Jackie Shane: a misteriosa cantora transgênero indicada ao Grammy 2019
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Jackie Shane: a misteriosa cantora transgênero indicada ao Grammy 2019

Por décadas, o paradeiro de Jackie Shane permaneceu um mistério. Teve quem acreditasse que a artista transgênero — famosa por tocar na vida noturna de Toronto, no Canadá, nos anos 1960 — estivesse morta tamanho foi seu desaparecimento, que durou de 1971 até 2017. Naquele ano, a artista foi convidada para gravar o disco "Any Other Way". Pelo trabalho, ela, hoje aos 78 anos, concorre no próximo Grammy na categoria de álbum histórico.

A volta triunfal de Jackie, no entanto, não foi o que ela esperava. Na verdade, a cantora de R&B continua a manter bastante discrição, já que não faz aparições públicas, nem shows. Ela apenas concede entrevistas por telefone e os próprios músicos que colaboraram em seu álbum jamais a viram.

À agência "AP", ela falou sobre a redescoberta de sua carreira por um público mais jovem. "Não era bem o que eu queria, mas está tudo bem, me sinto bem com isso. Mesmo após tanto tempo, as pessoas ainda se importam. E é muito empolgante", explicou ela.

Quem rastreou Jackie foi um agente de talentos de uma gravadora chamado Douglas McGowan. Em 2014, ele conseguiu contactar a artista, que vive em Nashville, sua cidade natal. Após muito esforço e algumas ligações, ele conseguiu convencê-la a gravar um disco duplo com os melhores sucessos de sua carreira. Daí, nasceu "Any Other Way", com 25 faixas.

O interesse pelo paradeiro da cantora não se deu assim, do dia para noite. Em 2010, uma emissora canadense produziu um documentário sobre sua carreira, reacendendo a pergunta: "Onde está Jackie?". Também ajudou o fato de ela ser figura recorrente em algumas produções culturais, como espetáculos de teatro musical sobre sua história e de outros ídolos do R&B de sua época. Seu nome reverbera na boca de ativistas e célebres figuras LGBT, como a drag queen RuPaul e a atriz transgênero Laverne Cox, de "Orange is the New Black".

Nunca me escondi. Queria dizer ao mundo que poderia ser quem eu quisesse ser

Acontece que Jackie chama a atenção por si só. Ela revelou em entrevista que começou a se vestir "como uma mulher" aos 5 anos. "Nunca me escondi. As pessoas se perguntavam como eu conseguia andar em sandálias de salto alto com os pés tão pequenos. Eu dava meu jeito. Queria dizer ao mundo que poderia ser quem eu quisesse ser", afirmou.

Ela começou a cantar na igreja e em grupos de música religiosa. Sua transição de gênero aconteceu aos 13 anos, quando entendeu que era "uma fêmea no corpo de um macho". Ressaltou que não sofria qualquer discriminação na escola ou em outros ambientes que frequentava. Era amiga de Little Richard, Jimi Hendrix e Jackie Wilson.

Se não era julgada por ser transgênero, sabia bem o que era o racismo. Ela viveu durante a era das leis segregação racial, conhecidas como Jim Crow Laws, promulgadas no sul dos EUA. Elas vigoraram de 1876 a 1965 e, por isso, Jackie foi tentar a carreira em outro local: o Canadá. Lá, ela alcançou a fama, sucesso e um monte de admiradores. "Não podemos escolher onde nascemos, mas sim onde nós chamamos de casa. E Toronto é minha casa", disse Jackie.

O motivo para deixar para trás tudo o que construiu foi a mãe, que ficou viúva. Jackie, aliás, também já estava ficando cansada de fazer tantos shows. Juntou dois bons motivos e pronto, se exilou dos palcos.

Seu retorno às gravações, graças ao novo disco de 2017, reacende outra pergunta: quando ela voltará aos palcos? Jackie respondeu que não sabe, mas está pensando a respeito. "Isso de se apresentar suga muita energia de você. Eu faço o que posso, mas saio muito desgastada dessa experiência", admite.

Ela comparecerá à cerimônia do Grammy deste ano, que acontece no dia 10 de fevereiro em Los Angeles.

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