José Oliveira, o português que queria ir a Woodstock, mas acabou sendo convocado para a guerra colonial
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José Oliveira, o português que queria ir a Woodstock, mas acabou sendo convocado para a guerra colonial

Um jovem português do outro lado do Atlântico ficou sabendo através de uma rádio local sobre um certo festival Woodstock, em uma fazenda no interior do estado de Nova York, em agosto de 1969. "O que me chegou foi que aquilo era um movimento pacifista, que lutava contra a violência, contra a guerra do Vietnã", disse ele, em entrevista ao podcast "Histórias de Portugal". Era José Oliveira, um rapaz que então contava 21 anos e sequer sabia quais eram os artistas escalados, mas, como bom roqueiro e , pressentiu que deveria estar lá. "A música está no meu DNA", destacou.

Como faltavam apenas 15 dias para o começo do evento, José, que vivia em Coimbra, correu para o Palácio da Justiça português para tentar tirar seu passaporte e garantir suas passagens para a terra do Tio Sam. Mas tudo saiu completamente errado. Em vez de conseguir o documento, o pedido de passaporte foi negado, e, por conta de sua idade, ele acabou sendo destacado pela ditadura salazarista para servir ao exército em Luzo, no leste de Angola.O serviço militar envolvia quatro anos e, na prática, costumava levar os jovens a lutar em guerras coloniais.

Pessoas escalavam as grades da estrutura de Woodstock para conseguir ouvir a música e garantir um local 'bom' para assistir aos shows/Getty Images
Pessoas escalavam as grades da estrutura de Woodstock para conseguir ouvir a música e garantir um local 'bom' para assistir aos shows/Getty Images

Ao jornal "Público", José contou que passou os anos seguintes procurando uma forma de "se vingar" por ter perdido o Woodstock e, por causa do festival, ter sido "descoberto" pelo governo e obrigado a prestar o serviço militar.No lugar das guitarras do rock, José recebeu uma arma nas mãos. "Eu fiquei completamente decepcionado, mas meu pai ficou feliz por economizar dinheiro. Três semanas depois eu entrei para o Exército e passei dois anos em Portugal para depois ser enviado para Angola por dois anos", contou José.

Apenas em 1972, depois de servir na fronteira de Angola com o Congo (então Zaire), ele encontrou a oportunidade perfeita, quando surgiu um teste para formar uma banda militar para tocar em no Grand Luso Hotel, onde se hospedavam os militares de alta patente e poderosos locais. "Me contrataram para tocar guitarra ritmo no conjunto", lembra José. "E no momento de escolher o nome do grupo, eu me vinguei: Woodstock." Foram meses do que ele chama de "dolce vita", tocando nas dependências comparativamente luxuosas (para quem vinha de barracas na selva) e dançando com as filhas dos oficiais.

Essa não foi a única "vingança" de José. Anos depois, ele acabou trabalhando para alguns músicos que tocaram em Woodstock, em 1969, como roadie. "Eu era o cara que transportava os amplificadores, não curtia os shows da mesma maneira", conta ele, que, mesmo sem nunca ter pisado no festival sinônimo de paz e amor, repercutia suas premissas em Portugal. "Não fomos lá, mas era como se lá estivéssemos. Então, nós, em Coimbra, já andávamos com as francesas, tínhamos amor livre. Não precisávamos de Woodstock."

José Oliveira, em foto tirada em Angola, nos anos 1970 / Foto: Arquivo pessoal
José Oliveira, em foto tirada em Angola, nos anos 1970 / Foto: Arquivo pessoal

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