Lucio Yanel, mestre de Yamandu Costa, faz serenatas diárias para a esposa com Alzheimer e inspira ações solidárias
Inspiração

Lucio Yanel, mestre de Yamandu Costa, faz serenatas diárias para a esposa com Alzheimer e inspira ações solidárias

A publicação foi feita em janeiro, na conta do Facebook do violonista argentino Lucio Yanel, de 73 anos. E segue viralizando dez meses depois, a partir da emocionante imagem do músico tocando para sua mulher, Sueli de Fátima Teixeira, 62 anos. Todos os dias, Lucio, mestre de Yamandu Costa e considerado um divisor de águas na música do Rio Grande do Sul, pega seu violão e faz serenatas para a amada, que sofre com Alzheimer desde 2008.

"Já faz alguns anos que o maldito Alzheimer vai me roubando a minha amada companheira. E para que me sinta ao seu lado, minhas serenatas diárias. Tu é o meu melhor público", escreveu ele, que está radicado no Rio Grande do Sul desde 1982.

A postagem viralizou, chegando a ter 17 mil curtidas e 64 mil compartilhamentos apenas no Facebook. Lucio ficou surpreso. "Publiquei meio que sem querer, não imaginei que tantas pessoas fossem ver. Eu sempre vivia ocultando a situação da minha mulher, porque é muito melindroso para um artista fazer esse tipo de publicação. As pessoas podem pensar que é algo piegas", comentou, ao repórter Vinícius Lemos, em entrevista à "BBC Brasil". "Mas cansei de aparentar uma alegria. Estou sempre, digamos, fingindo uma alegria que não existe na minha atual fase da vida. Estou acompanhando minha esposa sofrer com o Alzheimer e não tenho muito o que fazer para evitar isso", lamentou.

Em 21 de outubro, o espetáculo "Gracias, Maestro" reuniu, no Teatro da Amrigs, em Porto Alegre, 35 artistas (entre eles, Elton Saldanha, Cristiano Quevedo, Joca Martins, Os Fagundes e Shana Müller), com renda destinada a Lucio Yanel, para ajudar a custear o tratamento de Sueli. E a onda de solidariedade segue com mais um show, no dia 11 (segunda-feira), em Caxias do Sul, no UCS Teatro, capitaneado pelo grupo Canteriando.

De acordo com a BBC Brasil, Sueli de Fátima, cozinheira, descobriu a doença aos 52 anos e, num período de sete anos, perdeu a mobilidade das pernas, não consegue mais falar e se alimentar sozinha. Passa seus dias numa cama. Lúcio e a mulher dividem a vida há um quarto de século e, desde que começaram a namorar, as serenatas são uma constante no relacionamento dos dois.

Hoje, ele cuida dela revezando-se com o filho, Pedro, enquanto se desdobra para trabalhar e dar continuidade a sua carreira.A foto do post foi tirada por Pedro, 25 anos. "Foi espontâneo. Dificilmente conseguimos transportar ela da cama. Naquele dia pedi ajuda para meu filho. 'Vamos levar ela para ver o lindo sol, um lindo dia. Quem sabe dá uma reação e acontece alguma coisa'". disse Lucio, em entrevista ao portal "G1".

Para descrever sua trajetória, valeria um trocadilho com o recente sucesso de bilheteria argentino "La Odisseia de Los Giles" ("A Odisseia dos Tontos", em cartaz no Brasil) com Ricardo Darín: é a odisseia de um Giles — no caso, Federico Nelson Giles, seu nome de batismo.

Autodidata e de alma nômade, ele já tinha morado no Brasil nos anos 1970, com passagens por Salvador e São Paulo — onde administrou um restaurante e, tentando atrair clientela como cantor de tangos, adotou o pseudônimo Lucio Yanel. Quando resolveu migrar para cá uma segunda vez, corria o ano de 1982, e seu país vivia em dificuldades, agravadas com a derrota na guerra das Malvinas. O destino planejado era São Paulo, mas antes, para fazer um favor a um amigo, deu uma paradinha em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, para entregar uma pasta de partituras a outro músico. Acabou ficando pelo Rio Grande do Sul, onde já vive há 37 anos — dez deles em Caxias do Sul.

Algacir Costa (1944–1997), integrante do grupo de música regional Os Fronteiriços, era o destinatário daquelas partituras. Seu filho, ainda usando fraldas naquele distante 1982, viria a ser um dos maiores violonistas do Brasil: Yamandu Costa. Lucio Yanel lembra de ter pego no colo o gurizinho de um ano e oito meses. Aos oito anos, o piá começou a tocar violão, imitando o amigo do pai.

"O Lúcio é um divisor de águas na história do violão no Rio Grande do Sul. E a influência dele vai além do estado, porque a música do sul não conhece fronteiras, percorre outras regiões e países próximos. Além disso, por meio de pessoas como eu e o Gabriel Selvage, por exemplo, a musicalidade dele chega também no centro do Brasil", disse Yamandu em recente entrevista ao jornal "Zero Hora".

Lucio Yanel começou a brilhar em festivais de música regional do Rio Grande do Sul, que viveram um momento efervescente nos anos 1980. Sua maneira de tocar e seu rigor ao instrumento impressionaram e influenciaram gerações de novos músicos. Além de Yamandu, com quem gravou o magistral disco "Dois Tempos", Maurício Marques, do Quarteto Maogani, e Marcello Caminha estão entre os grandes fãs e pupilos assumidos.

Ao longo da carreira no Brasil, Lucio colaborou com Luiz Marenco, Jayme Caetano Braun, Borghetinho, Gilberto Monteiro, Bebeto Alves e Gaúcho da Fronteira, ajudando a difundir internacionalmente ritmos como o chamamé, a chacarera, a zamba e o rasguido doble. Ele tocou também com nomes legendários da música de seu país, como Astor Piazzolla (1921-1992), Mercedes Sosa (1935-1992) e Atahualpa Yupanqui (1908-1992), seu maior ídolo.

A solidariedade ao mestre e sua esposa segue em movimentos na cidade que adotou há mais de dez anos, Caxias do Sul, e em documentários como "Dois Rios", que no começo do ano acompanhou sua viagem junto com Yamandu Costa de Estrela, no Rio Grande do Sul, até Corrientes, na Argentina.

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