K-pop: lado trágico reflete insegurança econômica na Coreia do Sul
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K-pop: lado trágico reflete insegurança econômica na Coreia do Sul

Uma onda de escândalos e suicídios assolou o mundo do k-pop em 2019. Mas as manchetes inquietantes acabaram desvendando muito mais do que a grande pressão do show business levando os jovens músicos a extremos. O cenário político, econômico e social da Coreia do Sul é opressor para a geração mais nova, que se vê em permanente e acirrada competição — uma pressão que, no meio das boy bands e girl bands, entre extremos de sucesso e fracasso, acaba sendo potencializada.

O presidente sul-coreano Moon Jae-in tem muitos desafios pela frente. Crédito: Getty Images
O presidente sul-coreano Moon Jae-in tem muitos desafios pela frente. Crédito: Getty Images

Em um artigo publicado no site da revista "Forbes", William Pesek, especialista em economia e mercado asiático, afirma que o presidente Moon Jae-in enfrenta os millenials mais infelizes do mundo desenvolvido. De acordo com a Organization for Economic Cooperation and Development, os jovens sul-coreanos são considerados os menos felizes do mundo. O motivo principal? A pressão para alcançar o sucesso em uma sociedade hipercompetitiva.

O mercado fenomenal do k-Pop acabou se transformando numa representação do poder cultural global da Coreia do Sul no mundo. E as recentes mortes da cantora Goo Hara, 28 anos; da cantora Sulli, 25; e do ator Cha In-ha, 27 anos, intensificaram os debates sobre as pressões extremas que não só os artistas enfrentam, mas também os jovens coreanos de forma mais ampla.

Goo Hara, uma das mortes que reacenderam os debates sobre as pressões que os jovens da Coreia do Sul sofrem. Crédito: Getty Images
Goo Hara, uma das mortes que reacenderam os debates sobre as pressões que os jovens da Coreia do Sul sofrem. Crédito: Getty Images

Segundo o artigo de Pesek, o país parece viver atrelado ao recente passado de êxito, mas sem perspectivas de repetir as façanhas de crescimento no futuro, enquanto seus jovens sofrem em um "inferno vivo", como costumam classificar sua situação. O investimento de Moon para alcançar a paz com a Coreia do Norte, por exemplo, é mais retrospectivo do que progressivo. Isso parece ter tirado seu foco dos esforços para reaquecer a economia. Outro problema diplomático é a ameaça de Donald Trump de retirar as tropas americanas se Seul não pagar um valor 400% mais alto.

Mas Moon ainda está no meio de seu mandato de cinco anos. Com esforço e boas práticas, observa o artigo de "Forbes", ele pode cumprir as metas prometidas e dar aos jovens sul-coreanos a esperança de um futuro mais tranquilo.

Eleito em maio de 2017, o presidente da quarta maior economia da Ásia prometeu um "crescimento lento", mas ainda não há muito o que comemorar. Se o governo de Moon merece elogios pela ampliação de subsídios e incentivos fiscais às pequenas empresas, a estrutura da economia continua a favorecer os grandes conglomerados exportadores.

Um aspecto da economia coreana é a presença dominante dos chamados "chaebols", denominação dos conglomerados em torno de uma empresa-mãe, geralmente controladas por famílias. Modelo que colabora e muito para um sistema estressante, no qual muitos jovens lutam para conseguir um emprego na Samsung, Hyundai, LG e Daewoo. Como atualmente não há alternativas, os que não conseguem acabam relegados à margem de suas carreiras.

Samsung, uma das 'chaebols' coreanas. Crédito: Getty Images
Samsung, uma das 'chaebols' coreanas. Crédito: Getty Images

Ainda há muito receio por parte dos governos sul-coreanos em mexer com os "chaebols", o que pode desestabilizar o modelo econômico vigente em praticamente todas as indústrias do pais. Uma situação que deve deve ser feita com habilidade e metodologia, afinal, um importante passo seria o governo convencer essas gigantes a compartilhar a riqueza com funcionários e comunidade. Isso poderia se transformar em investimentos em novas empresas e indústrias promissoras.

A capacitação da mão de obra feminina é outra área que merece mais atenção de Moon. É um terreno em que a Coreia vem perdendo muito: o Fórum Econômico Mundial classifica atualmente a Coreia em 115º lugar entre 144 nações em igualdade de gênero. Uma contradição, considerando que o país está no topo do ranking do ensino superior para mulheres de 25 a 34 anos. Uma conquista, no entanto, ainda insuficiente.

Não é surpresa, nesse momento mundial do #MeToo, que o k-Pop tenha enfrentado várias alegações de misoginia. É um meio ainda conservador e machista, basta ver alguns dos possíveis desencadeadores de suicídios das cantoras, como exigência de padrões rígidos de beleza, críticas sobre relacionamentos amorosos ou até ataques por conta de não usar sutiã. Lembrando que o país tem a maior taxa de suicídios no mundo desenvolvido (é o 10º colocado no ranking geral), com 24,1 mortes a cada 100 mil habitantes, segundo dados da Organização Mundial da Saúde em 2015.

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