João Gilberto, o mais radical, elegante e singular intérprete da música brasileira
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João Gilberto, o mais radical, elegante e singular intérprete da música brasileira

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Aos mais jovens, pode parecer inimaginável a ideia de um disco ser capaz de mudar não só a música popular como um todo mas a própria cultura de um país. Mas, no século passado, eles de fato funcionavam como símbolos de sua época – termômetros que mediam a temperatura de um período e, ao mesmo tempo, anunciavam seu sentido, início ou fim. E, dentre esses discos, alguns se sobressaíam como se fossem o próprio futuro chegando, revelando quem seriamos nós nesses próximos tempos. Como uma revolução concreta, que se dava não entre tiros e gritos, mas sim cravada na face de um vinil. E nenhum disco provocou tamanho abalo sísmico na cultura popular do Brasil como "Chega de Saudade", de João Gilberto

Por mais que a histórica composição que batiza o disco – possivelmente a mais importante e transformadora canção brasileira – seja de autoria de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, a revolução não teria a dimensão que “Chega de Saudade” nos trouxe sem o violão e a voz de João Gilberto. Se Elvis transformou os Estados Unidos somente com seu jeito de tocar, cantar e dançar, João Gilberto o fez ainda mais no Brasil com seu ritmo, sua mão direita, sua inigualável riqueza melódica, seu canto suave e contido e, ainda assim, preciso e irreparável. Para Caetano Veloso, João não é somente o mais importante artista nacional – seu canto, sua musicalidade, seriam melhores do que o próprio silêncio. 

Para a geração de Caetano, tudo começou diante da primeira audição de João – da primeira vez que “Chega de Saudade” invadiu tais jovens ouvidos. João em um só gesto libertava as gerações por vir da exigência de se possuir uma imensa e poderosa voz para poder ser considerado um cantor  (como, então, eram Orlando Silva, Ângela Maria, Nelson Gonçalves e tantos outros) e, ao mesmo tempo, trouxe a sofisticação rítmica de sua maneira única de tocar violão e dividir a melodia ao cantar, partindo do samba para criar uma música efetivamente nova, jovem, singular e revolucionária no final dos anos 1950. João Gilberto trouxe o argumento inconteste para se concluir sobre a música brasileira como a melhor música popular do mundo. 

A comparação com Elvis Presley pode parecer aleatória mas é, em verdade, justa – tratam-se de fenômenos quase contemporâneos e muito similares em seus significados para cada país. Elvis também inventou a música jovem nos EUA, e trouxe principalmente um jeito de tocar, cantar e dançar para a ribalta da cultura americana de então – e o mesmo fez João, tendo que superar a imensa desvantagem de cantar em português. Perto da elegância de João, porém, Elvis mais parece um adolescente desengonçado – enquanto o americano precisou rebolar o quadril de forma literal para trazer o sexo bruto à pauta, João somente precisou sussurrar e, sentado, fazer o país dançar quebrando batidas no violão. A bossa nova existe em João, assim como a música brasileira se espalhou pelo mundo através de suas mãos.  

E, desde então, João seguiu sendo o mais radical, elegante e singular intérprete da música brasileira – quiçá mundial – ao longo de cinco décadas de uma carreira que alcançou momentos de perfeição. Além do já citado disco de estreia, “Getz/Gilberto”, “João Gilberto”, de 1973, “Amoroso”, “O Amor, o Sorriso e a Flor” e tantos outros no qual João se confirmou como não só o mais influente artista brasileiro no mundo, como também um dos nomes mais fortes da história do samba, do jazz e da MPB. Se dentro da música brasileira a influência de João é incontestável, no cenário internacional não é menor, e os elogios vieram de nomes tão diversos quanto David Bowie, Sinatra, Ella Fitzgerald, Miles Davis, Madonna, Eric Clapton (que até hoje se diz obcecado pelo violão de João), Bob Dylan, e até dos filósofos Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir — e a lista mal começou.

Há um elemento definidor na influência da música de João que parece forjar o Brasil que somos e, ao mesmo tempo, queremos ser —  como se uma parte importante do país fosse formada, reformada, reconfirmada e sempre redefinida, apurada e reelaborada a cada vez que ele canta. Não é possível entender a cultura brasileira a fundo sem mergulhar em nossa canção popular, e não é também possível mensurar nossa canção popular sem medir a profundidade do corte provocado por João. Uma revolução que, em um só gesto, pleno em paradoxos (suave e, ao mesmo tempo, forte; simples e, ao mesmo tempo, profundo; torto e, ao mesmo tempo, preciso) reinventou nossa música e ofereceu a medida de sua imensa grandeza – que é também a grandeza desse país chamado João.  

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