Judas Priest: 'British Steel' chega aos 40 anos como um clássico inoxidável do metal
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Judas Priest: 'British Steel' chega aos 40 anos como um clássico inoxidável do metal

"Queremos mostrar que o metal é tão forte que não sangramos". Essa foi a orientação que Rob Halford deu ao ilustrador quando ele criou a capa de "British Steel", álbum do Judas Priest que completa 40 anos. A capa originalmente pensada pelo artista Roslaw Szaybo tinha sangue pingando da mão que segura uma lâmina de barbear. Com um som vigoroso e cru, o disco alçou a banda ao sucesso internacional.

Lançado em 14 de abril de 1980, mais de uma década após a formação do Judas Priest, "British Steel" veio com uma sonoridade mais crua, rápida e despojada do que o anterior "Killing Machine/Hell Bent for Leather", de 1978. Além disso, é provavelmente o álbum mais incisivo do grupo em relação a questões sociais. Depois de emplacar épicos complexos como "Genocide" e "Victim of Changes", outros caminhos foram trilhados.

O Judas Priest gravou o sexto álbum de carreira no Ascot Sound Studios, situado na propriedade de Ringo Starr, em Tittenhurst Park. A grandiosidade da mansão georgiana do ex-baterista dos Beatles com seu estúdio bem equipado não distraiu os músicos do que estava acontecendo lá fora. Greves e passeatas agitavam os conflitos políticos e sociais cada vez mais intensos sob a administração da primeira-ministra Margaret Thatcher.

O título do álbum é uma referência à luta dos operários da British Steel Corporation, que se revoltaram contra as condições de trabalho. A banda é originária da cidade siderúrgica de Birmingham. "Essa é definitivamente uma referência ao mundo do aço. Muitos de nossos fãs da época estavam envolvidos na indústria pesada, incluindo a fabricação de aço. Tudo está ligado ao mundo do metal", diz o vocalista Rob Halford em entrevista à "Billboard". "Todos nós tínhamos amigos e familiares que perderam seus empregos por causa disso. Não foi um momento muito feliz", lembra o baixista Ian Hill.

O engajamento político não era o traço mais forte na música do Judas, mas pode-se dizer que em "British Steel" ele aflorou. "A maior parte desse registro foi feita em um período realmente turbulento no Reino Unido. Tínhamos as greves de mineiros, trabalhadores siderúrgicos e lixeiros. Todo o país estava muito irritado e isso acaba entrando na sua mente e nas músicas. Obviamente, a mais específica é 'Breaking The Law'. 'The Rage' e 'Grinder' também têm referências a todas essas expressões de resistência", enumera Rob, citando ainda "Rapid Fire" e "Steeler" para reforçar essa relação do trabalho com as questões sociais.

Outra referência à industria siderúrgica inglesa estava na própria arte da capa do álbum, feita pelo artista polonês Roslaw Szaybo (1933-2019). A foto em close de uma mão segurando uma lâmina de barbear com o nome da banda e o título do álbum circula em camisetas e posteres até hoje. "Ele faleceu recentemente, era brilhante e fantástico em seu trabalho. Sua criação para esse álbum se tornou icônica e foi usada por muitas outras fontes fora da indústria da música", ressalta Rob.

O pintor, fotógrafo e designer também fez capas para Miles Davis, Elton John, The Clash, Leonard Cohen e Janis Joplin, além de outras artes para o Judas, como as de "Sin After Sin", "Stained Class" e a edição inglesa de "Point Of Entry". "Em alguns casos, tínhamos uma ideia para um título, em outros apenas chegávamos no escritório e víamos o que ele havia feito. Acho que com 'British Steel' tivemos uma sugestão. Era algo que juntava a referência punk — lâminas de barbear, alfinetes de segurança — à indústria de fabricação de aço", diz Rob.

A arte original da capa tinha sangue escorrendo dos dedos que seguravam a lâmina - que mais tarde foi a capa da reedição do 30º aniversário do álbum) -, ideia que foi modificada. "Dissemos a ele: não queremos isso. Queremos mostrar que o metal é tão forte que não sangramos. Então ele gentilmente fez esse ajuste", ri Rob.

As capas de "British Steel". Foto: Reprodução
As capas de "British Steel". Foto: Reprodução

Com apenas um mês para gravar o álbum e com quase metade do trabalho ainda por fazer, os músicos contaram com o produtor Tom Allom. Era a primeira vez em que trabalhavam juntos em estúdio — Tom produzira "Unleashed In The East", álbum ao vivo lançado em 1979. "Foi um choque cultural total quando conhecemos o cara. Somos cinco rapazes da classe trabalhadora, no meio industrial da Inglaterra, e ele é muito classe média alta. 'Quem diabos é esse cara falando conosco com esse sotaque muito agradável?', perguntávamos. Mas, depois de 30 minutos no pub local, vimos como era um homem maravilhoso", conta Ian.

Rob lembra que a amizade com o produtor perdura até hoje e que ele foi peça fundamental para o sucesso do álbum. "Dividimos a experiência e a diversão fazendo 'Unleashed In The East' juntos. Quando criamos 'British Steel', já havia um relacionamento estabelecido. Ele ajudou muito para que o álbum saísse da maneira que foi, mantendo o som muito seco e muito leve", avalia o vocalista.

A banda Judas Priest em um show nos Estados Unidos nos anos 1980. Foto: Getty Images
A banda Judas Priest em um show nos Estados Unidos nos anos 1980. Foto: Getty Images

Sobre a velocidade imposta às novas músicas, que se tornaria uma forte influência para o que viria a ser o thrash metal — em particular pelos riffs de Glenn Tipton e K.K. Downing —, Rob explica: "A única maneira de tocar nessa velocidade era, em vez de puxar para baixo, puxar as cordas da guitarra para frente e para trás rapidamente. Falando com os caras do Metallica, Anthrax, Testament e Slayer, eles mencionam que parte de sua inspiração veio das guitarras do Judas".

Com uma abordagem mais direta e som potente, o álbum teve o alcance internacional que faltava à banda, produzindo três dos 30 melhores singles do Reino Unido e alcançando a quarta posição nas paradas. As músicas "Breaking The Law" e "Living After Midnight" tiveram ótima repercussão também nos Estados Unidos, onde o álbum alcançou o 34º lugar na Billboard 200.

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