Little Simz rejeita ser ‘voz da geração’, mas é consciente da ancestralidade iorubá e conexões: ‘Minha mãe está convencida de que é brasileira’
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Little Simz rejeita ser ‘voz da geração’, mas é consciente da ancestralidade iorubá e conexões: ‘Minha mãe está convencida de que é brasileira’

Por Rafael Oliver

Você já ouviu falar da Little Simz? Se não, você provavelmente vai ouvir em breve. Ela é uma das rappers do momento no cenário britânico. Filha de nigerianos, Simbiatu Abisola Abiola Ajikawo, ou Simbi, como é conhecida pelos amigos, nasceu em Londres, na Inglaterra. Começou na música aos 15 anos com alguns EPs. Hoje, aos 25, já gravou três álbuns independentes: todos eles com números impressionantes de reprodução nas plataformas de streaming musical. O último, "Grey Area", lançado em 2019, foi considerado um dos discos do ano pela crítica inglesa, chegando ao primeiro lugar na parada hip-hop britânica.

O sucesso é tanto que Simz já despertou a atenção de ninguém menos que Kendrick Lamar, que afirma que a rapper é melhor surpresa musical dos últimos tempos. Sem falar em Snoop Dogg, que incluiu suas faixas na playlist Underground Heat. Em 2017, a cantora ainda abriu a turnê do Gorillaz, com quem gravou "Garage Palace", além participar de apresentações com a estrela Lauryn Hill.

Little Simz está no Brasil pela segunda vez/ Foto: divulgação
Little Simz está no Brasil pela segunda vez/ Foto: divulgação

Sem microfone na mão, Little Simz trabalha outros dons. Atriz, já teve papéis de destaque em duas produções da BBC, além de participar do remake da série “Top Boy”, da Netflix, produzida pelo cantor Drake. Também é fotógrafa. Pegou gosto pela arte durante o tempo na estrada e tem se dedicado cada vez mais, explorando o preto e branco. Ela própria clicou a imagem da capa do seu último álbum.

No dia 15 de novembro (sexta-feira), Little Simz vai estrear nos palcos brasileiros com um show no Popload Festival, em São Paulo. E o Reverb aproveitou a oportunidade para encontrar com a cantora e bater um papo nos escritórios da For Music, na Vila Madalena.

Muita gente aqui no Brasil adora você e sua música. Você percebe isso nas redes sociais? Como se sente em relação ao carinho dos fãs brasileiros?

Toda vez que eu postava uma foto minha cantando no palco em algum lugar do mundo, sempre via pessoas falando "venha pro Brasil!", "quando você vem pro Brasil?". No começo eu não considerei, porque geograficamente é tão longe de onde eu estou… Não que não tenha prestado atenção, mas só pensei: "Ah, é tão longe". Mas com o passar dos anos eu vi o amor e o apoio das pessoas daqui crescer muito, então decidi vir pra cá. Eu fui ao Brasil no ano passado com o Gorillaz, mas voltar aqui pra fazer minhas coisas é muito legal.

Aqui no Brasil estamos no Mês da Consciência Negra. Além disso, dia 20 de novembro celebramos o Dia Nacional da Consciência Negra. Você sabia disso? O que você pensa sobre essa data, tanto a celebrada aqui como em seu país?

Acho que deveria ser celebrado a todo momento. É o mesmo como o Black History Month, que temos no Reino Unido, que deveria ser celebrado sempre, entende? Minha linha hereditária é nigeriana, eu cresci muito conectada com fortíssimas raízes na minha cultura africana. Minha mãe falava comigo na sua língua nativa, eu cresci sabendo usá-la para me comunicar. Fui à Nigéria quando era criança. Então a cultura sempre esteve comigo ou em mim. Sobre a consciência negra, eu acho que é algo que deveria ser reconhecido em todos os lugares do mundo.

Você tem ascendência de origem iorubá, um dos maiores grupos étnico-linguísticos da África Ocidental. Devido ao tráfico de escravos, traços da cultura, língua, música e costumes foram disseminados para várias regiões do mundo, inclusive o Brasil. Boa parte da população negra do nosso país veio de terras iorubás. Como vê isso?

É, eu sei disso! Sei que muita gente veio para cá. Inclusive, minha mãe está convencida de que ela é brasileira (risos). Eu disse que estava vindo para cá e então ela falou: "Você está indo para o meu país?". E eu "Mãe, você não é brasileira!" (risos).

Você acha que representa muita gente? Acha que pode inspirar as pessoas através do seu trabalho?

É importante se sentir no poder de representar e ter algo no que elas possam se inspirar, mas não estou tentando ser a voz disso. Eu acabo sendo por conta do que faço. Não quero ditar nada para ninguém, pois cada uma tem que ter sua própria experiência e jornada, mas espero que minha música seja uma trilha sonora para essa jornada individual de cada um. E se não for, tudo bem também, apenas aproveitem minha música. As pessoas dizem que sou uma rapper consciente, mas não quero ser colocada apenas nessa caixa... Se você quiser apenas ouvir a música e curtir, está tudo bem. Não precisa ser sempre uma experiência profunda.

Você acredita que hoje, com toda sua fama, as pessoas te tratam melhor se comparado há alguns anos? Há algum privilégio?

Eu raramente presto atenção nisso. Posso dizer que as pessoas que fazem parte da minha vida pessoal sempre me tratam da mesma maneira. E eu ainda trato todo mundo do mesmo jeito. Eu sei que não estou no mesmo lugar em que eu estava há dois anos. Mas, sei lá, ainda sinto o mesmo…

Sobre o remake da série "Top Boy", da Netflix, que retrata a vida de jovens moradores da periferia de Londres. Como foi participar desse trabalho? O que você pode nos contar sobre a séria?

Esse é meu primeiro grande papel como atriz. Eu já atuei no passado, sempre gostei. Eu era atriz antes de entrar na música. Acontece que uma coisa acabou rolando antes da outra.

Mas “Top Boy” é incrível, eu cresci assistindo. Muito autêntico, fala sobre coisas que estão acontecendo em Londres agora, como cultura de gangues, imigração, gentrificação, religião... São tantos temas que tornam o programa incrível! Mesmo se você não cresceu em Londres vai conseguir se identificar. E adoro como ele reverbera musicalmente, já que possui tantos músicos no elenco, que são também ótimos atores.

O que você espera do Popload Festival? Está ansiosa para subir no palco e cantar para os brasileiros?

Não tenho expectativas. Só quero me divertir. Antes de chegar aqui, nos últimos dois meses, vi que os fãs estavam bem ativos nas redes sociais, demonstrando bastante amor. Eles tuitam ou postam no Instagram quando tem um vídeo novo. Eu acho que isso é muito legal, você não recebe tanta atenção e amor em um line up de festival, isso é muito legal. Parece que eles estão bastante empolgados. E parece que passou muito rápido, lembro de quando me falaram que eu ia participar, parecia que ia demorar tanto, mas agora estamos aqui, passou muito rápido!

POPLOAD FESTIVAL 2019

Atrações: Patti Smith, The Raconteurs, Hot Chip, Tove Lo, Cansei de Ser Sexy, Little Simz, Khruangbin, Boy Pablo, Luedji Luna e o bloco Ilê Aiyê

Data: 15 de novembro

Local: Memorial da América Latina (Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664 - Barra Funda, São Paulo)

Horários: Abertura dos portões às 10h; início dos shows às 10h45

Ingressos: pista R$ 580 (inteira), pista premium R$ 800 (inteira)

Vendas: www.ticketload.com e bilheteria do Unimed Hall

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