‘Jesus Is King’: ‘Kanye West é o cristão mais influente no mundo hoje’, diz produtor do álbum
Entrevista

‘Jesus Is King’: ‘Kanye West é o cristão mais influente no mundo hoje’, diz produtor do álbum

“Todos queriam o ‘Yandhi’, até que Jesus fez a limpeza.” O verso cantado por Kanye West em “Selah”, faixa de “Jesus Is King”, seu novo álbum, é uma síntese do que aconteceu no último ano na vida do rapper. Esperava-se que ele sucedesse “Ye” com “Yandhi”, projeto cujo título mistura seu apelido com o nome do ativista indiano. Mas não. Inspirado por sua série de “cultos de domingo” (já falamos sobre o ‘Sunday Service’ aqui), o artista diz ter se convertido logo após a apresentação do festival de Coachella, em abril deste ano. A transformação espiritual mudou o rumo das gravações, que já aconteciam perto de Cody, cidade no estado americano de Wyoming.

“Eu senti que, de repente, nós tínhamos uma missão. Não estávamos ali só para tirar o melhor som e fazer a melhor gravação, ou qualquer outro pensamento que nós tivéssemos antes. A partir daquele momento (da conversão de Kanye), a nossa missão mudou. O nosso pensamento passou a ser: 'Nós temos que fazer isso para Deus. Nós temos que fazer isso para que o mundo saiba sobre Jesus Cristo.' Isso é uma mudança enorme”, conta Federico Vindver, produtor de “Jesus Is King”, em entrevista pelo telefone dada ao Reverb na última segunda-feira (28). O projeto gospel foi a primeira vez em que ele trabalhou com Kanye. Argentino de Buenos Aires, o músico chegou até Ye por intermédio do produtor Timbaland, com quem divide a parceria na maioria das faixas de “Jesus”. A afinidade artística e espiritual — Fede, como é conhecido o produtor, também é cristão — com Mr. West foi fundamental para que ele fosse creditado como autor e produtor em dez das 11 músicas do álbum.

Acho que ele não vai voltar a fazer música secular nunca mais

Se um dia teremos “Yandhi”? A julgar pela opinião de Fede, não. Para o produtor, dificilmente Kanye voltará a produzir músicas próprias que tenham cunho “secular” — ou seja, sem temática cristã. “Absolutamente não. Eu acho que ele não vai voltar a fazer música secular nunca mais", decreta o músico, que também trabalhou no próximo álbum do Coldplay, "Everyday Life", que será lançado no fim de novembro.

Federico Vindver escreveu e produziu dez das 11 músicas de 'Jesus Is King' / Foto: Divulgação
Federico Vindver escreveu e produziu dez das 11 músicas de 'Jesus Is King' / Foto: Divulgação

A produção de “Jesus Is King” levou Fede e outras “30 ou 40 pessoas”, segundo ele, a passar a maior parte dos últimos meses em Wyoming, afastadas de suas vidas cotidianas. Ele prefere não comentar sobre se Kanye teria de fato pedido que ninguém mantivesse relações sexuais fora do casamento durante a produção, mas admite que o começo do isolamento foi complicado. “Foi difícil entender o porquê de estarmos fazendo tudo dessa forma, mas depois eu entendi. Todos nós fomos separados de nossas distrações comuns do dia a dia e fomos colocados em um ambiente em que a única coisa que nós poderíamos fazer seria criar esse tipo de música”, diz. Por conta do trabalho, o produtor, que acaba de se tornar pai pela primeira vez, acabou ficando longe da mulher, a atriz americana Tye Myers, durante quase todo o período da gestação. Um esforço que, para ele, teve um propósito. “Isso tudo foi o acontecimento de uma vida e o trabalho mais importante que fiz profissionalmente até hoje”, decreta.

Leia a entrevista completa com Federico Vindver:

Como está tudo agora, depois que o álbum finalmente foi lançado?

Neste momento, eu só vejo fumaça e fogo (um incêndio florestal atingia as proximidades de alguns bairros de Los Angeles, onde Fede mora, durante a entrevista). Mas tudo está bem. O trabalho nunca para, é claro, então parece que o álbum saiu e a gente continua fazendo outros projetos, além daqueles que fazemos com o Kanye. A gente não teve a chance de descansar de verdade ou qualquer coisa do tipo. É um trabalho que não acaba nunca, mas me sinto bem. Eu estou feliz que as pessoas gostam do álbum.

Bom, sua proximidade com o Kanye aconteceu por conta do Timbaland, com quem você já produz há anos. Como você e Tim se conheceram?
Eu trabalhava como produtor para uma banda do Canadá chamada New City. Eles se separaram agora, mas eles estavam juntos naquela época, em 2017, e o Timbaland ouviu a música deles. Eles tinham um contrato com a Universal (gravadora) no Canadá, mas o Timbaland queria que eles assinassem com a gravadora dele aqui nos Estados Unidos. Ele acabou assinando com os caras e depois quis saber quem tinha produzido as faixas da banda. Eles disseram que havia sido eu, então foi quando o Tim disse: ‘OK, eu quero ele no estúdio comigo’. Eu fui ao estúdio e nós nos conhecemos. Logo de cara, tivemos uma boa química produzindo e desde então trabalhamos juntos sempre.

Como foi a primeira vez que você encontrou o Kanye pessoalmente?
A primeira vez que nós nos encontramos foi no Heat Factory Studios, em Miami. Nós (ele, Timbaland e Angel López, produtor mexicano que também está em ‘Jesus Is King’) estávamos lá produzindo um outro projeto e iríamos embora no dia seguinte. Foi quando nos disseram que deveríamos ficar porque o Kanye chegaria no dia seguinte e queria trabalhar com o Tim e conosco. No dia seguinte, ele apareceu. Eu acho que o que eu senti pelo Kanye desde o primeiro momento até agora foi uma total admiração. É isso que acontece quando você está trabalhando com um gênio de verdade. Eu já tive a oportunidade de trabalhar com muitos gênios, incluindo o Tim (Timbaland), e um monte de outras pessoas, mas eu acho que a diferença é que o Kanye é mais como um artista. Não como o Jay-Z é um artista, mas ele é um artista como, por exemplo, Pablo Picasso (1881-1973) ou Andy Warhol (1928-1987) Alguém que vive e respira arte. E ele não está preocupado sobre o que o mundo vai achar ou pensar do que ele faz. Ele está mais preocupado sobre fazer arte de verdade. Você não pode apresentar uma ideia para ele que não seja artisticamente incrível. Ele sempre tem esse senso de que tudo que você traz para ele tem que produzir uma experiência transformadora.

Às vezes, você trabalha com outros artistas em que você tenta produzir um hit ou impressioná-los com certo sons, mas com o Kanye nada disso importa. O que você trouxer tem que ser artístico, inovador e novo. Essa foi a primeira parte da minha relação com o Kanye. Mas isso evoluiu para algo ainda maior, que foi a completa e total conversão do Kanye ao cristianismo. Nós começamos a trabalhar com ele era para um projeto chamado “Yandhi”, que vazou e um monte de gente falou sobre isso, mas no meio de tudo o Kanye realmente deu um passo adiante com relação à fé dele. Ele sempre se considerou um cristão e até fez músicas cristãs antes, como "Jesus Walks" e outras que falavam sobre a religião e Jesus. Mas, quando ele se converteu completamente, por volta de maio ou junho, tudo se transformou.

Kanye é uma daquelas pessoas que jamais faria nada pela metade. Se amanhã ele decidir ser pintor, ele vai se tornar o melhor pintor da História. Quando ele decidiu que teria uma linha de tênis... Eu não sei se você sabe, mas os tênis do Kanye estão entre os produtos mais desejados do mundo. Ele eleva tudo para o nível mais alto que alguém pode alcançar. Isso é muito inspirador para mim, principalmente enquanto cristão também. As pessoas selecionam o que gostam do cristianismo e vão viver suas vidas, mas ele realmente prega que a gente viva tudo o que a Bíblia diz de forma completa e irrestrita. Eu acho que a nossa relação teve esses dois lados, o lado artístico e o lado espiritual.

Essa transformação espiritual do Kanye te influenciou, artisticamente, de alguma forma?
Para mim (a transformação do Kanye) foi um dos maiores exemplos da manifestação do poder de Deus. Eu vim da Argentina, mas eu frequento muitos cultos aqui nos EUA. Meu primeiro emprego aqui foi tocando em uma igreja, então eu passei muito tempo dentro da igreja e já vi muitas transformações incríveis e já senti muitas coisas incríveis, mas eu acho que a transformação do Kanye foi um dos maiores exemplos, na minha opinião, da manifestação do poder de Deus. Aquilo foi inexplicável. Eu sempre senti que nunca estava completamente satisfeito com o meu trabalho na indústria, mesmo que eu já esteja nela há tantos anos. Nunca trabalhei em outra área, sempre fui músico. Comecei aos 13 ou 14 anos. Mas eu sempre senti um vazio que só se completava quando eu fazia música para Deus. Era quando eu me sentia conectado e sinceramente preenchido. Você tem que pensar que o Kanye é o cristão mais influente no mundo hoje.

Você estava lá no dia em que ele se converteu?
Eu já estava trabalhando com ele desde antes. Eu não estava lá no exato momento em que ele se converteu, naquele dia exato, mas eu cheguei logo depois disso e eu percebi a transformação com clareza. Foi incrível. Eu senti que, de repente, nós tínhamos uma missão. Não estávamos ali só para tirarmos o melhor som e fazermos a melhor gravação, ou qualquer outro pensamento que nós tivéssemos antes. A partir daquele momento, a nossa missão mudou. O nosso pensamento passou a ser: ‘Nós temos que fazer isso para Deus. Nós temos que fazer isso para que o mundo saiba sobre Jesus Cristo.’ Isso é uma mudança enorme. Em um primeiro momento, a ideia era usar a música como forma de curar o mundo, de torná-lo um lugar melhor para as pessoas, e também de fazermos o melhor álbum possível. Depois, nós ainda queríamos fazer o melhor álbum possível, mas isso significava apenas levar a palavra de Jesus para o mundo. Isso fez todo mundo levar o projeto muito mais a sério do que nós já estávamos levando, mas agora havia uma responsabilidade muito maior.

Você é creditado como autor e produtor em todas as faixas de ‘Jesus Is King’, com exceção de ‘Follow God’. Como esse processo criativo aconteceu?
Tudo foi muito diferente de faixa para faixa. Por exemplo, para "Use This Gospel" eu já tinha esse sample que o Kanye trouxe e ele talvez fizesse um freestyle sobre aquilo. O meu trabalho seria arranjar o freestyle dele e desenvolver a faixa. Eu acrescentei a bateria, regravei os instrumentos tocados nos samples para que eu conseguisse manipular as partes isoladas. Então em vários momentos, como em "Water", você tem um sample que é, na verdade, uma regravação. Nós refizemos todas as partes e depois acrescentamos outros elementos. Recriamos e regravamos as linhas do Kanye, depois editamos e gravamos o rap. Já em "Hands On", uma energia inexplicável tomou conta do Kanye durante uma noite e ele começou a gravar um monte de raps a capella, sentado na cadeira, só com um gravador simples, sem acompanhamento. Nós pegamos todas essas ideias e criamos os acompanhamentos que entrariam. Foi assim que surgiu "Hands On". Cada faixa tem uma história por trás. Você trabalha até que tudo soe perfeito.

Kanye West durante a apresentação do 'Sunday Service' no Coachella, em abril / Foto: Getty Images
Kanye West durante a apresentação do 'Sunday Service' no Coachella, em abril / Foto: Getty Images

Você pode falar mais sobre a gravação de ‘Hands On’?
A experiência de gravar "Hands On" foi realmente interessante. Uma certa noite, Kanye estava no estúdio e não sabia se deveria fazer um rap naquela faixa ou não. Em um determinado momento, ele pareceu se inspirar: ‘Eu tenho um rap para isso’. Ele estava sentado em um pequeno banco e batia nele como se fosse uma bateria. Foi quando ele começou a fazer os raps que acabariam se transformando em 12 músicas. Tudo em cerca de duas horas. Nós tínhamos apenas um gravador portátil registrando tudo e ele fez todas essas músicas acapella com a percussão de cadeira dele.

Nós pegamos todas aquelas gravações da voz dele, dividimos e separamos nessas doze músicas. Havia uma que tinha apenas 20 segundos. Se você ouvir "Hands On" vai conseguir identificar esse pedaço. É a forma como a música começa, que é basicamente o Kanye cantando "Hands on, hands on, hands on", eu peguei aquilo, coloquei no tempo, acrescentei os acordes, os vocais, procurei que tipo de música se encaixaria bem ali, qual seria o gancho que nós poderíamos usar. E nós regravamos um milhão de vezes, mas acabamos usando aquele rap que nasceu de um freestyle muito curto, gravado de uma forma muito crua, que soava estranho, mas a gente percebeu que não havia como fazer nada melhor do que aquilo. Era imbatível. Se você ouvir o gancho no começo da música, é realmente como Kanye fez, inspirado diretamente por Deus, e ele apenas colocando para fora. Nós acrescentamos outros raps e o Fred Hammond (que participa da da faixa), mas a versão que está no álbum é a versão original do arranjo. Nós não mudamos nada. Foi uma das músicas mais fáceis de fazer. Nós pegamos o que era "nada" e transformamos em algo. Eu acho que eu toquei provavelmente 90% dos instrumentos na música e os que eu não toquei, eu fiz os arranjos.

Em ‘Closed On Sunday’ há um sample extraído de ‘Martín Fierro’, tema de Chango Farías Gómez (1937-2011) com o Grupo Vocal Argentino que usa trechos do famoso poema épico argentino de mesmo nome, escrito por José Hernández (1834-1886). Qual foi seu papel nessa escolha?
(Risos) É muito engraçado porque um outro jornalista também me perguntou isso e todo mundo acha que fui eu que trouxe esse sample, mas não fui eu. Quem trouxe foi o Brian Miller, que é um dos produtores que trabalha com o Kanye desde que eles eram adolescentes. Ele tinha esse sample (do álbum 'El Pintao', registrado em 1970) e Kanye já tinha gravado com ele. Quando eu ouvi, pensei: ‘Isso parece tão argentino!’. Eu pesquisei e realmente era, do Chango Faría Gomez, o que me deixou muito feliz. O Angel (López) é mexicano e toca guitarra espanhola. Kanye pediu para que nós mudássemos a parte da guitarra um pouco. Eu pensei em uns acordes e o Angel tocou, nós modificamos outras partes mas, surpreendentemente, não fui eu que apresentei o sample para ele. Eu já mostrei outros samples argentinos que talvez sejam usados no futuro, mas esse não fui eu quem trouxe.

Angel Lopez e Federico Vindver durante a exibição do filme sobre 'Jesus Is King', em Inglewood, na Califórnia / Foto: Reprodução
Angel Lopez e Federico Vindver durante a exibição do filme sobre 'Jesus Is King', em Inglewood, na Califórnia / Foto: Reprodução

Além do coral do Sunday Service, ‘Jesus Is King’ traz colaborações de Kanye com Ant Clemmons, Ty Dolla $ign, Fred Hammond, Kenny G e até o Clipse (o duo de irmãos estava separado desde 2014 e retornou exclusivamente para participar do álbum). O que você tem a dizer sobre essas participações?
Isso é mais uma qualidade do Kanye enquanto produtor. Ele sabe escolher exatamente o que pode se encaixar na música e traz referências que só um artista deste calibre pode trazer. O Ant Clemmons já vinha trabalhando com o Kanye desde o último álbum, então fazia muito sentido ele estar ali. Ty Dolla $ign também participou de vários trabalhos que nós fizemos com o Kanye. Mas o Clipse foi incrível porque eles não estavam juntos. O No Malice é pastor e uma pessoa maravilhosa. Eu ouvia esse cara falar sobre o evangelho e ficava arrepiado. Ele é um dos cristãos com quem eu mais gosto de conversar, então foi maravilhoso tê-lo, ele e seu irmão (Pusha T), trabalhando conosco. O Kenny G já conhecia o Kanye há um tempo e veio para o projeto também. Tudo aconteceu de uma forma bem orgânica.

De todas, a participação do Kenny G pode ser considerada a mais inusitada. Como foi isso?
O Kenny gravou as partes dele no estúdio dele. Ele é um músico assustadoramente bom, você pode ouvir outros músicos dizendo que ele é brega, mas ele é um dos músicos mais precisos e impecáveis com quem eu já trabalhei na vida. O timing e o fraseado dele são muito bons. Nós tivemos outras pessoas gravando sopros no álbum e nós não usamos. Sempre ficávamos com aquele pensamento de “faça algo como Kenny fez e vamos usar”. Mas ninguém superou o que ele fez. Eu nem sabia que era ele tocando na primeira vez que ouvi e depois eu amei. Eu acho que ele realmente tirou um tempo para ficar no estúdio e fazer os solos de forma impecável, colocando-os em uma progressão que fizesse sentido dentro da música. Eu não acho que ninguém teria feito melhor.

A pedido de Kanye West, Kenny G já havia feito uma supresa para Kim Kardashian no dia dos namorados, no começo do ano / Foto: Reprodução
A pedido de Kanye West, Kenny G já havia feito uma supresa para Kim Kardashian no dia dos namorados, no começo do ano / Foto: Reprodução

Kanye levou a equipe para o Wyoming para que vocês produzissem o álbum lá. Vocês estiveram longe de suas casas, de suas famílias, para se dedicar exclusivamente a esse projeto. Por que estar lá foi importante?
É difícil você saber o porquê do Kanye tomar certas decisões, mas depois você encontra as suas próprias respostas para isso. Eu acho que ele pode concordar com o que eu vou falar ou talvez não, mas isso é o que ele fez em mim. Todos nós fomos separados de nossas distrações comuns do dia a dia e fomos colocados em um ambiente em que a única coisa que nós poderíamos fazer seria criar esse tipo de música. Kanye nos pôs em contato com a natureza, que é uma versão de Deus. Por exemplo, na minha casa em Los Angeles, eu fico perto de umas árvores muito bonitas, mas eu vejo cimento, carros, prédios e todas essas criações feitas pelos homens. Mas a criação intocada de Deus você só pode encontrar no meio da natureza.

A gente estava em um lugar apenas cercado pela natureza, a gente só via animais, rios, lagos, montanhas e outras obras das mãos de Deus, que é o melhor engenheiro e maior do que qualquer construção que a humanidade tenha feito. Ser capaz de testemunhar o quão grande Deus é, mesmo nesse contexto, para mim teve três significados: tirar a gente de distrações, nos mostrar a verdadeira criação de Deus, e o terceiro significado para mim seria dizer que isso nos fez ficar muito mais próximos uns dos outros. Todos os produtores, engenheiros e as outras pessoas trabalhando nesse projeto... Todos nós, entre 30 ou 40 pessoas — porque não havia só quem estava trabalhando no álbum, mas havia gente que trabalha em outros projetos do Kanye para além da música —, fazíamos todas as refeições juntos, nos víamos de manhã ao acordar e até o último minuto antes de dormir. Isso nos transformou em uma pequena comunidade cristã. Eu acho que isso nos deu um senso de comunidade que realmente ajudou para que o álbum fosse feito. Eu diria que esses três pontos foram os motivos pelos quais ele tomou essa decisão. Eu admito que, no começo, foi difícil para eu entender o porquê de estarmos fazendo tudo dessa forma, mas depois eu entendi.

É verdade que Kanye orientou quem estava trabalhando no álbum a não falar palavrões ou manter relações sexuais fora do casamento durante o processo de produção?
Eu acho que o foco do álbum deve ser a música e o que estamos fazendo. Eu sei que a mídia parece estar superinteressada nesse aspecto do que aconteceu, mas eu pessoalmente não gostaria de falar sobre isso porque eu não acho que seja relevante para o tipo de música que estamos fazendo.

Você acha que o Kanye vai voltar a fazer música fora da temática cristã?
Eu apostaria tudo o que eu tenho para dizer que acho que ele nunca mais fará música secular. Eu acho que quando você prova do poder que é criar algo para Deus e ser um cristão de verdade, é um caminho sem volta. É como se ele estivesse dirigindo um pequeno Toyota e alguém lhe desse uma Lamborghini. Você nunca mais vai querer dirigir o Toyota, você vai querer ficar com a Lamborghini. É assim que se parece o que Deus tem feito na vida dele e na de todos nós. Então eu te digo: absolutamente não, eu acho que ele não vai voltar a fazer música secular nunca mais.

Da direita para a esquerda: Timbaland, Taylor Bennett, Fede Vindver, Angel Lopez e Chance The Rapper / Foto: Reprodução
Da direita para a esquerda: Timbaland, Taylor Bennett, Fede Vindver, Angel Lopez e Chance The Rapper / Foto: Reprodução

Como você acha que o Kanye não cristão dialoga com o Kanye convertido?
Kanye já era fora de série antes de se tornar cristão. A energia e o poder de Deus sempre estiveram em tudo que ele fez. O problema é que eu acredito que havia também a influência das forças do mal que estão no mundo e que tentavam convencê-lo de que o que ele fazia deveria ser a serviço deles e não a serviço de Deus. Em “Hands On”, ele canta "avise ao diabo que eu estou entrando em greve". Na minha opinião, sendo eu uma pessoa que também acredita nisso, eu realmente acho que as forças do mal tentam usar pessoas que têm dons dados por Deus a favor deles e contra o próprio Deus. Eu acho que Kanye se libertou disso neste álbum. Mas a criatividade e a genialidade dele sempre vieram de Deus e isso não mudou. A diferença é que agora ele está usando esses poderes para o time certo. É fácil se confundir e jogar pelo time errado no mundo em que nós vivemos, em que dinheiro e sucesso são tudo, mas eu acho que agora o Kanye conscientemente percebeu que ele não estava no caminho certo. Eu acho que, nesse sentido, os dois Kanyes se relacionam, porque um gênio sempre será um gênio.

No fim do ano passado, houve um vazamento do material que estaria no ‘Yandhi’ (álbum prometido por Kanye e ‘substituído’ por ‘Jesus Is King’). Algumas dessas faixas acabaram sendo transformadas em músicas que estão neste álbum, como ‘Everything We Need’. De que forma isso afetou na produção das músicas que foram oficialmente lançadas?
É curioso porque não houve qualquer tipo de preocupação quando os vazamentos aconteceram. Eles não influenciaram em absolutamente nada no estúdio. Eu acho que em nenhum momento alguém disse ou fez referência a esses vazamentos quando estávamos gravando. Era como se nunca tivesse acontecido. Nós estávamos no nosso próprio mundo, focados em fazer música para Deus. Ninguém se preocupou com essa questão. Nós apenas continuamos o que tínhamos que fazer. Eu acho que se esses vazamentos nunca tivessem acontecido, vocês ainda teriam as versões exatamente como elas estão no álbum agora. Nós nunca tomamos qualquer tipo de decisão baseada nesses vazamentos.

Imagino que você já tenha frequentado o Sunday Service algumas vezes. Como foram as suas experiências pessoais durante os cultos?
Posso definir como a maior alegria que se pode sentir. Eu acabo de me tornar pai e, para mim, o amor pelo meu filho e o amor por Deus são muito parecidos. Tudo que eu senti quando meu filho nasceu se parece com o que eu sinto quando vou ao Sunday Service. É uma alegria sem tamanho, uma felicidade imensa, e essa sensação louca de querer fazer mais e me tornar uma pessoa melhor, um cristão melhor. É muito difícil de explicar. Não existem palavras no vocabulário capazes de explicar como a gente se sente nesses momentos.

O que esse álbum representa para você?
Para mim isso tudo foi o acontecimento de uma vida e o trabalho mais importante que fiz profissionalmente até hoje. Eu já trabalhei com gospel antes, mas acredito que estamos fazendo o maior álbum cristão de todos os tempos. Eu não acho que ninguém vai ter a influência que o Kanye tem. Espalhar o nome de Deus e do cristianismo nesse patamar tão absurdamente alto... O Kanye é muito corajoso. Porque muitos artistas são cristãos, mas as pessoas têm medo de ser julgadas e querem jogar o jogo que a indústria quer que eles joguem. Se você pensar bem, Kanye deixou isso tudo de lado para fazer esse projeto mesmo correndo o risco de o chamarem de maluco. Para mim, é o projeto mais importante da minha carreira. Isso tudo é um exemplo claro do real poder de Deus.

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