John Lennon: há 40 anos, o ex-beatle pisava na África do Sul do apartheid (quase) sem deixar pistas
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John Lennon: há 40 anos, o ex-beatle pisava na África do Sul do apartheid (quase) sem deixar pistas

Este ano se completam quatro décadas do assassinato de John Lennon, que todos sabem como aconteceu, em 8 de dezembro. Mas há um mistério naquele ano de 1980 que ronda o ex-beatle até hoje. Ele teria feito uma viagem à África do Sul? Alguns biógrafos afirmam que sim, há especialistas que dizem que é lenda. Mais intrigante do que o próprio passeio foi a escolha do local: por que John Lennon, conhecido pacifista, iria para um local marcado pelo apartheid? Onde os próprios Beatles haviam se recusado a tocar, ainda nos anos 1960. A ONU defendia um corte de laços com o país desde 1968.

No final de maio de 1980, um certo "Sr. Greenwood" se hospedou no Mount Nelson Hotel, na Cidade do Cabo, durante uma semana. O nome registrado era falso, adotado para evitar maiores burburinhos em torno do hóspede muito bem conhecido: John Winston Ono Lennon.Naqueles mesmos dias, Peter Gabriel lançava seu terceiro álbum, com uma bela ode ao líder local Stephen Biko (1946-1977), cujo assassinato chocara o mundo três anos antes. O Queen mesmo tocou lá em 1984, para reprovação de muitos fãs e órgãos de mídia. Rod Stewart, Frank Sinatra, Tina Turner e Cher também aceitaram cachês sujos de sangue do apartheid.

Um das duas fotos que indicam que John Lennon teria viaajado à África do Sul, tirada por um taxista. Foto: reprodução
Um das duas fotos que indicam que John Lennon teria viaajado à África do Sul, tirada por um taxista. Foto: reprodução

"A visita de Lennon à Cidade do Cabo é, para mim, intrigante em muitos níveis. Por que um homem tão politicamente consciente iria à África do Sul do apartheid? O que ele fez enquanto esteve aqui? Por que ele não foi assediado por fanáticos da beatlemania? Por que essa viagem significativa parece tão envolta em mistério? E, enquanto fazemos perguntas, por que ele usou 'Sr. Greenwood' como um nome falso?", questiona o jornalista Mike Wills, da Cidade do Cabo, no "Daily Maverick".

Muitas perguntas que, pelo jeito, podem atravessar mais quatro décadas sem respostas. Primeiro, porque o envolvido já morreu; segundo, porque as versões disponíveis até hoje são bem contraditórias. Mike lembra, para confundir mais, que os álbuns solo de Lennon estavam na lista negra do governo sul-africano na época, ainda por conta da declaração controversa dele de que os Beatles eram mais famosos que Jesus Cristo.

Uma parte da história conta que o músico teria viajado sozinho por recomendação do numerólogo Takashi Yoshikawa que pressentiu, infelizmente com muita antecedência — Lennon seria assassinado em dezembro — nuvens do mal começando a se formar sobre sua cabeça. A sugestão foi que, para escapar desse mau agouro, ele viajasse ao sudeste de Nova York, que apontava para a ponta da África. Essa é uma versão do biógrafo mais respeitável de Lennon, Philip Norman, que registrou a jornada muito brevemente em "John Lennon: a vida".

Outro livro que confirma a história, dando detalhes, no entanto, que soam um tanto fictícios, é o de Robert Rosen, "Nowhere Man". "Um trabalho polêmico baseado nas memórias de Robert, que disse ter lido nos diários pessoais de Lennon — sem nenhum registro escrito. Não li o livro, mas o extrato relevante pode ser encontrado no site Meet The Beatles for real", aponta Mike.

Sara Schmidt, que se apresenta como organizadora do site, recheado de fotos curiosas e não convencionais dos Beatles, avisa que o conteúdo é "bem nojento" e que preferia digitalizar alguns trechos do que transcrever. "A jornada inspirou John, ele sabia que era um bom lugar para se masturbar. Ele anotou tudo: o cenário, a corrida de táxi até a Cidade do Cabo do aeroporto e seu motorista e guia de turismo, Mohammad. Depois de se registrar no Mount Nelson Hotel com um nome falso, John foi comprar uma capa de chuva, xampu e frutas macrobióticas. Toda vez que John colocava os pés fora de seu quarto, alguém o reconhecia. Estranhos lhe ofereceram drogas e prostitutas, mas ele recusou. A última coisa que ele queria era uma história com fofocas. Sozinho em seu quarto, ele cortou classificados de massagens de um tabloide sexual local", relata o escritor.

Um passageiro fez um registro de lennon no avião, na viaem de volta aos Estados Unidos. Foto: Reprodução
Um passageiro fez um registro de lennon no avião, na viaem de volta aos Estados Unidos. Foto: Reprodução

Existem muitos fãs e estudiosos de Lennon que argumentam que a viagem nunca aconteceu, apontando cruzamentos de datas em seus diários e citando várias das muitas biografias de Lennon que não mencionam a viagem ou ainda seu registro inexistente no verbete sobre o cantor na Wikipedia. "Mas a viagem aconteceu. O próprio Lennon falou sobre isso em uma entrevista de rádio pouco antes de morrer e sua assistente pessoal May Pang diz que Lennon telefonou para ela da Cidade do Cabo e enviou dois cartões postais. Além disso, há alguns registros na imprensa local", defende Mike.

Apenas duas fotos supostamente da viagem podem ser encontradas na internet. Uma que deve ter sido feita pelo taxista, mostrando Lennon em um banco de automóvel onde ele tem vista para a Table Mountain. A outra, feita por um passageiro no seu voo de volta para casa (ao lado de um hoje impensável charuto — à época, trivial na primeira classe).

Em 1985, "Sun City", canção de protesto lançada por Steven Van Zandt, com o crédito Artists United Against Apartheid, cobriria de vergonha os colegas do show business que tinham topado tocar no resort segregado da África do Sul. Nos moldes de "We Are The World", a faixa coproduzida por Arthur Baker tinha participações estelares de Bruce Springsteen, Miles Davis, Ringo Starr (e seu filho Zak Starkey), Joey Ramone, Pat Benatar, David Ruffin, Eddie Kendricks, Bobby Womack, Jimmy Clif, Lou Reed, Bono, Keith Richards, George Clinton, Bob Dylan, Pete Townshend, Gill Scott-Heron, Afrika Bambaataa e Kurtis Blow, entre outros.

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