Lizzo, campeã de indicações ao Grammy deste ano, se afirma como estrela pop depois de trajetória difícil
Entretenimento

Lizzo, campeã de indicações ao Grammy deste ano, se afirma como estrela pop depois de trajetória difícil

"Uso a dor de maneira construtiva. É inevitável: a dor é uma experiência humana". Quando Lizzo diz isso, é porque já passou por experiências terríveis de bullying e baixa auto-estima ao longo de seus 31 anos de vida. Com muito talento e determinação, a cantora hoje lota estádios e mostra a que veio: ela é recordista a indicações no Grammy 2020 com oito categorias, entre elas, álbum, gravação e canção do ano e artista revelação 2020.

Lizzo, nascida Melissa Viviane Jefferson, é negra e plus size. Tem 31 anos e 1,78 m de altura e já passou por muita coisa até se tornar uma cantora reconhecida, eleita a Artista do Ano pela revista "Time" em 2019. Um ano surreal, gratificante e meio cansativo. Mesmo para os padrões de quem está acostumada a fazer shows de tirar o fôlego da plateia, correndo, pulando e dançando de ponta a ponta no palco.

Lizzo: artista do ano da revista Time em 2019 e indicada a oito categorias do Grammy. Foto: Getty Images
Lizzo: artista do ano da revista Time em 2019 e indicada a oito categorias do Grammy. Foto: Getty Images

Ela se tornou um novo tipo de superstar num espaço pop dominado em grande parte por brancos e magros. Sua história é tão marcante e radical quanto seu estrelato: anos de insegurança e luta, seguidos por uma subida pouco ortodoxa, mas rápida, iniciada por “Truth Hurts”, uma música de fez há dois anos que nem faz parte do novo álbum, "Cuz I Love You".

Em abril passado, ela lançou seu primeiro disco, "Cuz I Love You", que começou a escrever um ano antes, inspirada por uma desilusão amorosa. Uma época em que uma agenda cada vez mais exigente e a distância de amigos e entes queridos a levou a um colapso emocional enquanto estava em turnê. Diante daquela situação extrema, Lizzo decidiu fazer terapia. "Isso foi realmente assustador. Mas estar vulnerável com alguém que eu não conhecia, e aprender a ser vulnerável com pessoas que eu conheço me deu a coragem de ser vulnerável como vocalista", contou ela à "Rolling Stone".

"Cuz I Love You" tem seus momentos de desgosto e auto-reflexão, mas, em última análise, é uma celebração: "Lizzo quer que você — sim, você! — ame a si mesmo como Lizzo aprendeu a amar Lizzo". Ela fez o tipo de música que as pessoas querem ouvir no final de um dia difícil, músicas que querem que você se sinta bonita, bem-sucedida, reservada e ocupada, porque Lizzo sente realmente todas essas coisas.

Agora, todas as atenções parecem estar voltadas para ela, incluindo a de alguns de seus ídolos. Rihanna aplaudiu de pé o solo de flauta de Lizzo durante uma apresentação do BET Awards. Beyoncé pulou ao lado do palco durante seu set do Made in America Festival. Em dezembro, Lizzo fez sua estreia no Saturday Night Live, como convidada musical em um episódio apresentado por Eddie Murphy, que fez questão de falar que seus filhos são grandes fãs de Lizzo.

Ao lado de grandes oportunidades surgem, claro, situações desagradáveis. Lizzo foi criticada por uma resposta ríspida no Twitter diante de uma crítica que recebeu do Pitchfork. Ela disse: “As pessoas que criticam álbuns e não fazem música devem ficar desempregadas.” Meses depois, mais tweets desagradáveis a levaram a um processo por difamação.

Parece que ser uma mulher negra fazendo algo bastante lucrativo dentro da música pop provoca insultos, que tendem a ser duros e pessoais. Ela foi chamada de brega e muitos sugeriram que sua música é uma imitação diluída de pop mais autêntico. O insulto mais doloroso, no entanto, é que ela faria música para brancos, que apenas diverte uma plateia de feministas brancas. "Sim, há pessoas brancas nos meus shows. O que eu vou fazer, afastá-las? Minha música é para todos", avisa ela, que começou cantando em corais de igrejas em Detroit.

Ironicamente, ver a maioria das mulheres negras na plateia enquanto fazia shows ao lado da cantora SZA em 2015 foi uma grande inspiração para as músicas que finalmente estão subindo nas paradas, como “Coconut Oil". “Como mulher negra, faço música para as pessoas a partir de uma experiência que é de uma mulher negra. Estou fazendo músicas que, com sorte, fazem as pessoas se sentirem bem e também me ajudam a descobrir o amor próprio. Mas há mensagens diretas para mulheres negras, mulheres negras grandes, mulheres negras trans", diz Lizzo.

Para evitar mais problemas, Lizzo diz estar aprendendo a se controlar, optando por viver no "mundo real", off-line, e não respondendo aos inimigos. "Foi o fim de uma era para mim. Eu estava errada. Sou grande o suficiente para admitir essa merda", diz ela sobre sua conta no Twitter. No começo de janeiro, ela decidiu sair da social media, pelo menos por um tempo, por causa dos trolls e da“ negatividade” em geral.

Em 31 de dezembro de 2018, Lizzo decidiu que não precisava tomar nenhuma resolução para 2019: ela havia conseguido tudo o que queria. Ela estava gravando músicas que amava e seus shows estavam esgotados. “Lucrei um milhão de dólares em minha turnê. Consegui colocar meus amigos na minha folha de pagamento ”, diz ela.

Lizzo sempre imaginou que escreveria um grande hit pop. A melhor amiga e parceira de longa data, Sophia Eris, se lembra da rapidez com que Lizzo escreveria músicas para o trio de pop-rap The Chalice, que elas formaram inspiradas no Destiny's Child em 2011 em Minneapolis. O grupo se tornou celebridade local e acabou chegando aos ouvidos de ninguém menos que Prince. Em 2014, elas apareceram em "Plectrumelectrum", 36º álbum de Prince, cantando em "Boytrouble". Prince as convidou para se apresentar no Paisley Park. Antes de morrer, ele se ofereceu para produzir um álbum para Lizzo. Para Lizzo, esse tipo de respeito mudou a vida. “Eu costumava ficar tão chateada, pensando: 'Sou muito estranha para os rappers e negra demais para as indies'. Sou eternamente grata por ter sido abraçada por Prince", diz a cantora.

Depois que Lizzo assinou contrato com a Atlantic em 2015, Sophia viu sua amiga se dar conta de seu próprio poder criativo. "Ela disse: 'Tenho certeza de que sei como fazer sucesso cientificamente'", diz Sophia. “Ela tem o cérebro de um químico. Ela conhece a equação. Lizzo poderia escrever um sucesso enquanto dormia", confirma.

Seu EP de 2016, "Coconut Oil", estava cheio de expectativa, mas não deu certo. "Houve um sentimento de frustração ainda que soubéssemos o quão incrível ela era e seu potencial", diz Brandon Davis, executivo da Atlantic.

Em 2017, ela soltou “Truth Hurts”. Meio rap, meio canção, foi ao mesmo tempo um beijo de separação e um hino de empoderamento, equilibrando humor atrevido, um toque de dor e muita confiança. "Foi a primeira música que foi recebida com 'Oh, essa é uma música legal. Eu estava orgulhosa", conta Lizzo.

"Truth Hurts" foi engenhosa, cativante e um fracasso total. Quando pareceu que ia sumir, Lizzo se perguntou se deveria desaparecer também. Ela considerou abandonar a música completamente, mas sua equipe a convenceu a continuar, inclusive com "Truth Hurts" sendo a peça central de seus shows.

Em 20 de outubro de 2018, Lizzo postou um vídeo de um show em Iowa City no Instagram. Ela tocava flauta enquanto fazia um cover de “Big Shot” de Kendrick Lamar. Em menos de 30 segundos, seu #FluteAndShootChallenge se tornou um fenômeno e acabou se tornou sua própria máquina geradora de memes.

"Cuz I Love You" foi bem recebido pelos críticos e acumulou excelentes números de streaming. Então, algo estranho aconteceu. "Someone Great", filme estrelado por Gina Rodriguez e Lakeith Stanfield, estreou no Netflix no mesmo dia do lançamento do álbum de Lizzo. A comédia trazia "Truth Hurts" na trilha de uma cena memorável da personagem de Gina. “Sempre foi minha intenção, neste momento, fazer algo independente, como um videoclipe”, diz a diretora e roteirista Jennifer Kaytin Robinson, que ouviu Lizzo pela primeira vez em 2016.

O filme mudou tudo. “Ao acordar na manhã seguinte, sentimos que as coisas eram diferentes”, lembra Davis. "Truth Hurts" começou a subir nas paradas de Shazam e iTunes, à medida que avançava nas redes sociais. Ouvintes mais jovens estavam descobrindo a música simultaneamente através de memes no TikTok. De repente, a música de dois anos atrás, que nem sequer estava em seu novo álbum, tornou-se um sucesso, liderando o Top 100 da Rolling Stone.

Os compositores Justin e Jeremiah Raisen a acusaram de plagiar a abertura de "Truth Hurts" de uma demo em que eles trabalharam juntos. Lizzo dia que o verso foi inspirado em um meme do Instagram, originário de uma publicação da cantora Mina Lioness. Lizzo respondeu com um processo alegando assédio e oferecendo um crédito oficial a Mina. “O criador do tweet é a pessoa com quem estou compartilhando meu sucesso. Não são esses homens ”, escreveu em um comunicado.

Lizzo é diplomática sobre sua estranha trajetória de carreira, onde ninguém seria capaz de imaginar que vários singles antigos de repente vêm à tona logo depois do lançamento de um álbum cheio de material novo. "Agora temos a prova de que essas músicas são eternas. Eles se conectarão quando precisarem se conectar”, diz.

Lizzo: 'Tenho uma carreira inteira, não é uma tendência". Foto: Getty Images
Lizzo: 'Tenho uma carreira inteira, não é uma tendência". Foto: Getty Images

Em um mundo em que nos disseram para acreditar que os traços um pouco mais curvilíneos que os da média de figuras esbeltas como Jennifer Lopez, Beyoncé ou Kim Kardashian são de alguma forma fora do padrão, uma performance de Lizzo parece radical.

"É uma completa mudança de vida", diz a estilista e influenciadora plus size Gabi Gregg, dando crédito a Beth Ditto e Missy Elliott por ajudarem a pavimentar esse caminho. “Quando você vê Lizzo, é tão impactante e quase traz lágrimas aos seus olhos porque você pensa: 'Eu sabia que era isso que estava faltando na minha vida, mas não fazia ideia do quanto isso significaria realmente ao vê-la", emociona-se. Gabi se tornou fã de Lizzo quando a estrela pop lançou o vídeo de "My Skin", de 2015, uma balada crua sobre aprender a se amar, que apresentava uma aparência mais natural do que seu glamour usual. "Eu escrevi 'My Skin' aos 26 anos, então já havia chegado a um lugar em que estou me confrontando e estou feliz com isso", explica Lizzo.

O final da adolescência e os vinte e poucos anos foram prejudicados pela baixa auto-estima, agravada um amante tóxico que queria ter uma namorada magra. "My Skin" reflete anos de trabalho que ela havia feito para desaprender as maneiras pelas quais a sociedade havia lhe dito para se odiar. "Eu cheguei a um acordo com a dismorfia corporal e evoluí", diz ela.

Logo após "My Skin", a equipe de Lizzo procurou Gabi para uma consultoria de moda. A cantora estava começando a mudar seu visual flanela e botas e a estilista a ajudou a encontrar marcas que atendessem a corpos de tamanho grande."

Há mudanças, mas o progresso nem sempre é tão rápido. Em dezembro, o corpo de Lizzo se tornou motivo de críticas quando ela se atreveu a ir a um jogo do Lakers com um vestido que deixava à mostra seu bumbum — a cantora usava apenas um fio dental. Os torcedores a acusaram de violar o evento “familiar” e compararam seu corpo com o de um lutador profissional. Lizzo parece um pouco exausta ao falar sobre seu corpo, o que é justo. Ela quer ser celebrada por sua música — e não vista como "corajosa" por fazê-lo. "Eu sou muito mais que isso. Tenho uma carreira inteira, não é uma tendência”, diz ela.

Relacionados

Canais Especiais

Ícone do FacebookÍcone do TwitterÍcone do InstagramÍcone do YoutubeÍcone do DeezerÍcone do SpotifyÍcone do Pinterest