Janis Joplin, a voz, a força e a dor que se apresenta como um espelho
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Janis Joplin, a voz, a força e a dor que se apresenta como um espelho

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O conceito de juventude e a própria noção do jovem como uma entidade social autônoma e singular foram criados na metade do século XX, e solidificados em especial através da força da música pop e do rock. Antes, o jovem era simplesmente um adulto precoce – passava-se da infância para a preparação para o mercado de trabalho; uma vez “pronto” e trabalhando, a criança se transformava em adulto. Foi o rock quem melhor segregou essa etapa da vida, sendo a trilha sonora da juventude enquanto um grupo social e cultural único –  e revolucionário. 

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A década de 1960 é, portanto, o triunfo de tal transformação. Subitamente a música, que antes era feita por adultos sérios e compenetrados, passou a ser não só realizada como consumida por jovens, falando sobre e para os jovens, em sonoridades que os “adultos” não só não compreendiam como não eram capazes de reproduzir. A revolução jovem dessa década se deu ao som do rock, que significa esse triunfo pela pouca idade com que artistas hoje icônicos suas curtas carreiras – Jimi Hendrix e Jim Morrison morreram com 27 anos, o primeiro tendo lançado somente três discos em vida. E se esses artistas são exemplos do vigor com que a juventude foi transformada em refinamento, força e qualidade musical, outro símbolo dessa força dos anos 1960 é a voz e a música de Janis Joplin

Também falecida aos 27 anos, é ainda espantoso que Janis tivesse somente 24 anos quando de seu primeiro disco, “Big Brother & The Holding Company”, junto da banda de mesmo nome. Pertencente à santíssima trindade dos artistas da turma de 1967, ao lado justamente de Jim Morrison e Jimi Hendrix, Janis se tornaria uma espécie de ícone do imaginário hippie e psicodélico que marcaria a onda do rock californiano da segunda metade dos anos 1960. Engana-se, porém, quem tenta encaixar sobre sua música a ideia de uma sonoridade climática e pastosa, de longos solos, letras imagéticas sem maiores sentidos e intermináveis arranjos em camadas de sons saídas diretamente da mais colorida viagem de ácido: muitas bandas de fato foram assim, mas não Janis Joplin. Tudo nela era elétrico, aceso, violento e dolorido. 

Como uma cantora praticamente iniciante podia soar com a profundidade da mais experiente e visceral das cantoras? Como uma cantora branca, de vinte e poucos anos, foi capaz de alcançar a densidade de um velho bluesman do delta do Mississippi?

Da mesma forma que os também californianos The Doors nada têm a ver com esse imaginário sonoro hippie – uma banda que trata de morte e poesia, com influências do jazz e dos cabarés alemães num ritual apocalíptico e quase sombrio – Janis parece trazer da tradição mais furiosa e gutural do blues o sangue principal que faz pulsar sua musicalidade. Respeitar tradições, porém, não era exatamente o espírito dessa geração – inquieta, transformadora - e portanto Janis misturou ao blues o frêmito elétrico, estalado, rouco e urgente que verdadeiramente caracteriza o melhor rock da época. Na sua garganta, assim como nas mãos de Hendrix, o blues se encontrava com o soul e a mais moderna música jovem, sem jamais perder a dor e a profundeza lúgubre que definem o universo e o sentimento do estilo. 

A meteórica carreira discográfica de Janis – iniciada em 1967 e encerrada em 1971, com o clássico “Pearl”, lançado três meses após sua morte – se resume a quatro discos. E apesar do álbum póstumo (trazendo “Cry Baby”, “Me and Bobby McGee” e “Mercedes Benz” em seu repertório) ser seu maior sucesso comercial, tem em “Cheap Thrills”, disco lançado em 1968 ainda com a banda Big Brother, seu auge estético. Da icônica capa, feita pelo genial cartunista Robert Crumb, passando pela sonoridade crua e suja da banda, até à doçura que culmina em explosão pela voz de Janis em canções como “Summertime”, “Piece of My Heart”, “Ball and Chain” e “I Need a Man to Love”, tudo em “Cheap Thrills” parece definir uma época, um momento, um lugar. E, como toda obra com tal capacidade de síntese, zeitgeist, captura de um espírito, também aponta para o futuro e se torna imortal. 

Pois é esse o paradoxo temporal que marca tal geração: ao mesmo tempo em que evidentemente Janis Joplin – assim como Hendrix, Morrison, Brian Jones, Kurt Cobain, Amy Winehouse e tantos outros – morreu cedo demais, é a juventude perpétua de sua imagem, voz e seu legado que parece nos desafiar até hoje. Como uma cantora praticamente iniciante podia soar com a profundidade da mais experiente e visceral das cantoras? Como uma cantora branca, de vinte e poucos anos, foi capaz de alcançar a densidade de um velho bluesman do delta do Mississippi? Tais perguntas seguirão sem resposta, assim como qualquer especulação sobre o que seria de tal geração se esses artistas tivessem envelhecido – o que permanece é a voz, a força, a dor que se apresenta como um espelho, ao mesmo tempo juvenil e ancestral, de uma época e da própria experiência humana. 

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