconhecido IAV — Instituto de Áudio & Vídeo. “Nos soundsystems, fui muito bem acolhida. Já no cenário do áudio, ouvi e ouço e muita coisa. Quando vou à Santa Efigênia (região de São Paulo conhecida pelo comércio de eletrônicos), os caras já questionam: ‘Mas você vai instalar? Não quer que eu faça?’”, conta. “Ou vou comprar um cabo ‘X’ e querem me provar de qualquer jeito que o que eu quero está errado. Não acreditam que eu sei o que estou fazendo”. Hoje, para evitar o desgaste de lidar com o mansplaining, ela busca comprar equipamentos apenas de fornecedores que já conhece.

Para 2019, o coletivo tem alguns projetos engatilhados – além de fornecer as caixas para os eventos do Feminine Hi-Fi e alugar para outros clientes, neste mês elas iniciaram o projeto Ruído Rosa Amplifica, com oito apresentações envolvendo música e rodas de conversa em centros culturais paulistanos, sempre com mulheres estão no centro da produção. Mas elas sentem que ainda têm muito a percorrer. 

“Eu cheguei a me mudar para Florianópolis para conseguir dinheiro trabalhando como garçonete num restaurante. E até agora não terminamos completamente o projeto do jeito que queremos”, conta Andrea. “Às vezes, ainda dá um desespero. Por exemplo, você precisa fazer uma manutenção no equipamento ou chega uma conta e não tem uma previsão de evento para entrar uma verba. A maior dificuldade é acordar todo dia e manter o sonho. Mas não deu de um jeito, vamos tentar de outro”, completa. 

Ainda um “bebê”, como define Rapha, o Ruído Rosa segue majoritariamente inserido em projetos que orbitam em torno do universo dos soundsystems, mas ambiciona alcançar outros núcleos. “Eu sonho que a gente consiga fazer parcerias com representantes de mais estilos musicais, como a eletrônica e o rap, e dar voz a mais mulheres”, prossegue Andrea. O objetivo é fazer com que as caixas do Ruído Rosa Aparelhagem sigam na luta pela amplificação da voz mulher, seja qual for o ambiente.

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