Jovem pianista narra as dificuldades de fazer música na Faixa de Gaza
Inspiração

Jovem pianista narra as dificuldades de fazer música na Faixa de Gaza

O Reverb é um espaço onde histórias divertidas e criativas relacionadas à música têm vez. É também o local para se inspirar e entender o que faz dela a paixão de tantos indivíduos ao redor do planeta, insistentes em persegui-la não importam as dificuldades. Em muitos casos, nem mesmo a guerra tem o poder de impedi-la. É o que mostra o exemplo da jovem pianista palestina Yara Thabit, de 18 anos, moradora do conturbado território da Faixa de Gaza.

Em entrevista concedida ao "Independent", a moça explica que passou três anos esperando a chegada de seu instrumento em casa, para que pudesse treinar. A demora se justifica pelas políticas de segurança na fronteira entre o território palestino e Israel, marcado por constantes guerras. Yara conta que, desde que nasceu, já viveu três delas.

"Meu maior medo é que o piano seja destruído durante um bombardeiro aéreo, que também nos matará", afirma a jovem à repórter e correspondente no Oriente Médio Bel Trew.

Em outra passagem da entrevista, Yara relata um ataque aéreo realizado em Gaza em novembro. Para se livrar do temor do momento, ela tocou "Dance of the Sugar Plum Fairy", de Tchaikovsky, no piano. Enquanto isso, parte de seu bairro era destruído.

"O som do instrumento me relaxa, ajuda a superar meus medos e o estresse diário. Então, mesmo durante a guerra, eu toco. É uma parte essencial da minha vida", admite ela.

A música, portanto, é uma das poucas saídas para os jovens radicados em Gaza. Como indicou a ONG Save the Children em um relatório publicado recentemente, pelo menos 95% das crianças e adolescentes do local têm sintomas de depressão, incluindo agressão, enquanto 2/3 tem problemas de insônia.

Conseguir comprar um instrumento fora da Faixa de Gaza é uma das grandes barreiras enfrentadas pelos palestinos aspirantes a músicos. Para driblar as dificuldades, alguns recorriam a contrabandistas que enviavam os produtos via passagens subterrâneas secretas em Sinai, no Egito. No entanto, quando o governo egípcio reforçou a segurança no entorno das fronteiras, o comércio "informal" ficou mais complicado. O único jeito de conseguir um novo instrumento é aguardando eles passarem pela fronteira com Israel, o que pode demorar anos, como foi o caso do piano de Yara.

O som do instrumento me relaxa, ajuda a superar meus medos e o estresse diário. Então, mesmo durante a guerra, eu toco. É uma parte essencial da minha vida

Como os pianos são instrumentos grandiosos em sua musicalidade e tamanho, são os tipos mais difíceis de passarem pela divisa. Para se ter uma ideia: Gaza tem aproximadamente 2,2 milhões de habitantes e apenas um piano de calda em todo seu território. O de Yara, por sua vez, é um tipo vertical, mais compacto.

O único piano de cauda da pequena faixa palestina foi doado pelo governo japonês há duas décadas. Ele ficou "perdido" durante anos, até que em 2013 foi redescoberto. O instrumento ainda passou por maus bocados em 2014, quando um míssil explodiu no teatro de Gaza durante a guerra. Por conta disso, ele precisou ser restaurado por uma equipe de Bruxelas, na Bélgica. Depois, foi enviado para uma escola de música local.

Foi neste piano que a jovem Yara teve o privilégio de se apresentar em um concerto ao vivo, coisa rara em Gaza, aliás. Tão rara — seja pela falta de locais para tocar, seja pela falta de estímulo do governo para a produção cultural — que esta foi a primeira vez em uma década que o instrumento foi tocado em público.

"A experiência foi incrível", observa a moça. "É uma pena que não existam tantos instrumentistas em Gaza. Especialmente mulheres. Quando eu conto que eu toco piano, por exemplo, as pessoas não consideram isso natural", completou.

Os jovens de lá encontram dificuldades para comprar instrumentos, tocar em público e, por fim, encontrar professores que ensinem música. Yara, por exemplo, está sem seu mestre, um estrangeiro que voltou ao país de origem. Mas além de instrutores de piano, faltam de violoncelo e de trompete.

"Tínhamos um professor de violoncelo que vivia em Gaza desde 1997, mas neste ano ele precisou voltar para a Romênia por razões pessoais", conta Khamis Abushaban, do Conservatório do local, um dos poucos estabelecimentos no território que ainda ensinam música. "Também havia um mestre russo que ensinava trompete e guitarra, mas ele precisou ir embora em outubro. Infelizmente, não conseguimos substitutos para eles. Então, aqui essas aulas pararam de existir".

O jeito para não deixar a tradição da música clássica e seus diversos instrumentos morrerem em Gaza é tomar aulas via Skype. É o que muitos estudantes têm feito. "Conectamos alunos com professores em outros centros fora de Gaza. É o melhor que podemos fazer aqui, onde você não pode ter tudo o que quer", diz Khamis .

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