Jonathan Ferr, revelação do jazz carioca, aposta no afrofuturismo e no amor como elementos revolucionários
Inspiração

Jonathan Ferr, revelação do jazz carioca, aposta no afrofuturismo e no amor como elementos revolucionários

Nem samba nem baile charme. São os dois e muito mais. Jonathan Ferr, 32, pianista de urban jazz, contrariou os gêneros musicais de maior tradição de seu bairro natal Madureira, zona norte do Rio de Janeiro, e juntou de tudo para trilhar caminhos musicais que desconstroem a erudição como algo inerente a estilos mais complexos. Em uma mistura de influências do gospel ao hip-hop, da música eletrônica à música clássica, o jazz do músico — e atração do Espaço Favela do Rock in Rio 2019 — vem para derrubar quaisquer barreiras ainda existentes entre universos artísticos aparentemente incompatíveis.

"A ideia do disco é o cara botar o fone de ouvido, sair, pegar o trem, o metrô, e ouvir indo pro trabalho", diz Jonathan, em entrevista ao Reverb, pouco antes da apresentação no Rock in Rio, em outubro deste ano. O "disco" citado se refere ao "Trilogia do Amor", trabalho lançado em abril de 2019 com a missão de se encaixar à cidade, ao ritmo de vida urbano, e desmistificar o jazz como gênero acessível apenas a ricos apreciadores da "alta cultura". "Aquela ideia do cara tomando um uísque 12 anos, deprimido, angustiado num canto ouvindo jazz, eu quero me dissociar dessa imagem", explica.

Capa afrofuturista do álbum "Trilogia do Amor", de Jonathan Ferr / Foto: Divulgação
Capa afrofuturista do álbum "Trilogia do Amor", de Jonathan Ferr / Foto: Divulgação

Com referências no jazz de monstros sagrados como John Coltrane (1967 - 1926), Miles Davis (1991 - 1926) e Herbie Hancock, 79, Jonathan também se inspira em trabalhos de artistas de gerações mais próximas à dele, como o saxofonista americano Kamasi Washington, 38, para quem abriu o show no Circo Voador, no Rio, em março de 2019. "Eu falava assim com meus amigos: 'Pô, jazz é legal, cara'. Aí o cara falava: 'Jazz é música do meu avô, música de velho, não tem nada a ver, chata pra caramba'. E eu falei: 'Bicho, não, não é possível. Ou eu estou errado ou tenho que mostrar alguma coisa ou de repente pensar uma nova estética que possa comunicar com essas pessoas que eu quero comunicar", conta.

O afrofuturismo fala do negro como protagonista do seu futuro. Do presente, do futuro.

Foi ao unir diferentes ideias, vivências e aprendizados que Jonathan entrou em contato com conceitos artísticos e ideológicos ligados à negritude e a obras afrofuturistas — grande influência visual e sonora de seus projetos —, e também se aproximou de temas como as revoluções possíveis por meio do amor. "O afrofuturismo fala do negro como protagonista do seu futuro. Do presente, do futuro", diz. "E amar é uma coisa revolucionária. Você pega no começo dos anos 1900, beijos entre duas pessoas negras em público era proibido. Então, isso já é revolucionário", completa. "Eu acho que esse futurismo, pensar a partir disso, das pessoas se conectarem a partir desse lugar, acho que é bastante afrofuturista também.

Com grandes planos futuros, Jonathan já transformou o primeiro dos três capítulos do álbum "Trilogia do Amor" (“A Jornada”, “O Renascimento” e “A Revolução”) em um premiado curta-metragem, disponível no YouTube, que contou com a direção geral do pianista. Junto à sua banda — extremamente livre e incentivada pelo músico a realizar experimentações —, faixas como a mais recente "Bike" são direcionadas a qualquer pessoa disposta a conhecer sonoridades em constante transformação e descobrimento. "Eu falei para os meus músicos, quando eles entraram na banda: 'O objetivo é o seguinte: tudo o que você sempre quis fazer em qualquer outro som, outra banda, e você não conseguiu, você tem que trazer para cá”.

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