'Lazarus': montagem arrojada e grandes canções de David Bowie garantem impacto de espetáculo musical
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'Lazarus': montagem arrojada e grandes canções de David Bowie garantem impacto de espetáculo musical

A adaptação brasileira de“Lazarus”, obra derradeira de David Bowie (1947-2016), escrita em parceria como dramaturgo irlandês Enda Walsh, é um encontro de talentos ímpares, encorpado e ampliado por um trabalho de equipe sólido, com décadas de simbiose criativa. Dirigido por Felipe Hirsch, 48 anos, o maior encenador brasileiro de sua geração, e com direção de arte brilhante de Daniela Thomas e Felipe Tassara, o espetáculo musical retomou na quinta-feira (5/3) a temporada carioca no Teatro Multiplan, no Village Mall. Fica em cartaz de quinta a domingo até o dia 15 de março, e é imperdível para fãs de Bowie e de artes cênicas.

O elenco conta com Jesuíta Barbosa em surpreendente interpretação e com a contribuição musical arrojada de Maria Beraldo e Mariá Portugal, que abordam 18 canções de Bowie com arranjos inesperados, eventualmente desconstruindo criativamente os originais a partir de ideias bastante identificadas com o universo bowieano (notavelmente o da fase de álbus como “Scary Monsters” (1980) e “Lodger” (1979). O repertório inclui clássicos como “Life On Mars?” e “Changes”, com espaço para surpresas excêntricas (“It's No Game (Part 1)” e hits como “Absolute Beginners”. Estrategicamente, músicas da fase final do artista ganham destaque na narrativa e crescem.

A história contada no palco segue por temas bem explorados por Bowie ao longo da carreira: conflitos entre o humano/local e o alienígena/estrangeiro (que sempre é mais uma versão próxima do outro, nunca é um ser de natureza totalmente diversa), entre ciência/material e religião/transcendência, amor e fuga. O personagem principal é Alfred Jerome Newman, pinçado do romance de ficção científica “O Homem que Caiu na Terra”, lançado pelo americano Walter Tevis (1928-1984) em 1963. Ele baixa nos Estados Unidos do tempo da Guerra Fria com a missão de salvar seu planeta distante, Anthea, condenado pelo esgotamento de recursos — especialmente, água. Thomas usa conhecimentos científicos muito superiores aos dos humanos para ficar rico com patentes e invenções, e tentar construir uma nave. Mas é perseguido e, diante do iminente fracasso em seus objetivos, sucumbe à solidão e ao alcoolismo.

Felipe Hirsch usa isso e o esboço que Bowie deixou en “Lazarus” como pontos de partida para uma viagem sensorial em que o cenário é personagem, brincando com gravidade, equilíbrio (o protagonista é um extraterrestre bêbado...) e efeitos de projeções em tela — que fornecem as letras das canções tocadas, fornecendo mais um elemento ao espectador. Vindo de uma temporada consagradora em São Paulo, Felipe não faz concessões populistas. “Normalmente quem gosta desses musicais que estão por aí não gosta de ‘Lazarus’. E quem não gosta muito desses musicais ama”, comenta. “Eu não tenho o menor preconceito com relação a musical, sempre fui um fã de musicais. Tenho uma certa resistência aos musicais biográficos porque tenho dificuldade de acreditar que a biografia daquela pessoa vai ser mais interessante do que uma dramaturgia. Às vezes eu não quero que o Cazuza morra no final, ou que a Rita Lee não faça mais um disco como tantos.”


Carla Salle, Bruna Guerin e Jesuíta Barboza em cena de 'Lazarus'/ Foto: Flavia Canavarro (Divulgação)
Carla Salle, Bruna Guerin e Jesuíta Barboza em cena de 'Lazarus'/ Foto: Flavia Canavarro (Divulgação)

Você chegou a imaginar o espetáculo usando alguma das canções vertida para o português?

Não, nunca imaginei versões em português de Bowie, isso inclusive foi decisivo para que eu aceitasse entrar no barco: a liberdade imensa que existe em relação às produções inglesa e americana originais. Não é uma franquia, eles de fato pedem e estimulam que todos os diretores façam uma montagem o mais diferente possível, o que é um dos grandes trunfos dessa produção. Já tiveram cinco montagens dessa peça só na Alemanha, de diretores importantes como Falk Richter, e de fato eu acho que isso é muito bom. Então não, nunca imaginei e acho fundamental que elas (as canções) sejam no seu idioma original.

O que acha das versões das canções de Bowie conhecidas?

Quando você escuta Kurt Cobain tocando “The Man Who Sold The World”, você tem ali uma alma maravilhosa, extraordinária, incrível, cantando aquela música que inclusive renasceu para o próprio David Bowie. Nas últimas turnês, quando ele tocava essa música, anunciava como uma música do Nirvana.

Mas isso é raro, não existem grandes versões. Esse foi um dos grandes desafios que tivemos nessa montagem. Contudo, acho que a Maria Beraldo e a Mariá Portugal, que são dois grandes nomes dessa cena paulista atual, elas conseguiram um milagre com o trabalho. O trabalho musical do “Lazarus” é o que a gente tem de melhor para oferecer, é lindíssimo. E a Maria Beraldo e a Mariá Portugal são as duas responsáveis por isso.

O diretor Felipe Hirsch/ Foto: Annemone Taake(divulgação)
O diretor Felipe Hirsch/ Foto: Annemone Taake(divulgação)

Como fã de Bowie, como reagiu aos dois últimos discos? Como a dor e a comoção pela morte marcaram sua percepção e “absorção” do repertório do álbum “Blackstar”’?

Foi um grande susto, a gente não sabia para onde o Bowie ia. Ele falou aquela frase tão intrigante e forte no show de 50 anos do Madison Square Garden: “Eu não sei para onde estou indo, mas eu prometo que não vou entediar vocês”. A gente sempre estava à espera do que aconteceria, e foram 10 anos entre o último show dele, quando ele sofreu aquele infarto, e o “The Next Day”.

Então foi uma grande surpresa, perto do aniversário dele, ele voltar com um clipe tão evidentemente autobiográfico, com “Where Are We Now?”, falando sobre o período dele na Alemanha, em Berlim. Eram canções muito bonitas. O que não era uma característica dele, essa evidência, já que ele sempre foi mais críptico. O que a gente não sabia naquela ocasião é que já eram músicas pensadas de alguma maneira para o “Lazarus”. E depois ele lança o “Blackstar”, nem tanto tempo depois, com um intervalo de 3 anos, e infelizmente ele morre nesse mesmo ano, fazendo aquele clipe do “Lazarus”, já sabendo que o fim dele estava próximo.

“Blackstar” carrega todas essas metáforas e simbolismos em relação ao fim da vida dele. Mas já era um repertório que ele estava construindo para o “Lazarus”. Existem algumas músicas ali, como “Valentine’s Day”, fora as quatro músicas inéditas que ele compôs para o “Lazarus”. Muitas daquelas músicas já pensavam de alguma maneira no tema do “Lazarus”, portanto parte do repertório do “Lazarus” está no repertório daqueles dois últimos discos.

Como foi retornar ao teatro pop, que lhe projetou, nos tempos de Sutil Companhia?

De fato o trabalho que eu faço desde 2013, primeiro com “Puzzle”, de literatura brasileira (que é uma espécie de uma trilogia que está se transformando em tetralogia com o meu próximo trabalho) com suas quatro partes, “A tragédia e a Comédia Latino-Americana”, essa com duas partes, depois “Selvageria”, sobre literatura brasileira latino-americana e documentos históricos brasileiros. Este díptico formado por “Antes que a Definitiva Noite se espalhe em Latino América” e “Fim”, que são convites meus para colegas dramaturgos da América Latina para escrever sobre Brasil naquele momento. E agora finalmente “Língua Brasileira”, que eu estou criando com o Tom Zé e o Caetano Galindo, que forma, digamos assim, essa tetralogia a partir de “Selvageria”.

Então eu realmente estou trabalhando num universo bastante diferente, e sinto, sim, não posso negar, que “Lazarus” é um trabalho paralelo a isso tudo e que eu aceitei por causa da minha proximidade com a Dueto Produções. Eu sou curador de vários festivais deles há bastante tempo, e sou muito amigo, muito próximo, e me identifico muito com essa produtora, o que é raro acontecer normalmente. Nós somos muito fraternos, muito irmãos ali dentro, e com o teatro novo que o Isay Weinfield, que é um grande amigo também e estava construindo seu primeiro teatro em São Paulo, e claro David Bowie. Tinha uma série de motivos que me encaminhavam para fazer esse projeto.

É certo também que ele ficou com uma cara, e talvez obviamente pela relação com a música pop, da Sutil Companhia de Teatro, que não só trabalhava com esse tema mas que levou muitos jovens ao teatro pela primeira vez e teve um trabalho de formação de público muito grande. E também levou quem não era de teatro especificamente, como arquitetos, jornalistas, engenheiros, designers, e muita gente que não ia ao teatro normalmente passou a ir com a Sutil Companhia, eu tenho consciência disso, da importância desse grupo de 20 anos.

Desde 2013 é uma história bastante diferente, tão importante quanto. Eu tenho muito orgulho desse meu passado, mas o que a gente está fazendo é muito importante para o Brasil agora e lança uma luz, um farol, para frente muito grande, de muitas coisas que virão ainda.

“Lazarus” é também um espetáculo para quem tem nostalgia. Quem assistiu à Sutil Companhia nesses 20 anos de existência dela, entre 1993 e 2012, vai poder matar um pouquinho o gosto desses espetáculos que foram tão queridos, como “A Vida É Cheia de Som & Fúria”, “Avenida Dropsie”, “Educação Sentimental do Vampiro”, “Não Sobre o Amor”.

O brasileiro ligado ao ofício teatral hoje é uma espécie de alienígena no pós-Brasil (ou outra expressão que descreva o país pós-eleições de 2018)?

É, a gente luta para que não seja. As coisas são ondas e eu acho que isso tudo vai passar mais rápido do que a gente imagina. Para cada ação dessa existe uma reação forte, e tomara que a reação agora seja uma consciência humanista. Esse é o trabalho que eu tenho feito no coletivo Ultralíricos, uma certa conscientização das novas narrativas. Aliás, das novas não, das narrativas que não são nada novas, que são tão importantes e íntegras quanto algumas poucas narrativas que nós aprendemos até agora sobre o nosso país.

Existe muita coisa não falada sobre esse país, existem muitos documentos sequer traduzidos para a nossa língua, existe muita história a ser contada sobre o Brasil. Então essa reação já começou, e ela vai ser cada vez mais forte. Eu não acredito que esse estado estúpido, grosseiro e doentio que nós vivemos agora, conduzido por esse governo, se estabeleça, que seja esse o nosso futuro. Não acredito nisso mesmo, acho que existe uma onda muito forte na direção contrária disso.

O que você usou em ou aprendeu com “A Vida É Cheia de Som & Fúria” que reaparece em “Lazarus”?

Um pouco. Desde as técnicas que foram desenvolvidas, nós sempre fomos muito técnicos, todos os criadores. Também o fato de trabalhar com os mesmos criadores, Daniela Thomas e Felipe Tassara, Verônica Julian (figurinista), Beto Bruel, por mais de 30, 40 peças, isso faz com que a gente saiba muito bem de onde estamos vindo e para onde queremos ir.

Quando eu falo técnica eu falo também de como desenvolver linguagem, formas para atingir e explorar a ideia, e, portanto, emocionar, criar sensações, lidar sensorialmente com o público. Toda essa sensibilidade se une também a uma técnica e isso vem desde lá, é o mesmo grupo de criadores reunidos desde lá e até um pouco antes.

O que aprendeu do trabalho como diretor de ópera que foi aplicado em “Lazarus”?

“Lazarus” é o meu primeiro musical, mas — eu falo isso e eu não sei se as pessoas gostam de ouvir — normalmente quem gosta desses musicais que estão por aí não gosta de “Lazarus”. E quem não gosta muito desses musicais ama. “Lazarus” foi muito acarinhado em São Paulo, fez um grande sucesso, lotou todas as sessões antes de estrear, foi um fenômeno..

Eu não tenho o menor preconceito com relação a musical, sempre fui um fã de musicais. Eu tenho uma certa resistência aos musicais biográficos porque tenho dificuldade de acreditar que a biografia daquela pessoa vai ser mais interessante do que uma dramaturgia. Às vezes eu não quero que o Cazuza morra no final, ou que a Rita Lee não faça mais um disco como tantos. Então por isso eu sempre tentei não aceitar, digamos assim, o desafio de dirigir um musical. Quem sabe um dia eu faça.

Quanto a ópera, já é uma coisa bastante diferente. A ópera tem muito pouco tempo para ser levantada, existem características muito especiais, principalmente quando você lida com o estado. Eu estou começando a fazer algumas óperas na Europa a partir do ano que vem. Lamento muito que os nossos teatros municipais estejam tão abandonados. O de São Paulo me parece um pouco mais cuidado, mas eu vejo o André Heller-Lopes lá (no Theatro Municipal do Rio), herói, no meio de uma situação de abandono por parte do estado, lamentável. Queria que todos aqueles funcionários, todas aquelas pessoas recebessem muito mais carinho, porque eles têm um carinho imenso pelo Theatro Municipal, e eles estão segurando a barra como podem.

Mas é uma condição diferente, muito mais rápida, onde você tem que chegar com tudo mais pronto, que não é nenhuma característica especial minha e da Daniela Thomas. Normalmente a gente desenvolve o projeto e o trabalho durante os ensaios.

De que forma a atuação de David Bowie como Thomas Newman no filme “O homem que caiu na Terra” serviu como referência para o “Lazarus” brasileiro? Qual a sua atuação favorita de Bowie?

Minha atuação favorita do Bowie é, sim, a de “O Homem Que Caiu na Terra”, até porque eu tenho um carinho imenso por esse livro do Walter Tevis. Eu acho que o que mais influenciou a montagem do “Lazarus” foi o livro, mais até do que o filme (que é muito interessante, com umas características muito fortes da década de 70, para o bem e para o mal). Eu gosto muito do livro original, sobre imigrações, sobre alcoolismo, e acho que tem uma influência maior na dramaturgia e na montagem do “Lazarus” do que o filme.

Como vê e a que atribui o imenso sucesso atual de filmes de gênero híbrido, mas centrados na música, como “Bohemian Rhapsody”, e produções como “Rocketman”?

Nós estamos cada vez mais querendo ver essas ficções-doc (ou esses doc-ficções). E está valendo também, é ótimo, mas é importante que uma indústria inteira não se vire para isso, para essas falsas biografias. Até porque os artistas são mais complexos e interessantes do que a gente vê nesses filmes que você citou, por exemplo.

Às vezes, enquanto assistia “Bohemian Rhapsody”, eu tinha a impressão de que eu estava vendo o Queen sendo feito pelos Muppets, era até pouco engraçado assistir esse filme. Eles não são assim, eles são mais complexos – todos os personagens são mais complexos.

Esse é um vício doentio hollywoodiano de fazer dinheiro contando histórias da carochinha sobre ídolos de rock. Não é nada assim, não é desse jeito e não acho bom que seja contada do jeito que é, porque também é interessante que se criem ficções, mas não essas ficções estéreis e maquiadas. Não tenho nada contra esses filmes especificamente como diversão, mas eles são puro entretenimento e têm pouco compromisso artístico, ou pouco compromisso com o próprio artista e toda a complexidade e riqueza que esses artistas possuem.

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