Lester Bangs: o herói da música por trás das máquinas de escrever
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Lester Bangs: o herói da música por trás das máquinas de escrever

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A maioria absoluta dos que fizeram a história do rock empunhavam para tal um instrumento, diante de um microfone, tocando e cantando para uma plateia ávida de corações em fúria. Há, no entanto, uma rara e igualmente importante exceção – um herói que ajudou a moldar a música jovem da segunda metade do século XX não com uma guitarra, mas sim com uma máquina de escrever. Nunca houve um crítico de música, e especialmente de rock, como o americano Lester Bangs. Emergido do interior da Califórnia no final dos anos 1960, foi Bangs quem elevou a crítica de rock de algo ingênuo e raso a uma forma de arte. Uma arte voraz, intensa e profunda, que ajudou a solidificar a mitologia ao redor da ideia de quem um disco de rock era algo que “importava”, que podia formar ou mesmo salvar uma vida. 

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Junto da devoção que nutria pelo espírito do gênero, Lester Bangs era, acima de tudo, um grande escritor, ao ponto que não seria exagero afirmar que foi ele quem fundou o que pode ser visto como uma espécie de “literatura de rock”. Tratam-se de textos profundos, como ensaios acadêmicos ou crônicas literárias, plenos em estilo que elevavam a música pop, os artistas e os discos lançados a épicos mitológicos, sem jamais abrir mão do humor e do cinismo como veículos do charme e da inteligência de sua pena. Greil Marcus, outro papa da “literatura de rock”, resume: para ele, Bangs foi simplesmente “o maior escritor norte-americano”. 

Ligado estilisticamente ao jornalismo gonzo, ao novo jornalismo e à literatura beat, é justo colocá-lo na linhagem de gigantes da cultura americana, como Jack Kerouac, Hunter S. Thompson, David Foster Wallace e Tom Wolfe. Colaborando com revistas como "Creem", "Rolling Stone", "Village Voice" e "Playboy", transformou o rock em matéria-prima de resenhas e reflexões densas – como um filtro para olhar a própria realidade do país ou de uma época. Lester Bangs ajudou a forjar verdadeiras comunidades entre jovens, principalmente na década de 1970, sob o espírito de rebeldia e comunhão que o rock oferecia como alternativa ao establishment conservador e excludente. 

“Rock n’ roll é uma atitude. Não é um estilo musical no estrito senso. É um jeito de fazer as coisas, de ver as coisas. Escrever pode ser rock n’ roll, ou um filme pode ser rock n’ roll. É uma maneira de viver a vida”, escreveu. Na mesma medida, no entanto, em que via no rock um “modelo para uma sociedade melhor”, Bangs, em nome dessa justa devoção, tinha a coragem (e o talento) para desafiar os maiores nomes do estilo – inclusive aqueles que mais amava. “Eles não seria heróis se fossem infalíveis, na verdade não seriam heróis se não fossem uns cães sarnentos miseráveis, os párias da terra, e mais, a única razão para se construir um ídolo é joga-lo por terra novamente”, escreveu. 

Sobre Lou Reed, Bangs vaticinou: “Acima de tudo, ele é um mentiroso, um talento desperdiçado, um artista em fluxo contínuo e um mascate vendendo quilos de sua própria carne”. Não se trata, no entanto, de uma crítica destrutiva ou de um mero gesto beligerante, mas sim de uma declaração de amor: nenhum texto de Bangs se resume a uma aprovação ou um ataque, indo sempre aos paradoxos da paixão em nome do espírito livre que não pode se perder jamais.  

Quando Elvis Presley morreu, em 1977, Bangs nos lembrou que o cantor foi “o homem que trouxe o ruidoso e escancarado frenesi sexual vulgar às artes populares da América”. Ao mesmo tempo, o texto não esquece dos anos de escárnio pelos fãs nem dos tantos discos “porcaria” que Elvis lançou, para ao fim decretar, diante do rei morto: “nós não vamos nunca mais concordar com coisa alguma da maneira com que concordamos a respeito de Elvis. Assim, eu não me darei ao trabalho de dizer adeus ao corpo dele. Direi adeus a você”. 

Outro momento luminoso de sua literatura é o artigo “Pensando o impensável sobre John Lennon”, quando do assassinato do guitarrista dos Beatles em dezembro de 1980. Bangs faz questão, em nome de um tributo realmente honesto, de não aderir ao endeusamento instantâneo que se instalou diante de sua morte: “O que você acha que o John Lennon real – o cínico, indolente, sarcástico, convulsivamente perspicaz e iconoclasta – teria dito disso tudo?”, ele nos pergunta, para concluir, feroz, sobre tal esvaziado processo de “adestramento” de um artista em mito após sua morte: “Em última instância, você está de luto por si mesmo”.

Bangs morreu com somente 33 anos em Nova Iorque, em 1982, por uma overdose acidental. Cobri-lo de elogios, loas e adjetivos meros agora é também trair seu verdadeiro espírito, que sempre decretou que “o primeiro erro da arte é supor se tratar de algo sério”. E talvez o apreço pelos paradoxos seja um dos mais importantes legados de sua escrita: Bangs era um jornalista apaixonado, um herói único dessa tal literatura de rock, que merece ser celebrada e destruída no próximo parágrafo - como um gesto de admiração e amor.   

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