'London Calling': 40 anos depois do lançamento do clássico do Clash, decano da crítica americana revisita sua resenha da época
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'London Calling': 40 anos depois do lançamento do clássico do Clash, decano da crítica americana revisita sua resenha da época

Há 40 anos, o apresentador Noah Adams, do programa da rede americana National Public Radio "All Things Considered", anunciava o lançamento de um álbum: "Novas músicas de um grupo considerado por alguns críticos como a melhor banda de rock and roll do mundo: o nome da banda é The Clash, o disco é 'London Calling'". O crítico musical Greil Marcus, 74 anos, que participou daquela transmissão de 1980 dando sua opinião sobre o trabalho — elogiado na época enfaticamente pela revista americana "Rolling Stone" e pelo jornal inglês "The Guardian" também — foi convidado pela emissora para dizer se hoje ainda concorda com sua análise original do disco.

"London Calling" destacou-se no punk rock de sua época: era político, inteligente e multifacetadíssimo nas 19 músicas do disco duplo de vinil. "Áspero. Engraçado. Expansivo." Foi assim que o crítico Greil Marcus , que depois se notabilizaria como autor de "Mystery Train" (lançado em 1975), um dos mais importantes livros de ensaios sobre o rock, dando a importância devida ao gênero dentro do cânone cultural americano, descreveu o álbum no programa em 1980, quando foi lançado nos EUA, meses depois de sair na Inglaterra. Ele disse que "London Calling" tinha "muitos estilos diferentes mas é sempre instantaneamente reconhecível como The Clash. Há uma sensação maravilhosa de que a vida é uma luta, e que a luta se justifica; que somente quando você tem esse senso de luta é que você está em contato com humor, prazer, dor, sofrimento, raiva, seja o que for", definiu o jornalista.

Depois de quatro décadas, Marcus revisitou sua crítica original, dizendo logo que não mudaria nada. "O Clash, desde o início, se apresentou como uma banda revolucionária. Tomando provocações, insultos ou humilhações para fazer declarações sobre eles através de suas músicas, como um estímulo ao desafio, a banda criou músicas que fizeram com que as pessoas se sentissem mais poderosas, como se estivessem vivendo em um mundo maior, onde nada era trivial", diz. Marcus destaca a carga histórica do álbum, que não se desgasta com o passar do tempo. "Eles podiam olhar para trás e dizer: 'Eu fiz alguma coisa que não será esquecida; a prova está no vinil", afirma.

Quando ouviu o disco pela primeira vez no final de 1979, o crítico diz que seu sentimento era que se tratava de uma enorme provocação para o mundo. "Há uma frase maravilhosa no final da música título: 'And you know what they said? Well, some of it was true!' ('E sabe o que eles disseram? Bem, parte era verdade!'). E que dá a sensação de 'eu tenho lutado contra a paranoia a vida toda e agora não dá mais porque todas essas fantasias horríveis que tive e que ouvi dizer estão se tornando realidade", cita Marcus.

Para efeito de comparação, vale lembrar que, na época, o crítico Tom Carson, da "Rolling Stone", também soube reconhecer o clássico e se empolgou, em longo texto disponível no site da revista. "Alegre e resistente, apaixonado e de grande espírito, 'London Calling' celebra o romance da rebelião do rock & roll em termos grandiosos e épicos. Ele não apenas reafirma o próprio compromisso do Clash em fazer rock como revolução. É um registro que abrange todo o passado do rock & roll pelo som e explora profundamente a história, a política e o mito de suas imagens e temas. Tudo foi reunido em uma história única, vasta e emocionante - uma que, como dizem os Clash, parece não apenas a deles, mas a nossa", escreveu. O jornalista pareceu prever a importância que o disco teria para as próximas gerações: "É uma música para perdurar. É tão rica e abrangente que deixa você não apenas alegre, mas exaltado e triunfantemente vivo".

Como santo de casa não faz (tanto) milagre, em o jornal londrino "The Guardian" recebeu o terceiro álbum dos ingleses com menor euforia, em uma coluna genericamente intitulada "Rock Records", que falava de vários lançamentos. Ainda assim, o texto assinado por Robin Denselow não deixa de apontar os bons momentos do disco. "Os punks agora podem quase justificar sua pretensão de escrever 'canções folk modernas'. Eles atenuaram o frenesi punk, mas mantiveram a emoção e adicionaram uma nova leveza, além de flertar com as raízes do R&B e do reggae. E Joe Strummer agora pode realmente cantar, o que antes parecia tão provável quanto eu votar em partidos conservadores", escreveu Robin Denselow. O crítico disse que "London Calling" foi um grande avanço na carreira do Clash, sem esconder a implicância com a fase inicial da banda: "É uma grande melhoria ao se comparar com 'Give ‘Em Enough Rope', que eu odiava por sua pretensão, e com os shows deles no começo do ano passado, que eu odiava pelo amadorismo".

Entre as dezenas de covers que a música título ganhou através dos anos, uma que vale ser sempre ouvida é a de Bruce Springsteen. O cantor e compositor compartilhou um vídeo ao lado de sua The E Street Band em uma apresentação de 2009, no Hyde Park, em Londres.Curiosamente, na coluna do "Guardian" em que saiu a resenha original de "London Calling" em 9 de janeiro de 1980, o maior destaque é dado, nas últimas linhas, à participação de Bruce no álbum triplo ao vivo "No Nukes".

As trajetórias de Springsteen e The Clash falam sobre questões sócio-políticas e sempre foram muito bem recebidas pela classe trabalhadora, apontando uma afinidade natural entre os artistas. Strummer escreveu uma carta no final dos anos 90, falando sobre sua admiração por Bruce. The Boss já fez covers também de "Clampdown" e "I Fought The Law", do The Clash, e "Coma Girl", de Strummer. Em 2003, Springsteen se juntou a Elvis Costello e Dave Grohl no Grammy para tocar "London Calling" em homenagem a Strummer, pouco tempo depois de sua morte.

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