Kraftwerk: livro analisa essência alemã do grupo, comparado a um 'Beatles fantasma' pela imensa influência global
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Kraftwerk: livro analisa essência alemã do grupo, comparado a um 'Beatles fantasma' pela imensa influência global

“Nossa raiz é a cultura que foi cortada por Hitler: a escola da Bauhaus e do expressionismo alemão.” A frase é de Ralf Hütter, explicando as origens do grupo que ele criou em 1970 junto a Florian Schneider, e que cuja música seria a base para inúmeras revoluções no pop e no rock desde então: o Kraftwerk. O grupo alemão e o complexo modo como sua música refletiu a evolução da cultura germânica após a Segunda Guerra Mundial são o tema do livro “Kraftwerk: Future Music From Germany”, recém-lançado na Inglaterra pelo compatriota Uwe Schütte. Na resenha do jornal “Financial Times” , eles são comparados a um “Beatles fantasma” pela imensa influência global.

O volume se propõe a mostrar como Hütter e Schneider queriam redimir a arte alemã da era que antecedeu o nazismo — “uma tentativa de aproveitar o potencial que o país nunca teve chance de desenvolver”, como diz o autor. E, paradoxalmente, acabaram por criar sons que até hoje são sinônimo de futurismo musical. Schütte, que é pesquisador na universidade de Aston (Inglaterra), cita no livro os diversos artistas e movimentos influenciados pelo Kraftwerk: o synthpop britânico dos anos 1980, astros do hip-hop como Afrika Bambaataa, conterrâneos industriais como o grupo Einstürzende Neubauten e pioneiros do techno de Detroit como Juan Atkins e Derrick May.

O Kraftwerk em 1976, em um show em  Rotterdam. Foto: Getty Images
O Kraftwerk em 1976, em um show em Rotterdam. Foto: Getty Images

No entanto, inspirado pela frase de Hütter citada acima, dedica ainda mais espaço aos artistas que influenciaram o grupo alemão. A música do Kraftwerk deveria ser tão funcional e polida quanto os projetos de Walter Gropius (1883-1969) ou Mies van der Rohe (1886-1969), os grandes arquitetos modernistas alemães. E também deveria ter os contrastes e o minimalismo dos filmes expressionistas de cineastas como Robert Wiene (1973-1938) ou Fritz Lang (1890-1976). Eram os artistas da República de Weimar, a explosão de vanguardas que precedeu o abismo criado por Hitler.

O Kraftwerk queria herdar o bastão daqueles experimentalistas. A obsessão de Hütter e Schneider pelos ícones imagéticos da era de Weimar — trens, manequins, robôs, ciborgues, espelhos — se reflete em toda a obra do grupo: “Trans-Europe Express”, “The Robots”, “The Model”, “Hall of Mirrors”. O primeiro sucesso internacional, “Autobahn”, é inspirada nas autoestradas de alta velocidade construídas pelo governo nazista nos anos 1930; como nota Schütte, trata-se de um “monumento alemão altamente ambíguo”, visto que as rodovias eram uma das obsessões particulares de Adolf Hitler.

A obsessão pelos ícones imagéticos da era de Weimar se reflete na obra do grupo. Foto: Getty Images
A obsessão pelos ícones imagéticos da era de Weimar se reflete na obra do grupo. Foto: Getty Images

Ao analisar os precedentes, a obra e o legado do Kraftwerk, Schütte defende que o grupo era, acima de tudo, um projeto de arte mais amplo, “uma combinação multimídia de som e imagem, design gráfico e performance (...) um trabalho de ‘arte total’. Ele refere-se ao conceito criado pelo compositor alemão Richard Wagner (1813-1883) para definir uma obra que emprega múltiplas formas de expressão para concretizar a visão do artista. Nesse contexto, o autor ainda aponta os experimentos eletrônicos do compositor Karl-Heinz Stockhausen (1928-2007), as criações do artista plástico Joseph Beuys (1921-1986) e as fotografias de Bernd Becher (1931-2007), criadores conterrâneos fundamentais na formação da “arte total” do Kraftwerk.

Como escreveu o jornalista Karl Whitney em uma resenha publicada no “The Guardian”, em “Kraftwerk: Future Music From Germany” vemos o grupo retratado como uma “corporação cujo negócio é o desenho industrial, e que está engajada num processo contínuo de aperfeiçoamento de seus produtos”. É uma visão coerente com os estereótipos clássicos associados à Alemanha: perfeccionismo, eficiência, frieza mecânica. Mas, como Schütte argumenta, o grupo sempre manteve uma “identificação subversiva” com esses clichês, e os usaram para criar o mais influente fenômeno global da cultura alemã da segunda metade do século 20. E, pode-se dizer também, no começo deste século 21 também.

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