John Entwistle, baixista do The Who: nova biografia mostra 'um cara adorável' e capricha demais nos excessos da vida rock'n'roll
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John Entwistle, baixista do The Who: nova biografia mostra 'um cara adorável' e capricha demais nos excessos da vida rock'n'roll

"Eles não eram grandes amigos. O único lugar que eles conheciam meu pai era no palco." A afirmação de Christopher Entwistle, filho do baixista do The Who, dá o tom de "The Ox: The Authorized Biography of John Entwistle", que acaba de ser lançada. O autor Paul Rees diz que teve liberdade para escrever duras verdades sobre John, que morreu em 2002 de ataque cardíaco. John (1944-2002) foi um herói para os fãs de rock e de contrabaixo, como bem exposto neste texto-homenagem publicado no Reverb em 2019.

Desde o início, a proposta da biografia era a de contar a história real, não glamourizada, da trajetória de John. Além do seu trabalho inovador no The Who, onde escreveu músicas como "My Wife" e "Boris the Spider", também investiga sua movimentada vida pessoal, marcada pelo uso pesado de drogas e álcool, festas sem fim, gastos excêntricos, infidelidade e pouco caso com sua saúde.

John Entwistle em um shhow do The Who em 1982. Foto: Getty Images
John Entwistle em um shhow do The Who em 1982. Foto: Getty Images

"Meu pai não era um anjo, mas ele era um cara adorável. Eu não queria que este livro fosse leve, sem importância", diz Christopher Entwistle em entrevista à "Rolling Stone" americana. Paul Rees, escritor e ex-editor da revista "Q", é o autor do livro, que surgiu de uma conversa de bar com um colega que contou histórias muito doidas sobre visitar John em Quarwood, sua mansão vitoriana em Gloucestershire, Inglaterra. "Ele me disse que tinha todo o seu equipamento na sala de estar. Isso me fez perceber que ele era uma das últimas grandes estrelas do rock dos anos 70, desde a maneira como viveu até como morreu", conta Paul.

Despertado por aquela conversa, o escritor procurou Christopher, o filho de John, para pedir autorização para escrever um artigo numa revista. "Aquilo apenas mostrou um pouquinho de como era o pai. Alguns meses depois, ele voltou perguntando se poderia escrever um livro. Eu e minha mãe (Alison Wise, primeira mulher de John) achamos uma boa ideia", conta Christopher.

Paul já havia começado a escrever quando Christopher encontrou uma caixa cheia de cadernos e folhas com anotações do pai. "Havia quatro capítulos completos digitados, além de cadernos cheios de histórias manuscritas. Tudo era engraçado e muito descritivo", conta o autor sobre a aparente autobiografia inacabada, de onde tirou longos blocos, como uma passagem de 1964, quando o Who abriu os Beatles em Blackpool, Inglaterra. Os gritos das fãs tornaram impossível para o público ouvir uma palavra que a banda estava cantando, mas o Who conseguiu ouvir tudo porque tinham um amplificador ligado diretamente do palco no camarim. "Nós quatro estávamos chorando de rir com as palavras que os Beatles estavam cantando — ‘It’s been a hard day’s rock.…’ ‘I wanna hold your cunt.…’ e que só nós conseguimos captar", escreveu John sobre os versos "adaptados e impublicáveis".

John Entwistle com a primeira mulher Alison e o filho Christopher em 1972. Foto: Getty Images
John Entwistle com a primeira mulher Alison e o filho Christopher em 1972. Foto: Getty Images

Guiado pelo pedido do filho, de escrever um perfil preciso sem evitar questões delicadas, Paul foi fundo nas questões de infidelidade e outras mais "escandalosas". "Eu sabia que ele era safado. Ele casou com minha mãe, que se conheciam desde crianças, e foi direto para outro relacionamento e, depois, para outro. E assim, ele realmente só teve três relacionamentos constantes em sua vida, mas dormiu com um pouco mais de mulheres do que isso. Não era o homem mais fiel do mundo", diz Christopher.

O excesso desse tipo de histórias pessoais em detrimento da carreira musical faz com que "esta biografia pareça desesperadamente ultrapassada", segundo crítica do "The Guardian". O texto chama a atenção para a tendência de títulos que desconstroem esses clichês sobre a industria, como os de Tracey Thorn e Chrissie Hynde, e diz que "The Ox" não mostra bem a virtuosa performance de John na música do Who. "A música do Who fica no banco de trás quando os outros atributos de 'maior estrela do rock' de John assumem o controle, a saber, ser estúpido, comprar coisas loucas para sua mansão e desfrutar da companhia de mulheres que não são sua esposa", aponta a crítica.

Pete Townshend e Roger Daltrey com Christopher Entwistle ano passado no Music Walk of Fame. Foto: Getty Images
Pete Townshend e Roger Daltrey com Christopher Entwistle ano passado no Music Walk of Fame. Foto: Getty Images

Os outros membros do Who até são personagens importantes no livro, mas os sobreviventes Pete Townshend e Roger Daltrey não toparam dar depoimentos. "Deixei uma mensagem com Roger e seu pessoal, e não houve resposta. Com Pete, foram muito educados, mas basicamente disseram que ele não tinha mais nada a dizer sobre John que ele já não houvesse dito”, conta Paul. "Eles não eram grandes amigos. O único lugar que eles conheciam o pai era no palco. Eles trabalharam juntos brilhantemente, mas nunca foram amigos. Bem, o relacionamento era melhor quando estavam na escola, mas depois se tornaram pessoas completamente diferentes", diz Christopher.

Um relacionamento profissional que encerrou em junho de 2002, um dia antes do Who começar uma turnê em Las Vegas. John foi encontrado morto em seu quarto de hotel. Ele teve um ataque cardíaco depois de passar a noite bebendo, cheirando cocaína e fazendo sexo com uma garota de programa. "Uma artéria estava 100% bloqueada e a outra 75% bloqueada. Se tivessem feito um eletrocardiograma, teriam visto que ele não tinha condições de ir para a estrada", ameniza Christopher.

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