Jeza + Kassin: um encontro de universos cariocas que 'deu bom', influenciado por funk 150 bpm e afrofuturismo
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Jeza + Kassin: um encontro de universos cariocas que 'deu bom', influenciado por funk 150 bpm e afrofuturismo

"Jeza Kassin" é um EP de quatro faixas com muitas pretensões, a começar pelo título. Básico, numa primeira olhada. Mas entrega absolutamente tudo numa segunda. Para entender melhor, é preciso descobrir as origens dos artistas por trás desse trabalho, divulgado em meados de julho. Os dois representam, a rigor, estereótipos cariocas desgastados ao extremo pela indústria cultural. Kassin, o produtor da zona sul, área mais nobre da cidade, que já trabalhou com Caetano Veloso, Jorge Mautner e Gal Costa, e Jeza da Pedra, ex-morador de favela, o Complexo da Pedreira, na zona norte, rapper/funkeiro — e, se importa registrar, gay — em ascensão desde o lançamento de "Pagofunk Iluminati" (2018).

Numa cidade divida pelo "apartheid cultural", os caminhos de Jeza e Kassin se cruzaram indiretamente no Circo Voador, casa de shows histórica da Lapa, no centro do Rio. Era 2017 quando o rapper abriu os trabalhos para Baco Exu do Blues e Rincon Sapiência. Lá, ele conheceu Letrux e a produtora Mariana Leivas, que mais tarde faria a ponte com Kassin.

"Estava lançando o disco 'Relax' quando a Mariana me mostrou o EP do Jeza. Imediatamente lembrei de umas músicas que havia começado, mas não me sentia confortável cantando", relembrou Kassin. "Assim que o conheci, reparei que tínhamos um senso de humor e ideias muito parecidas, mesmo vindos de lugares distantes socialmente. E isso se confirmou quando fomos para o estúdio."

Desde então, já nasceram faixas como "Pedra do Sal", que pergunta "o que te desestrutura? o ódio ou a loucura? o que te faz sorrir?", em alternâncias de clima desconcertantes, "Ih Crl", demencialmente marcada por palavrões de interjeição, "Escuta" e "Lajão da Final Feliz". Elas são, nas palavras de Jeza, "crônicas que tem o Rio de Janeiro como cenário". "Mas ainda temos algumas músicas para soltar. Entre 12 e 16 mais ou menos. Elas vão sair aos poucos", adiantou o rapper, citando que dentro de dois meses mais quatro serão lançadas. "Vai ser assim até fechar o álbum."

Caminhos do divino, caminhos do destino

Antes de Mariana Leivas aparecer na jogada, Jeza e Kassin já tinham amigos em comum. Eles cantavam a pedra de que a parceria entre os dois poderia acontecer no futuro. "Quando comecei a produzir o 'Pagofunk Iluminati', esses amigos, conhecidos do Caetano, Zeca e do Moreno (Veloso), me disseram: 'Nossa, você precisa mostrar isso para o Kassin'. Isso foi em 2015, e eu desacreditei", confessou o artista. "Por isso foi tão incrível conhecê-lo. Ele têm histórias incríveis, é um cara cheio de referências, e apesar de ter produzido para a Gal e o Jorge Mautner, é muito ligado na cena do funk carioca, do 150 bpm. Ele saca muito das músicas de matrizes africanas. Por isso a gente bateu muito. E ele me deixou confortável para criar."

As referências e gostos musicais, portanto, trataram de unir esses dois homens que se admiram. Kassin, quando instado a comparar Jeza com outro artista da música brasileira, é categórico: "Não vejo semelhança dele com ninguém e acredito que ele é único. É um fenômeno bastante carioca, com aquele mistério que o Rio de Janeiro às vezes tem de conseguir passar por cima de certas situações com uma elegância que não pode ser comprada".

Nesse sentido, o produtor se refere ao passado/quase presente de Jeza, que fez de tudo nessa vida. A lista de funções acumuladas vão de office boy, agente de turismo, operador de telemarketing, michê de sauna, cantor de bar, animador de karaokê, sub-gerente de motel, concierge de hotel cinco estrelas, pesquisador do IBGE, tradutor, escritor até vendedor de picolé. "Todos esses trabalhos não duraram muito, mas foram todos de carteira assinada. Menos o de michê", brincou.

Aos 35 anos, Jeza tem uma longa lista de inspirações. "Meu amigo Jason Oliveira, pai de santo e historiador. Ele me apresentou tudo fora da favela, onde minhas referências eram basicamente música evangélica, pagode e funk. Comecei a curtir hardcore e o rap por causa dele e hoje sou um cara que vai de Mr. Catra a Casimiro de Abreu (poeta romântico brasileiro do século XIX)", destaca. Além do projeto musical com Kassin, Jeza segue correndo atrás de grana para um EP solo, para o qual pretende investir mais em audiovisual.

"Meu primeiro clipe, 'Terrorista Viado' (com direito a citação do bordão do personagem Vera Verão, de Jorge Lafond), foi feito na precariedade, numprograma tosco do Windows. Agora, quero investir mais nisso, então lancei uma vaquinha virtual. Mesmo se não alcançar a grana que quero, vou dar continuidade a esse trabalho com o que conseguir juntar", anuncia. Até 19 de julho, cerca de R$ 2 mil dos R$ 12 mil pretendidos haviam sido arrecadados.

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