Joe Pesci, o baixinho malvado dos filmes de Scorsese, tem carreira musical com conexões que vão de Hendrix a Adam Levine
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Joe Pesci, o baixinho malvado dos filmes de Scorsese, tem carreira musical com conexões que vão de Hendrix a Adam Levine

Sombrio, com tiradas de humor ácido e explosões ocasionais de ultraviolência. Essas são algumas características comuns à maioria dos personagens de Joe Pesci no cinema. Só que o ganhador do Oscar de 1991 de ator coadjuvante pelo papel de Tommy DeVito em "Os Bons Companheiros" tem uma faceta bem diferente e pouco conhecida. Pesci, 76 anos, é cantor de easy listening e temas jazzísticos desde a década de 1960, há quase tanto tempo quanto atua. Ele acaba de lançar "Pesci ... Still Singing", álbum de jazz que saiu dois dias após a chegada do longa "O Irlandês" na Netflix e que tem co-produção de ninguém menos que Adam Levine, do Maroon 5.

Criado em Belleville, Nova Jérsei, Joe começou a carreira como ator de rádio ao quatro anos; aos cinco, já pisava em um palco de teatro em Nova York, e, aos dez, tinha emprego em programa de televisão. Na adolescência, porém, sem muitas perspectivas, investiu na carreira musical. Sua turma de Nova Jérsei era muito boa. Fez nome tocando em grupos como Joey Dee & The Starliters, formação de rock que teve como guitarrista, brevemente, um jovem Jimi Hendrix (1942 - 1970), ainda usando o nome Jimmy James. Joe também teve papel importante na formação da lenda pop Frankie Valli & Four Seasons, pois apresentou Frankie (cujo cabelo cortava em um salão de bairro — sim, o Joe Pesci teen se virava com uma navalha como barbeiro) ao tecladista, compositor e produtor Bob Gaudio, 77 anos. Bob foi autor do primeiro hit do grupo, "Sherry", e de vários outros clássicos, entre eles, o maior de todos, "Can't Take My Eyes Off You", e "The Sun Ain't Gonna Shine Anymore" (parcerias com Bob Crewe).

Com o amigo De Niro, que o indicou a Scorsese em 'Touro Indomável' e deu aquele empurrãozinho na sua carreira de ator/ Foto:Kevin Winter/Getty
Com o amigo De Niro, que o indicou a Scorsese em 'Touro Indomável' e deu aquele empurrãozinho na sua carreira de ator/ Foto:Kevin Winter/Getty

No cinema, Pesci decolou apenas no final da década de 1970, trabalhando em restaurantes e barbearias para o sustento. Ganhou uma indicação ao Oscar em 1980 por sua atuação em "Touro Indomável", levou a estatueta de melhor coadjuvante em 1991 por "Os Bons Companheiros", e colecionou papéis marcantes em longas famosos como "Cassino", "Máquina Mortífera" (2, 3 e 4) e "Esqueceram de Mim" (1 e 2). O último papel significativo tinha sido em 2006, em "O Bom Pastor".

No filme "O Irlandês" — que marca seu retorno ao cinema depois de nove anos — Joe Pesci volta a ter uma atuação antológica, na pele do gângster Russell Bufalino, e volta a contracenar com o "bom companheiro" Robert De Niro, sob direção do Martin Scorsese. A velha mafiazinha de sempre.

Seus álbuns de jazz à moda antiga soam leves e sinceros, nada a ver com os personagens malvados e violentos que o marcaram no cinema. O lado cantor de Joe carrega influências do colega ítalo-americano Frankie Valli, 85 anos, e do cult jazzista Little Jimmy Scott (1925 - 2014), com quem, aliás, divide uma faixa no novo álbum.

O primeiro álbum solo, de 1968, "Little Joe Sure Can Sing", foi lançado como nome artístico Joe Ritchie: uma coleção de versões easy listening de rocks e canções pop da época, como "Fool On The Hill" e "Got To Get You Into My Life", dos Beatles, e "To Love Somebody", dos Bee Gees. Não vendeu bem, mas até hoje angaria elogios.

"Little Joe" sabia cantar mesmo. E também sabia tocar guitarra funkeada, como provam as gravações do duo que fez com seu amigo Frank Vincent (1937 - 2017), com quem trabalhou em espetáculos humorístico musicais. Vincent & Pesci quebravam tudo em faixas instrumentais como "Little People Blues", lançada em 1972.

Depois que a carreira como ator decolou, Joe seguiu tentando encaixar um disquinho aqui e ali. Em 1998, lançou um álbum bizarro após o sucesso da participação em "Meu Primo Vinny", chamado "Vincent LaGuardia Gambini Sings Just for You" — Vincent LaGuardia é o nome de seu personagem no filme. Ao contrário de seus outros discos, esse é um projeto satírico que soa como uma versão cômica de Dean Martin.

Depois veio a era Joe Doggs, quando ele aparentemente pretendia manter em segredo sua identidade antes do lançamento de "Falling In Love Again", seu álbum com o organista de jazz Joey DeFrancesco em 2003. É um trabalho de jazz legítimo, cheio de grandes músicos.

Agora, Joe Pesci contou com Adam Levine, do Maroon 5, para produzir "Pesci ... Still Singing". "Quando ouvi Joe Pesci cantar pela primeira vez, fiquei surpreso. Eu implorei que ele me deixasse produzir um disco com ele. Ele finalmente me deixou!", escreveu Adam em seu Instagram, onde publicou algumas fotos de estúdio ao lado do ator e cantor. "Estou tão feliz que o talento musical dele não seja mais o segredo mais bem guardado da cidade. Parabéns, Sr. Pesci. E nosso dueto também não é tão ruim!", escreveu Adam Levine, referindo-se a uma das duas canções de que participa no disco, como "My Cherie Amour".

Com sua voz "magra" e delicada, Pesci mergulha novamente no jazz tradicional ao lado de músicos excelentes como o trompetista cubano Arturo Sandoval, o baixista Christian McBride e os bateristas Peter Erskine e Vinnie Colaiuta. Uma das faixas de destaque é "Baby Girl" , dueto com Adam Levine em divertido pastiche latino de "Can't Take My Eyes Off You" composto pelos próprios autores Bob Gaudio e Bob Crewe.

Quer se goste ou não do Pesci cantor, ele tem respeito real pelo ofício musical. Ele é capaz de discorrer longamente sobre a influência que teve do falecido vocalista "Little" Jimmy Scott, de peculiar voz de contralto. Ele é a razão pela qual Pesci colocou o "Little" na frente de seu próprio nome em seu primeiro álbum — além, é claro, do fato de ter 1,63m de altura. Jimmy Scott foi uma figura proeminente no jazz no início dos anos 50, aparecendo nos discos de Lionel Hampton (1908-2002) e até fazendo vocais em gravações do mítico saxofonista Charlie Parker (1920-1955). Pesci disse sobre o cantor: "Ele me ouvia e me incentivava. Nós cantávamos juntos sem parar por horas, às vezes a noite toda ... Ele se tornou meu guru e eu me tornei sua sombra".

No novo disco, Joe Pesci e Jimmy Scott estão juntos em "The Nearness Of You", previamente lançada no álbum póstumo de Jimmy, "I Go Back Home" (2017).

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