Líder do Porcas Borboletas também é professor de cursinho
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Líder do Porcas Borboletas também é professor de cursinho

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Imagine uma sexta-feira qualquer em um cursinho pré-vestibular. Os alunos geralmente não terão descanso nos estudos, mas os professores costumam aguardar ansiosamente o sábado e o domingo de folga - afinal, eles já passaram pela faculdade e não precisam de horas extras ao lado dos livros. Só que não é assim para todo mundo. O fim de semana de Danislau, professor de literatura, costuma incluir, por exemplo, horas ao lado de nomes como Elza Soares, Marcelo D2 e BaianaSystem. Ao lado mesmo, e não na plateia dos shows desses artistas. Sim, porque ele frequentemente divide o palco com essa turma.

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É que Danislau canta e toca guitarra no Porcas Borboletas, banda de Uberlândia já com longa estrada — eles têm quase 20 anos juntos. São quatro álbuns lançados, shows fora do Brasil, parcerias com o cantor Arnaldo Antunes e a escritora Clara Averbuck e por aí vai. O grupo é reconhecido no cenário independente brasileiro. Porém, há pouco mais de cinco anos, Danislau divide a vida de músico com a de professor de literatura em um cursinho da capital paulista.

Adoro estar na universidade. Tomar uns cafés e ouvir os malucos falando da literatura russa sempre me pareceu interessante. Virei professor, a princípio, porque gosto de falar. Depois, para estar perto da juventude

Para quem acha que ele optou por dar aulas porque a música não anda pagando bem, é bom avisar que a verdade é que ele nunca sonhou em ser músico. Seu lance sempre foi a vida acadêmica. “Adoro estar na universidade. Tomar uns cafés e ouvir os malucos falando da literatura russa sempre me pareceu interessante. Virei professor, a princípio, porque gosto de falar. Depois, para estar perto da juventude”, explica. Acontece que foi na própria faculdade em Uberlândia que ele descobriu que se divertia fazendo música também. E foi essa brincadeira que deu no Porcas Borboletas, antes batizado com um nome impublicável.

Enquanto a banda ganhava espaço por aí em palcos pelo mundo e até na televisão, ele seguiu firme nos estudos acadêmicos que renderam uma graduação em Letras, um mestrado em Teoria Literária e, logo logo, um doutorado na mesma área pela USP. Tudo isso combinado com um lado autor, que publicou livros e escreveu crônicas para o “Jornal Correio”, da sua terra natal. 

Sem sofrer pressão da família, que Danislau descreve como “uma compressa de camomila aplicada por uma fada nas montanhas nevadas da Cordilheira dos Andes”, a única pessoa que esquentou a cabeça com a vida profissional dele foi ele próprio. E sendo uma criança do interior de Minas nos anos 1980, ele conta que conhecia só três profissões: advogado, médico ou engenheiro. Distante da figura do professor ou do artista, o jovem Danislau era guiado apenas pelo medo terrível de trabalhar. “Acordava de noite com a cara suada gritando um ‘não’ de arrasar quarteirão, sonhando com a labuta”.

Hoje ele está contente com o caminho que vem trilhando, um caminho de equilíbrio. Mesmo que o estrelato (e os caminhões de dinheiro) não tenha chegado para a banda, Danislau entende que a rotina pesada de shows e divulgação necessária para os grandes artistas não era um estilo de vida compatível com suas ambições. 

O palco faz bem, mas as aulas são um respiro para o corpo e alma. Cavar oportunidades, batalhar o cachê, isso é tarefa para os fortes. Curto ter um emprego formal, contar com horários e salário já definidos, preparar minhas palestras. Oswald de Andrade aqui, Guimarães Rosa ali, andar com esses bruxos ao meu lado me tranquiliza o espírito

“O palco faz bem, mas as aulas são um respiro para o corpo e alma. Cavar oportunidades, batalhar o cachê, isso é tarefa para os fortes. Curto ter um emprego formal, contar com horários e salário já definidos, preparar minhas palestras. Oswald de Andrade aqui, Guimarães Rosa ali, andar com esses bruxos ao meu lado me tranquiliza o espírito. Então esse equilíbrio, para mim, está ótimo”, conta ele. E a mudança para São Paulo foi um acerto em busca dessa rotina. “Dou aulas quatro dias por semana. Saio delas melhor do que entrei, sempre. Espero que com meus alunos seja assim também. Faço uma média de dois shows por mês e seguimos firmes e fortes”. 

Analisando em retrospecto, em uma planilha que nunca será feita, Danislau sabe que teve mais gastos que lucros com a arte nesse tempo todo. O que planilha nenhuma dá conta de demonstrar é que ele também está certo de que cada centavo valeu nesse investimento. Já os boletos, que também não entendem essa subjetividade, foram resolvidos com as aulas. “É maravilhoso, passo duas horas com os meus alunos e alunas conversando sobre o Machado de Assis. Ao final do mês, recebo uma grana que me empolga, que me permite viver com dignidade, gravar uns discos, comprar corda pro violão, transar um figurino maroto pros shows da banda”. 

Além do equilíbrio espiritual e financeiro, a prova final que Danislau tira é de que música e literatura são artes que caminham juntas, e ele aproveita o privilégio de estar perto das duas. “Nos dois casos, a palavra está presente. Quanto mais próximo um show for de uma aula, melhor. Você vai ver um Arrigo Barnabé, um Tom Zé, um Chico, um Caetano, aquilo é uma aula da mais alta literatura.  Da mesma maneira, trabalho para que as aulas tenham a vivacidade de um show”. Os alunos, com certeza, agradecem. 

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