Lucio Yanel segue inspirado por corrente de solidariedade e pela mulher, que piorou do Alzheimer: 'Ela já nem sabe quem eu sou, mas sente que é amada'
Inspiração

Lucio Yanel segue inspirado por corrente de solidariedade e pela mulher, que piorou do Alzheimer: 'Ela já nem sabe quem eu sou, mas sente que é amada'

Em janeiro de 2019, uma postagem com Lucio Yanel viralizou. Uma imagem do mestre argentino do violão tocando para sua mulher, Sueli de Fátima Teixeira, que sofre de Alzheimer, comoveu centenas de milhares de pessoas que sequer conheciam sua importante e influente música. Infelizmente, o agravamento da doença interrompeu as serenatas. "Até certo momento, mesmo ela estando já sem movimentos e quase sem fala, quando eu tocava ou cantarolava para distraí-la, sei que ela entendia que o meu gesto era de amor, para dar alegria. Depois ela perdeu o contato com este mundo, desplugou. E ficou como está hoje, totalmente dependente, acamada e tristemente fora deste mundo. Até quando? Não sei. Pedro e eu lutamos para que ela tenha a melhor vida possível até o momento final, que tenha dignidade", diz o dedicado companheiro, de Caxias do Sul, em entrevista por telefone ao Reverb.

O filho, Pedro, foi quem fez uma foto dos pais, casados há 26 anos, na varanda de casa. A postagem original tinha o seguinte texto: "Já faz alguns anos que o maldito Alzheimer vai me roubando a minha amada companheira. E para que me sinta ao seu lado, minhas serenatas diárias. Tu é o meu melhor público". Passados 16 meses, Lucio diz que todas as suas músicas são dedicadas à Sueli, mas ressalva: "Hoje em dia toco quando entendo que não a molesto, pois a vida para ela e para nós tem nuances diferentes todos os dias".

Lucio Yanel mora no Brasil desde 1982 e é mestre de Yamandu Costa. Foto: Aline Schwarzbold/Divulgação
Lucio Yanel mora no Brasil desde 1982 e é mestre de Yamandu Costa. Foto: Aline Schwarzbold/Divulgação

A situação despertou muitas mensagens de apoio e admiração e também uma rede de solidariedade. Vários artistas se mobilizaram para realizar shows beneficentes para ajudá-lo nas despesas do tratamento de Sueli, como o "Gracias, maestro" em outubro do ano passado, que reuniu mais de 35 artistas em Porto Alegre, e outro em novembro, em Caxias do Sul, com mais de 20 participantes. "Esse movimento solidário em torno da minha esposa foi a mais bela demostração de amor que eu já possa ter recebido. Sou e serei sempre muito grato a todos os músicos colegas que vieram de todos os pontos do estado para participar e ajudar, não apenas no financeiro, mas também no emocional. Ajudou e muito a mim e ao nosso filho Pedro a manter um equilíbrio emocional adequado e necessário", diz, agradecido.

Lucio lembra que a ajuda veio das mais variadas formas e não somente de moradores do Rio Grande do Sul: "Muita gente veio de São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Paraná... Se tem uma pessoa milionária no sentido do amor do povo e dos companheiros, esse sou eu".

O mestre, compositor e virtuoso instrumentista argentino Lucio Yanel veio morar no Brasil em 1982 e, com ele, trouxe uma nova forma de tocar. Na verdade, ele fez uma revolução na música do Rio Grande do Sul, transformando em protagonista o instrumento que até então era apenas um acompanhamento nas formações regionais. "O violão é para mim uma caixa de ressonância daquilo que recebo de outra esfera", diz ele, involuntariamente dando pistas que seu talento realmente não é deste mundo.

Lucio Yanel já havia feito muitos shows no Brasil e morado um tempo em São Paulo quando decidiu se fixar definitivamente no país, em 1982. "Aconteceu de eu ir emendando os trabalhos e assim fui ficando. Tudo foi natural mas, obviamente, a empatia com o país teve tudo a ver", diz Lucio. Mas foi uma encomenda que acabou o trazendo definitivamente ao país.Pouco antes de sair da Argentina, decidido a voltar a morar em São Paulo, Lucio recebeu uma pasta com partituras e discos de um amigo que pediu que ele entregasse a um colega brasileiro em Passo Fundo. "Era o Algacir Costa (1944–1997), prestigioso músico da região. Fiquei residindo na casa dos Costa a convite dele por uns quatro meses, vivendo todas as nuances do grupo musical como Os Fronteiriços, que tinha o Algacir e sua mulher, Clari, como diretores, e Yamandu, que estava sempre grudado nos pais, como mascote", lembra Lucio, referindo-se a um de seus pupilos mais famosos: Yamandu Costa.

O violonista gaúcho ainda era um bebê quando seu futuro mestre chegou à sua casa. "Eu o conheci quando tinha um ano e oito meses. Depois que eu passei aquele primeiro período lá, fui morando sempre por perto dos Costa, de forma tal que o menino foi crescendo ao meu lado e o resto veio naturalmente. Este Yamandu é um gênio!", elogia.

De aluno, Yamandu virou parceiro de Lucio, em trabalhos de estúdio como o incrível álbum "Dois Tempos", de 2001, e em shows e viagens que, inclusive, renderam um documentário de mesmo nome. "Dois Tempos" começou a ser filmado em janeiro de 2019 e registrou os dois na estrada, em um motor home, saindo de Caxias do Sul, onde Lucio mora, até Corrientes, sua cidade natal, onde participaram da Fiesta Nacional del Chamamé. O filme já foi finalizado e tem lançamento previsto para 2021.

É impossível enumerar quantos instrumentistas já se inspiraram em seus acordes e quantos viraram profissionais através de suas lições. Lucio prefere não especificar: "É difícil mencionar apenas alguns nomes... me parece que todos os violonistas do estado têm inicialmente um pedacinho de mim". Ele também se limita a citar uns poucos quando o assunto é parceria, mesmo já tendo trabalhado com nomes como Renato Borghetti, Noel Guarany, Gaúcho da Fronteira, Luiz Carlos Borges, Gilberto Monteiro e Luiz Marenco. "Meus companheiros de lida estão quase todos no céu — Jaime Caetano Braun (1924-1999, grande pajador — trovador — da música nativista gaúcha), Atahualpa Yupanqui (1908-1992, maior nome da música folclórica argentina) entre outros queridos hermanos. Posso me considerar um 'dinossauro'", diz, rindo.

Aos 74 anos, com oito álbuns solo lançados e um número incontável de participações em registros de outros artistas, Lucio é humilde ao falar de sua influência na música do Sul do país. "Quando minha primeira experiência de palco no Rio Grande do Sul aconteceu, encontrei um público e músicos que desconheciam essa maneira de tocar o violão. Daí comecei a lecionar e mostrar nos shows minha forma de tocar, que acabou se convertendo, naturalmente, num novo caminho para o violão no Rio Grande do Sul", relata.

Além do jeito hipnotizante de tocar, Lucio trouxe também gêneros pouco conhecidos aos ouvidos brasileiros. "Na Argentina temos um diálogo permanente com toda a musicalidade latino-americana, assim, é natural para o músico argentino mesclar os ritmos peruanos, colombianos, chilenos, bolivianos etc com o repertório nacional", explica a origem de suas influências.

Sou de fato totalmente espiritualizado. Não me considero um violonista, o violão é para mim uma caixa de ressonância daquilo que recebo de outra esfera. Eu apenas coloco essas coisas na minhas mãos e elas as traduzem no violão. É quase como uma prece, aliás, é a minha maneira de orar, pulsando o meu instrumento

Sobre as inspirações, apesar de dizer que sua música não existiria se não fosse sua raiz correntina, Lucio costuma atribuí-las a um plano diferente. "Sou de fato totalmente espiritualizado. Não me considero um violonista, o violão é para mim uma caixa de ressonância daquilo que recibo de outra esfera. Eu apenas coloco essas coisas na minhas mãos e elas as traduzem no violão. É quase como uma prece, aliás, é a minha maneira de orar, pulsando o meu instrumento!", explica o músico.

Aparentemente, é dessa "outra esfera" que o músico encontra forças em seu dia a dia desde 2008, ano em sua mulher Sueli de Fátima Teixeira foi diagnosticada com Alzheimer. A doença, que se manifestou muito precocemente — na época, ela tinha 52 anos —, avançou rapidamente. Hoje ela vive acamada e não reconhece mais ninguém. Lucio conta com o único filho do casal, Pedro, para ajudar nos cuidados, além de um eventual acompanhamento de profissionais.

Lucio e Sueli: foto da serenata viralizou nas redes sociais. Foto: Reprodução
Lucio e Sueli: foto da serenata viralizou nas redes sociais. Foto: Reprodução


O músico está em isolamento social com a família desde o início da pandemia de coronavírus. Na semana passada, ele fez uma live com seu filho Diego Max, que mora em São Paulo — quando se conheceram, Lúcio já tinha cinco filhos e Sueli, três. "Diego é fisioterapeuta, pintor, cantor e violonista", apresentou, orgulhoso, lembrando que outro filho, Julian Tarragó Giles, também seguiu a carreira artística — é pianista e acordeonista.

Na live, ele tocou composições próprias e contou histórias sobre elas. "El Jilguero" foi uma homenagem a "Polito" Castillo (1929-2020, músico e radialista argentino, dos mais importantes nomes do chamamé). "É um grande mestre, que morreu recentemente aos 90 anos. Eu toquei com ele quando tinha 16 anos, o começo das minhas andanças de músico", diz. Já "Maestro Marco" é uma música recente dedicada ao paulistano Marco Pereira., mestre em violão clássico e com colaborações celebradas com Gal Costa e Cristóvão Bastos, entre outros. "A música está finalizada, eu é que ainda estou cheio de inseguranças para executá-la. Uma coisa é você ter a obra na cabeça, a outra é executar.....mas eu chego lá", diz, brincando.

A live teve alguns problemas técnicos, mas Lucio diz que não quer pensar em fazer outra por enquanto. "Não penso nisso, aliás, estou torcendo para que não se pense mais em lives, porque isso significaria que a pandemia acabou! Óbvio, não custa nada estar sempre às ordens e com muito gosto tocar para o nosso público", diz ele, que até o fim de maio vai disponibilizar vídeo-aulas em sua loja virtual de aulas de violão do Universo Pampa.

Com a nova realidade que a quarentena impôs, Lucio tem publicado alguns vídeos com o tema "Quarentena #Ficaemcasa" em seu canal do Youtube, como o chamané "Pantanal" e a milonga "La Chucara".

Por outro lado, ele diz estar "bastante quieto em matéria de compor". "Estou me dedicando profundamente aos cuidados da minha companheira e não tem nada que me distraia dessas demandas. Eu considero uma honra que a vida me dá a de poder ajudar de mil maneiras para que ela tenha a sensação de ser amada a cada minuto, mesmo que seja com um abraço, um carinho e um 'eu te amo' sussurrado bem pegadinho ao ouvido. Eu sei que ela já nem sabe quem sou, mas com certeza sabe e sente que é amada, que está sendo amada e cuidada", diz, confiante.

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