Lionel Richie lembra choro com Mandela e interrupção na carreira para cuidar do pai doente: 'Salvou a minha vida'
Entretenimento

Lionel Richie lembra choro com Mandela e interrupção na carreira para cuidar do pai doente: 'Salvou a minha vida'

Lionel Richie não se incomoda com seus 70 anos, completados em 2019. “Eu não penso nunca sobre idade ou envelhecer”, ele conta, em entrevista à “Rolling Stone”. Há oito anos sem lançar um novo álbum, o compositor, ao lado de Michael Jackson, de We Are The World”, é um dos jurados do reality “American Idol”. Da sua casa em Los Angeles, Lionel Richie lembrou de ter a consciência racial despertada ao saber da morte de uma amiga de infância em um atentado da Ku Klux Klan em 1963. A partir daí, definiu sua atuação: “Eu posso me dirigir ao mundo com braços abertos no lugar de punhos fechados.” Lionel Richie ambém contou sobre seu famoso encontro com Nelson Mandela (1919-2013), quando o líder sul-africano o agradeceu por ter feito canções que o ajudaram a sobreviver na prisão.

Lionel Richie estaria em turnê pela Europa se não fosse o coronavírus. Apesar do adiamento dos shows, esperar não é um problema para o artista que ainda se vê em seus melhores dias. “Me perguntaram quando eu planejo me aposentar. E eu disse: 'De quê?'. Eu nunca tive emprego. Gente que trabalha é que se aposenta. Eu ainda sou o garoto de 19 anos andando com os Commodores (grupo em que iniciou a carreira) pela rua. Devo admitir que as viagens ficaram bem melhores. Mas a diversão e a aventura ainda são iguais.”

Michael Jackson e Lionel Richie com o Grammy recebido por 'We Are The World', em 1986 / Foto: Getty Images
Michael Jackson e Lionel Richie com o Grammy recebido por 'We Are The World', em 1986 / Foto: Getty Images

A infância em família no Alabama

“Meu pai e minha mãe foram meus maiores heróis”, diz Lionel. “Eu os tive como minha base para tudo”, conta. O cantor reflete sobre como foi ter sido criado em um estado segregacionista, o Alabama, na década de 1950. “Tudo parecia muito normal para mim. Mas, na medida em que fui crescendo, percebi que as forças ao redor dos meus pais não eram de forma alguma suaves. Com a segregação sendo algo que estava tão presente no dia a dia, eu não entendia por que meus pais não compartilhavam suas aflições comigo”, diz. Com o amadurecimento, ele começou a questionar os pais sobre o porquê de ter sido deixado de lado de conversas necessárias. “Eles me responderam dizendo que não queriam embaçar meus olhos sobre o que eu poderia fazer. Eles nunca me falaram sobre as limitações (que ele poderia ter).”

O hiato para cuidar do pai

Em 1987, vivendo um momento de imenso sucesso, Lionel Richie decidiu ficar cinco anos afastado de sua carreira para cuidar do pai. Ele diz que não saber que esse hiato aconteceria provavelmente salvou sua vida. “Eu não planejei parar ou diminuir o ritmo. Você recebe uma ligação do seu pai e ele diz que não está bem, que está indo ao médico e quer que você vá junto. E, quando você vai, você descobre que não é algo bom”, lembra.

Naquela época, conta Lionel, a única coisa que fazia a indústria funcionar era lançar álbuns e sair em turnê pelo mundo. “O foguete estava voando na velocidade mais rápida que poderia. Eu sabia que, se eu lançasse mais um disco, não teria tempo para ficar com meu pai. Foi quando decidi parar”, conta.

Então, três acontecimentos mudaram a vida de Lionel Richie: seu pai morreu em 1990; ele se separou de sua primeira mulher, Brenda Harvey, e teve que passar por uma cirurgia nas cordas vocais (a primeira de várias, momento em que sua capacidade de voltar a cantar com excelência esteve ameaçada). "Eles dizem que você não consegue atingir um alvo em movimento. Mas se você para, eles sabem exatamente onde mirar. Tudo me acertou ao mesmo tempo, mas eu tive a oportunidade de organizar meus pensamentos sobre como eu estava levando aquilo tudo. E há pessoas que continuam com seus foguetes à tona e não conseguem se sair bem. As pessoas diziam que eu deveria lançar mais 20 músicas. Talvez, mas o fato de que eu parei por um minuto para entender em que ponto da vida eu estava provavelmente me salvou. Quando você percebe que está voando tão rápido, você se assusta."

A primeira memória sobre racismo

Na entrevista, Lionel conta sobre a primeira vez em que sentiu o racismo com toda a crueldade inerente do preconceito: quando perdeu sua amiga Cynthia Dionne Wesley. “Nós éramos um grupo de crianças em que cada um havia chegado de uma cidade e ela era uma das meninas mais novas. Eu me perguntei por que eu nunca mais a havia visto e meus pais disseram que ela tinha se mudado”, ele explica. Mas a verdade não era tão simples.

“Ela foi uma das pessoas mortas no atentado à igreja batista da Rua 16, em Birmingham, em 1963”, revela o cantor sobre as bombas plantadas por membros da Ku Klux Klan que tiraram a vida de quatro adolescentes no Alabama. “É claro que meus pais não me disseram. Eu descobri sobre isso mais tarde. A partir daí eu me tornei um agente da transformação e tive que entender como fazer isso. Foi quando eu percebi que o amor seria a mensagem. Eu posso me dirigir ao mundo com braços abertos no lugar de punhos fechados.”

Conversas com Nelson Mandela

O líder sul-africano Nelson Mandela e Lionel Richie se conheceram quando Mandela deixou a prisão, em 1990. “Eu fiquei muito impressionado com o fato de ele abraçar o amor e não o ódio. Eu pensei que ele iria sair da prisão cheio de raiva, mas, em vez disso, ele se colocou como mensageiro (do amor) e tentou unir as pessoas, não separá-las.”

“Na primeira vez que eu o encontrei, ele veio até mim e disse: ‘Meu jovem, eu gostaria de te agradecer por suas letras e músicas. Elas me ajudaram muito durante os meus anos na prisão.’ Eu comecei a chorar instantaneamente”, conta.

“Você não tem o que dizer nessas horas. Eu não conseguia parar de chorar. Mas repito: sair da prisão com essa mentalidade e ser capaz de ser emissário da mensagem que ele pregava era simplesmente incrível. Isso me deixou extremamente mexido que ele estivesse tão presente e não despedaçado.”

Lionel Richie e Tina Turner se apresentam juntos, em 1985 / Foto: Getty Images
Lionel Richie e Tina Turner se apresentam juntos, em 1985 / Foto: Getty Images

Como é se apresentar após 50 anos de carreira

Mesmo com tantos trabalhos, prêmios e anos de estrada, Lionel Richie revela que sempre há aquela vozinha na cabeça que questiona se seus feitos realmente foram isso tudo. “Minha definição sobre artistas é que nós somos maníacos egoístas com complexo de inferioridade. Se você disser a qualquer artista que ele arrasou, vai sempre haver aquela vozinha dentro dele que vai se perguntar: ‘Será mesmo? Acho que não.’”

Apesar disso, Lionel diz que artistas têm que manter uma certa pose para não desmotivar aqueles ao redor. “Você não pode chegar para a sua tropa e dizer que está com medo. Isso não é o que eles querem ouvir. E é nessa hora que você tem que tomar um passo à frente.”

Carreira, fama e sucesso

“Todos querem ser cantores. Todos querem fama. Todos querem dinheiro. E o que acontece depois? Você vence. Essa é a notícia boa. A notícia ruim é que dinheiro, poder e fama apenas te engrandecem. Eles não te mudam. Se você for um pouco bandido, você vai ser um grande bandido. Se você for um pouco idiota, vai se tornar um grande idiota. Se você for um cara legal, vai se tornar um grande cara legal. Todos pensam que isso tudo muda quem você é, mas o pior de tudo é que (dinheiro, fama, sucesso) apenas vão fazer você descobrir quem você é. E muita gente descobre quem realmente é e não aguenta isso."

Relacionados

Canais Especiais

Ícone do FacebookÍcone do TwitterÍcone do InstagramÍcone do YoutubeÍcone do DeezerÍcone do SpotifyÍcone do Pinterest