Ivan Santos, parceiro de Lenine radicado na Alemanha, mostra no Brasil canções de seu 'exílio' voluntário
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Ivan Santos, parceiro de Lenine radicado na Alemanha, mostra no Brasil canções de seu 'exílio' voluntário

Ele moldou sua carreira musical unindo lembranças como o som de Anísio Silva (1920-1989) que tocava numa radiola num bar do Recife, o programa de rádio de Adoniran Barbosa (1910-1982) em São Paulo, as rodas de violão pelas esquinas de João Pessoa, e o deslumbre com a cena do Posto 9 no Rio. É uma gama tão ampla de referências que não dá para listar em uma só entrevista com Ivan Santos. O músico, que nasceu em Pernambuco, morou nessas outras cidades e, em 1992, decidiu partir para a Alemanha, fará um único show no Rio. A rara apresentação em terras brasileiras será dia 11 de outubro, na Audio Rebel, em Botafogo.

Parceiro de Lenine (com quem ganhou um Grammy Latino de Melhor Canção em Português por "Ninguém faz ideia"), Lula Queiroga, Pedro Luis, Zé Renato, Silvério Pessoa entre outros, o cantor e compositor está há mais de 30 anos sem fazer uma apresentação no Rio, a não ser em participações esporádicas. "Eu vou muito pouco ao Brasil, fico sempre querendo fazer uma coisa como eu gostaria, o que nunca dá, e aí acabo não fazendo nada. Uma vez cantei 'Do it' com Lenine, no Circo Voador, mas o público é que foi o cantor!", comenta Ivan, falando de Frankfurt.

Ivan Santos e Lenine, numa apresentação no Circo Voador. Divulgação
Ivan Santos e Lenine, numa apresentação no Circo Voador. Divulgação

A inabilidade em gerenciar a própria carreira, aliada às dificuldades financeiras na época, foram dois dos principais motivos que levaram Ivan a morar fora. "Eram os tempos de Collor, eu trabalhava como roadie do João Penca e Seus Miquinhos Amestrados e compunha com eles, ou pra eles, alguns pequenos hits. Um dia, me convidaram para compor com eles e Dôdo Ferreira as canções do musical 'Splish Splash', com Cláudia Raia, que ficou quase um ano em cartaz. Mas a inflação devorava os nossos direitos autorais, aí eu decidi sair do Brasil", explica.

A Alemanha foi uma aposta quase às cegas: "Um amigo do Rio estava morando lá e tocando com a Rio Samba Band, que se apresentava em festas, e estavam precisando de um cantor e diretor musical. Eu fui como estudante da língua, da qual não tinha a menor ideia. O dono da banda, depois de alguns meses, me contratou e aí me instalei em Frankfurt", conta Ivan sobre o início do "exílio".

Não foi nada fácil encontrar músicos que tivessem a ver com sua proposta musical. "Depois, tinha e tem o problema de oferecer e vender os shows. Eu sempre fui meu próprio manager mas não sou bom nisso e, durante muito tempo, minha banda viveu de recomendações, do boca-a-boca", diz ele, que hoje está mais tranquilo em relação às questões burocráticas: "Tenho alguém que cuida dessa parte ingrata do trabalho e temos em andamento uma turnê pela Índia, entre novembro e dezembro. Vai ser uma grande aventura", diz, ansioso.

Com uma estabilidade conquistada há bastante tempo, Ivan conta que faz muitos shows fora da Alemanha, com banda e sozinho. "Fiz vários shows-solo em pubs que têm uma sala especial para concertos, por exemplo. Você toca para 70, 100 pessoas num corpo a corpo muito intenso e sai de lá energizado", diz, satisfeito.

Ivan faz shows em vários países da Europa. Divulgação
Ivan faz shows em vários países da Europa. Divulgação

House of Samba” foi o primeiro CD lançado por Ivan na Alemanha. "Eu produzi para a Rio Samba Band. É um disco de covers onde tentei ao máximo passar por longe das fórmulas usadas pelas 'party bands'. Tentava usar aquele 'emprego' da maneira mais criativa possível e experimentei muito nos cinco anos em que fiquei no grupo; às vezes funcionava, às vezes não. Mas foi ali que comecei a me assumir como cantor quando minha vida era fazer arranjos de músicas alheias, ensaiar e viajar pela Alemanha, pela Suíça, às vezes Turquia", lembra.

A experiência deu base para seu dois discos solo, onde todas as faixas são de sua autoria. O primeiro, "Songs from Nowhere", foi em 2002, época em que já apresentava shows cantando composições próprias. "Produzi com Geovany da Silveira, que tocava baixo na minha banda. O segundo disco, 'Grampeado' (2010), começamos a produzir juntos mas a certa altura assumi a direção sozinho. Tem duas canções produzidas no Rio, uma por meu parceiro Marcos Kuzka e outro por Plínio Profeta. Tem Flávio Guimarães, do Blues Etílicos, tocando em uma das faixas e uma parte da seção rítmica do Pedro Luís e a Parede em outra. De Recife participaram Silvério Pessoa, Luciano e Tostão Queiroga, Jam da Silva e Lenine. É o meu CD nordestino-carioca", define.

Sobre um terceiro trabalho, Ivan diz que em breve terá novidades. "Eu sou lento e, como não quero apenas repetir o CD anterior usando diferentes canções, fico esperando até enxergar a cara do novo projeto. Agora, por exemplo, isso já está acontecendo e logo teremos alguma coisa gravada", avisa.

Quem sabe o novo disco não inclua novidades com seus parceiros? Os daqui e de lá, como Rosanna Tavares, Zélia Fonseca e Márcio Tubino, além de Philippe Baden Powell e Gilles Cardoni na França, e Humberto Araujo e Paulinho Lemos, em Portugal. "São estilos muito diferentes e isso para mim é sempre um desafio e um ensinamento. Quando o resultado tem a ver com o que eu gosto de cantar, eu incluo no meu repertório", diz.

Ivan conta que a apresentação no Rio foi ideia do parceiro Eduardo Aguiar, com quem compôs "Humano" (vídeo abaixo), recentemente registrada no álbum "Projeto 1 — Entropia", com vocais de Zélia Duncan. "Ele e sua namorada, Mônica, tiveram que me convencer porque eu achava que não teria tempo suficiente para fazer uma coisa bacana. Mas topei e acho que vai ser bem legal", afirma.

O repertório será dividido entre composições próprias e parcerias. Algumas são antigas e fazem parte do repertório dos meus shows por aqui. Outras, bem recentes, vou tocar pela primeira vez aí no Rio, o que é bom porque aumenta o risco e o risco estimula a emoção", teoriza ele, que gosta de definir sua música como "world pop". "Como world music diz mais o que uma música 'não é' do que o que ela 'é', world pop — termo inventado por um amigo — se não diz como minha música é, pelo menos diz que ela não é world music", compara.

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