Leonardo Nascimento: DJ preso injustamente no Rio vê a música como forma de levar alegria às pessoas
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Leonardo Nascimento: DJ preso injustamente no Rio vê a música como forma de levar alegria às pessoas

O dia 20 de janeiro deveria ser um dia de festa para Leonardo Nascimento. Como nos 26 anos anteriores, ele comemoraria seu 27º aniversário com a família e os amigos. No lugar daqueles com quem construiu sua história, passou a data em uma cela de poucos metros quadrados na companhia de 85 presidiários. Dias antes, ele havia sido acusado, injustamente, de ter assassinado um jovem durante um assalto a um mercado em Guaratiba, no Rio de Janeiro, onde mora — e seu caso movimentou a opinião pública. Na região, Leonardo é conhecido como DJ Léo. A paixão pelas carrapetas é algo que ele carrega desde adolescência.

“Quando eu era mais novo, ouvia muito o DJ Marlboro. Ele era muito badalado por aqui e achava o som dele muito maneiro. O DJ Cabelinho morava perto da comunidade em que eu moro, então eu olhava para eles e queria ser tão bom quanto os dois”, conta Léo em entrevista ao Reverb. Ele foi solto após uma força-tarefa, formada por seus amigos e familiares, comprovar com imagens de câmeras de segurança que ele não podia ser quem a investigação sugeria. Ele conta que, quando voltou para casa, foi recebido “por umas 300 pessoas”.

A vida como DJ começou para valer aos 17 anos. Um dia, caminhando de volta para casa, viu um cartaz pendurado em uma das residências vizinhas: “Aulas de DJ”. Léo enxergou ali a chance de começar a trilhar o caminho que desejava. Sem poder arcar com os custos, recebeu ajuda de seus pais, dona Eliane e seu José Benjamin, para se matricular. Ela, cozinheira, ele, funcionário da Casa da Moeda desde os 18 anos.

“Meu pai teve uma carreira brilhante como atleta. Ele era corredor do Flamengo e atleta da Casa da Moeda. Durante o revezamento da tocha olímpica, em 2016, ele foi chamado para ser um dos condutores, lá em Resende”, conta, orgulhoso. Leonardo é um cara família. A todo instante, demonstra gratidão pelo que os pais e as irmãs fizeram por ele. Letícia tem a mesma idade que ele: os dois são gêmeos. Tamires é a mais nova, com 22 anos.

Em foto de família, Léo aparece ao lado da irmã Leticia e de seus pais / Foto: Arquivo pessoal
Em foto de família, Léo aparece ao lado da irmã Leticia e de seus pais / Foto: Arquivo pessoal

As aulas eram ministradas por um vizinho. No início, Léo tinha a companhia de mais um aluno, que logo abandonou os estudos, mas o filho de dona Eliane e seu Benjamin continuou. Foram 9 meses aprendendo sobre mixagem e sobre a utilização de equipamentos da profissão. A base era a música eletrônica. “Na época, o David Guetta estava muito badalado e a gente conseguia entender bastante sobre as músicas dele”, lembra. “Um dia, meu professor disse que eu já sabia quase tudo e começou a me levar para os eventos em que ele ia tocar. Eu prestava atenção nas festas, em como eram os ritmos e como era a sensação de tocar em um evento. Um tempo depois, ele disse que eu já estava bem treinado e poderia começar a minha carreira. Foi o que eu fiz”.

Trabalhar como DJ não tem preço. Você vê as pessoas se alegrando com as músicas que você toca, batendo palma, pulando, cantando… É incrível, é como se você ajudasse alguém a ser feliz

Vontade não faltava a Léo, mas ele ainda não tinha como comprar seu próprio equipamento, chamado de CDJ, sigla para “Compact Disc Jockey”. O aparelho é uma espécie de player com recursos que ajudam a performance do DJ. Com o dinheiro das primeiras festas em que trabalhou com o professor, Léo seguiu os conselhos de seu instrutor e juntou o dinheiro necessário para adquirir um notebook. No computador, baixou programas que o ajudariam a se apresentar.

“Com esses programas eu conseguia trabalhar nas festas em Guaratiba e fazia panfletos para divulgar. A galera gostava bastante do meu som e eu ia distribuindo os papéis. Com essa divulgação, começaram a me chamar para tocar em festas e eu tive que aprender um pouco de todos os ritmos. Me pediam anos 1980, axé, e eu ia me adaptando”.

Além do dinheiro que conseguia com as festas, trabalhou, durante a semana, como eletricista de uma obra no Recreio. Quando o projeto na construção civil acabou, conseguiu emprego em uma gráfica, onde fazia o acabamento do material produzido pela loja. Aos poucos, Léo foi comprando mais equipamentos para seu set.

O DJ levava chegava aos eventos nas redondezas de Guaratiba com jogos de luz e amplificadores. Além de festas de 15 anos e de casamentos, tocava nos bailes da região de Campo Grande, também na Zona Oeste do Rio. A participação nessas festas o fez se aproximar cada vez mais do funk.

"O funk começou a me dar mais oportunidades. Com 23 anos, comecei a me especializar naquilo que me abriu mais portas. Mas comecei a sentir falta de saber produzir. O fato de eu não ser um 'DJ produtor' começou a deixar minha vida mais difícil porque começou a chegar uma galera que produzia muito e eu não conseguia recursos para bancar essas aulas. Até tentei aprender sozinho com os programas que eu conseguia baixar na internet, mas foi complicado continuar sem orientação". Com o tempo, os equipamentos de Léo começaram a apresentar problemas e o DJ foi perdendo espaço por falta de estrutura. Ele teve que recusar apresentações visto que não poderia tocar direito.

'É como se você ajudasse alguém a ser feliz', diz Léo sobre a profissão / Foto: Arquivo pessoal
'É como se você ajudasse alguém a ser feliz', diz Léo sobre a profissão / Foto: Arquivo pessoal

O ditado “depois da tempestade vem a bonança” pode servir para a vida de Leonardo. As portas para as aulas de produção que ele tanto queria só se abriram depois do incidente trágico que viveu este ano. Após conseguir a liberdade de volta, teve a chance de conhecer Dennis DJ, um dos maiores nomes do funk no Brasil. Do encontro, saiu com um equipamento moderno de discotecagem, dado de presente pelo ídolo, além da promessa de um curso de produção e mentoria.

Desde que foi preso, buscou conforto na sua fé. Léo foi criado na igreja evangélica, mas estava afastado nos últimos anos (seu José Benjamin, pai de Léo, também é pastor na Assembleia de Deus). Com tudo o que passou, diz que sentiu o conforto de Deus no tempo que esteve na cadeia. “Mesmo ali, naquela situação, eu sentia uma paz que não tem explicação”, conta ele, apoiado pela sua inocência. O jovem ainda não sabe como vai retomar a carreira. Pensa em, quem sabe, atuar na música gospel, embora ache o caminho no gênero muito difícil para sua profissão.

“Trabalhar como DJ não tem preço. Você vê as pessoas se alegrando com as músicas que você toca, batendo palma, pulando, cantando… É incrível. É como se você ajudasse alguém a ser feliz".

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