'Jesus Blood' e o mistério da canção composta por um anônimo sem teto
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'Jesus Blood' e o mistério da canção composta por um anônimo sem teto

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O ano é 1971. O compositor britânico Gavin Bryars trabalhava com um amigo, Alan Power, em Londres, produzindo um documentário sobre pessoas pobres que moravam nos arredores da estação de Waterloo. Em meio às gravações, pessoas em situação de rua começaram a cantar para as câmeras. A maior parte deles, alcoolizada, entoava trechos de óperas ou outras músicas de harmonia romântica. Exceto por um senhor, que estava sóbrio e cantarolou versos com conotação religiosa: “O sangue de Jesus não falhou comigo até hoje” (“Jesus love never failed me yet”), ele cantava. A gravação não foi usada na montagem final do documentário, mas mudou a vida de Bryars para sempre, rendendo a ele uma de suas mais bonitas composições, batizada de “Jesus Blood”, cuja versão final completou 25 anos em 2018.

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“Quando eu cheguei em casa (depois das gravações) e ouvi a fita, achei que o tom em que ele estava cantando batia com o que eu estava tocando no piano, então improvisei um acompanhamento simples. Reparei que a primeira parte da música formava um loop que se repetia de maneira um pouco imprevisível. Levei esse trecho para Leicester, onde eu estava trabalhando no Departamento de Belas Artes, e copiei o loop para um rolo contínuo de fita, pensando em talvez adicionar um acompanhamento orquestrado a isso”, lembra o compositor. A porta da sala de gravação onde Bryars estava dava para um grande estúdio de pintura. Enquanto a fita copiava no estúdio, ele saiu para tomar uma xícara de café. “Quando voltei, encontrei a sala, normalmente animada, estranhamente prostrada. As pessoas andavam muito mais devagar do que o normal e algumas estavam sentadas sozinhas, chorando baixinho”, conta. 

Bryars ficou alguns segundos sem entender o que se passava, até que percebeu que a fita com a voz daquele homem cantando ainda estava tocando e era isso que havia deixado todas as pessoas ao redor emocionadas.

“Aquilo me convenceu do poder emocional da música e das possibilidades oferecidas quando você adiciona um simples acompanhamento orquestral, que respeitava a nobreza e a fé simples daquele senhor. Embora ele tenha morrido antes que pudesse ouvir o que eu havia feito com seu canto, a peça permanece como um testemunho eloquente, mas discreto, de seu espírito e otimismo”.

A história fica ainda mais curiosa ao entender o porquê de as fitas terem ficado com Bryars, já que elas, na verdade, pertenciam a Alan. Elas foram dadas a Bryars como um presente do amigo, já que estes eram objetos caros à época.

“Jesus Blood” foi originalmente gravada em 1975, mas uma versão atualizada foi lançada em 1993. Naquele ano, a música concorreu ao Mercury Prize, prêmio anual de música dado ao melhores álbuns lançados no Reino Unido por artistas britânicos ou irlandeses — ao lado de trabalhos de artistas como Sting, New Order e PJ Harvey. Ela também foi gravada pelo cantor americano Tom Waits, tendo sua voz sido adicionada à do cantor de rua. Apesar de a gravação original ter poucos versos que se repetem por 26 segundos, o arranjo apresentado pela orquestra — com uma harmonia em constante evolução — faz com que os pouco mais de 25 minutos da canção original pareçam apenas cinco.  

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