Julie Wein, cantora e compositora, doutora em neurociência, se inicia em disco pela arte do encontro
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Julie Wein, cantora e compositora, doutora em neurociência, se inicia em disco pela arte do encontro

Julie Wein sabe que a música ativa diversas partes do cérebro e é capaz de alterar nossa percepção sobre a realidade. Nesses tempos de isolamento social, é uma espécie de "superpoder" acessível a todos. Especializada em Neurociência Computacional das Emoções e da Música, Julie conhece esses efeitos por experiência própria. Além da formação acadêmica, ela é cantora e pianista. Seu primeiro trabalho, "Infinitos Encontros", lançado pelo selo Biscoito Fino, traz parcerias com nomes como Ed Motta e um rigor encontrado na MPB de feras como Edu Lobo.

Nascida em Curitiba numa família ligada ao mundo artístico — o pai, Romildo, é violoncelista e a mãe, Rocio, coreógrafa — Julie teve o clássico como primeira referência musical. "Como eu acompanhava os ensaios, desde pequena tive essa educação para entender, por exemplo, a importância de se manter silêncio durante os concertos", lembra ela em entrevista ao Reverb. Agora, a doutora e cantora lança seu primeiro álbum que traz oito faixas autorais e participações como Ed Motta, Marcelo Caldi e Jorge Helder. "Infinitos Encontros" está disponível nas plataformas de streaming e em formato físico em seu site.

Do erudito, Julie começou a ter interesse por rock e MPB, em especial Tom Jobim, Elis Regina, Chico e Caetano. "Uma vez pediram um trabalho na escola sobre ídolos e fãs, conceitos que eu ainda nem entendia direito o que era. Quando me explicaram, escolhi Chico e Caetano, e a professora pensou que minha mãe tinha feito o trabalho", lembra a história afetiva.

Julie conta que pensava ser necessário ter formação clássica para seguir na carreira musical e, ao mesmo tempo, era testemunha das dificuldades de ser um artista independente dentro da própria casa. Foi mais ou menos nessa época que ela leu um livro que despertou um interesse inusitado e um novo caminho profissional: a astrofísica. "Consegui unir algo mais estável e tão apaixonante quanto a música na hora de fazer vestibular... Fiz dois períodos de astronomia e mudei depois para biofísica", diz ela, que mudou para o Rio em 2009 para fazer faculdade — graduou-se em Ciências Biológicas/Biofísica e fez doutorado em Neurociências pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Julie Wein é autora de todas as oito faixas de seu primeiro álbum, "Infinitos Encontros". Foto: Divulgação/Helena Coope
Julie Wein é autora de todas as oito faixas de seu primeiro álbum, "Infinitos Encontros". Foto: Divulgação/Helena Coope

Só que Julie não abandonou sua primeira paixão, que voltou à tona ainda enquanto estudava. "Percebi que estava faltando algo, e era a música. Mesmo com muitas pessoas falando que eu não daria conta, voltei a cantar e a tocar piano. E escolhi fazer uma especialização que tivesse alguma ligação com ela. O doutorado trouxe muitos esclarecimentos sobre o poder que a música tem em nosso cérebro", conta.

Em 2015 Julie estreou no palco e, desde então, vinha acalentando fazer um álbum. "Eu tinha planos de gravar um single, mas o meu produtor Victor Ribeiro disse que seria melhor um EP. No meio desse processo, eu comecei a compor. Meus planos sempre foram de ser intérprete, nunca pensei em escrever, o que veio totalmente por acaso", conta Julie, que foi despertada para o talento através de um poema de sua mãe. "Ela me mandou o poema ('Poemas De Ti', faixa 7 do disco) e era tão bonito que enquanto lia, a melodia veio na minha cabeça. Aquilo me despertou um lugar novo, uma sensação de realização. Fiquei tão inspirada que comecei a fazer uma atrás da outra", diz ela, que também é parceira da mãe (que assina sob o pseudônimo M. Vieira) em "Beiral Da Porta".

Com esse novo material surgindo, os planos do álbum mudaram para torná-lo um trabalho totalmente autoral. "Percebi que um disco com oito faixas seria o ideal pois reuniria encontros, de compositoras, músicos e amores, fechando uma mensagem. Acho que as músicas que fiz depois dessa primeira leva destoariam do contexto", explica.

Julie conta que o disco teve um processo de produção de um ano, em que ela e Victor conversaram muito para achar o ponto certo dos arranjos. "Ele queria algo mais pop, mas eu preferia ir por outro caminho. Eu geralmente tocava a música no piano e os arranjos eram feitos em cima. A percussão veio de um diálogo entre Victor e Marco Lobo, muitas coisas foram surgindo no estúdio, como aquele tangueado de 'Valsa Em Sim', onde Marcelo Caldi ficou livre para tocar. Aliás, esse colorido do disco é muito graças às personalidades dos músicos", elogia.

Entre as outras presenças, estão as de Jorge Helder, Yuri Villar, Joana Queiroz e de seu pai no violoncelo. Outra participação importante é a de Ed Motta em "Beijo Da Noite", que tem belos arranjos de piano e cordas, assim como a faixa de abertura "Trânsito De Marte". “Tive a grande alegria de receber a participação do mestre Ed Motta, amigo e músico incrível, com um trabalho tão importante para nossa música”, diz, satisfeita.

As oito faixas são de Julie, sendo quatro com parceiras — duas com a mãe, uma com Mariana Ferrão ("Mar Demais") e Viviane Burger ("Ítaca"). "Essas parcerias vieram todas de encontros inusitados, por isso até o nome do disco, 'Infinitos Encontros'. "Viviane é advogada e casada com meu primo. Um dia ela veio aqui em casa e eu toquei algumas músicas. Não poderia imaginar que, dias depois, ela mandaria um poema para eu musicar. Já a Mariana foi na UFRJ há alguns anos para entrevistar um pesquisador e nos tornamos amigas. Tempos depois, compus 'Borboletas Na Porta' para ela, que ficou superemocionada quando ouviu e eu, impactada com o poder de comunicação da música, que mostrou exatamente o que eu sentia. Depois, ela me mandou um poema e eu musiquei", conta.

Julie aproveita seu conhecimento científico para lembrar que a música é um importante aliado para o nosso cérebro. "A música sempre foi algo que respondeu muito bem sobre as questões de autoconhecimento e relação com o mundo. Ouvir ou tocar ativa diversas partes do cérebro, fortalecendo a comunicação entre as redes, como se fosse um circuito de recompensa: causa prazer, é algo benéfico, um ganho evolutivo", explica.

Em tempos de quarentena, a especialista dá algumas dicas para fazer da música uma aliada para combater o estresse e ansiedade. "Essa situação de isolamento é realmente complicada em termos de saúde mental. Gosto de recomendar, por exemplo, que se crie playlists com músicas que marcaram sua vida. A música é capaz de resgatar sensações e alterar a percepção do cérebro sobre a realidade. Ela tem o poder de aliviar a ansiedade e alterar os batimentos cardíacos", indica.

Julie destaca que o mais importante é escolher músicas com que se tenha afinidade, e não se guiar por aquelas consideradas relaxantes ou por algum gênero específico. "Outra coisa boa também é ouvir novos lançamentos, assim como aprender algo e se informar de novidades, tudo incita a curiosidade, o que é um ótimo exercício para o cérebro", ensina.

A cantora conta que, recentemente, aplicou os ensinamentos em seu próprio dia a dia: "Fui convidada para fazer uma live, mas estava me sentindo muito desanimada, abatida mesmo. Mas eu sabia que, pela neurociência, aquilo traria benefícios. Aceitei participar, fiz toda a preparação e vi o quanto foi bom receber o carinho das pessoas, ter toda aquela troca mesmo à distância". A experiência foi tão boa que Julie já se prepara para uma nova live, que vai ao ar sábado (25/4) em sua conta no Instagram.

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