Lugar de mulher também é na bateria
Inspiração

Lugar de mulher também é na bateria

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 “Ela toca como um homem”. A frase - travestida de elogio - já foi ouvida por muitas mulheres instrumentistas por aí. A ideia de uma boa musicista - principalmente aquelas que tocam instrumentos como guitarra, baixo ou bateria - precisar ser categorizada num padrão masculino de qualidade é uma afronta ao talento de tantas artistas espalhadas por grupos profissionais ou pequenas jams entre amigos na garagem. Porém, o cenário é de mudança e, ao que tudo indica, esse tipo de “elogio” tem sido cada vez mais deixado de lado. Pelo menos, é o que contam algumas bateristas com carreiras de sucesso na música brasileira e em bandas internacionais. 

Uma delas é Anna Prior, que comanda as baquetas na britânica Metronomy. Baterista desde os 14 anos - quando ganhou dos pais uma Mapex de quatro peças (“brilhante e luminosa”) -, Prior é quem dita o ritmo da banda de indie pop rock que já tocou em grandes festivais como o Lollapalooza e o Primavera Sound. Ela acredita que, a tirar pelo número de eventos para os quais é convidada para falar sobre o assunto, ainda exista a falsa ideia de que “bateria é para homens”. “Ao mesmo tempo, vejo e conheço muitas bateristas que estão nos palcos mandando ver, e outras jovens que estão ativamente procurando por bandas que têm membros femininos. Essa ideia errada mudará em breve. Nós temos um longo caminho a percorrer, mas eu sinto que estamos na direção certa”, afirma ela, em entrevista ao Reverb

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Na mesma campanha está Larissa Conforto, da Ventre, trio carioca de rock experimental que entrou em hiato no começo deste ano. Ela conta que o fato de ser uma mulher musicista na estrada a fez travar batalhas diárias. Foi isso que a estimulou a ajudar outras mulheres na mesma situação. “Cada humilhação, cada abuso, cada diminuição me torna mais próxima das minhas irmãs, mais sedenta por igualdade, mais crente no poder transformador da sororidade e do apoio mútuo. Se hoje eu grito, é porque me fizeram gritar. Se hoje eu grito mais alto ainda, é para as minhas irmãs de amanhã não precisarem mais gritar”, reflete Conforto. 

A artista, fã de bandas com grandes bateristas “de Nirvana a Slipknot, passando por Led Zeppelin”, já deu aulas de bateria só para mulheres no estúdio que mantém no Rio. Assim, desenvolveu um método próprio de ensino batizado de “Bateria intuitiva para mulheres poderosas”. “Ele tem base nas minhas experiências reais, que vivenciaram o quanto a criatividade é algo cerceado para nós, podado desde a infância. Por isso eu tento incentivar não só a prática do instrumento, a sua técnica, mas também a auto expressão da aluna. De maneira que ela consiga canalizar suas emoções e descobrir a sua própria verdade artística. Estou aperfeiçoando o método, mas pretendo um dia publicá-lo”, afirma a artista, que também é uma das orientadoras do Girls Rock Camp, acampamento no interior de São Paulo que ensina música e feminismo para meninas de 7 a 17 anos.

Larissa Conforto é baterista da banda Ventre (Foto: Pedro Arantes)
Larissa Conforto é baterista da banda Ventre (Foto: Pedro Arantes)

Possivelmente por conta de projetos como esse, e por toda lógica de empoderamento feminino presente na sociedade atual, o número de mulheres que assumem a bateria cresce a olhos vistos. Isso fica claro quando observado o quadro de alunos do Instituto Vera Figueiredo, em São Paulo. Ele é comandado pela própria Vera, baterista que já acompanhou grandes nomes da MPB, como Zélia Duncan, Milton Nascimento e Rita Lee, além de artistas internacionais como a americana Diana King. Nas estatísticas do instituto, ainda há mais homens que mulheres, mas o crescimento do número de alunas é considerável. Para a diretora, a diferença de gênero deveria ser tópico fora de discussão. “Apesar do significativo aumento de instrumentistas do sexo feminino, ainda não somos tantas quanto os bateristas masculinos que ocupam a maior fatia dentro do mercado de trabalho. Tocar bem e ser competente faz a diferença e isso independe do sexo, é para ambos. Eu sempre digo que, ao escutar uma mídia, é impossível identificar o sexo do músico”, reflete.

Vera Figueiredo, que de 2000 a 2015 ocupou o posto de baterista na banda do programa “Altas Horas”, da TV Globo, conta que sua ligação com o instrumento vem desde que tinha apenas dois anos. “Eu brincava com panelas, baldes, utensílios de cozinha da minha mãe e usava colheres de pau para batucá-los. As tampas das panelas eram os meus pratos e os tamancos de madeira, muito usados na época, eram os meus pedais. Foi amor à primeira vista”, conclui.

Ela também relembra a época em que ser apresentada à família de algum namorado era uma situação complicada. “O preconceito fica por conta das pessoas, de como cada um olha ou compreende a vida. Também ainda é uma questão cultural. Lembro-me de quando eu tocava na noite, e o meu namorado queria me apresentar para a sua família. A partir do momento que eu dissesse o que fazia para viver, e que trabalhava na noite, eu já sabia que não daria certo. Imagine o filho estudando para ser médico, ou engenheiro, e eu ser baterista e tocar na noite. Com certeza, eu não era a moça apropriada para o filho deles. Coisas desse tipo aconteciam muito, mas nada disso importa” 

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A escocesa Cat Myers, baterista do duo de indie rock Honeyblood e que atualmente também integra o Mogwai, lembra de quando tinha 17 anos e um professor do instrumento não queria que ela fizesses testes do mesmo nível que os meninos da turma. “Eu disse para ele que, se ele não me ensinasse, eu aprenderia sozinha. O que aconteceu foi que eu me formei com notas maiores que as dos meninos. Ninguém deveria subestimar a determinação de uma mulher.” 

Sobre determinação, ela pode falar bastante: quando foi convidada para assumir as baquetas do Mogwai, aprendeu boa parte do repertório em apenas uma noite. “Eu aprendi seis ou sete músicas em uma noite e o resto até o fim da semana. Eu estava de férias na Grécia quando me ligaram me pedindo que substituísse (o baterista, Martin Bulloch, que estava doente). Tive que pegar um voo de volta no dia seguinte e transcrevi as músicas no avião para já começar a ensaiar quando chegasse na Escócia”, conta. 

Até hoje, não é difícil encontrar olhares de surpresa quando se comenta que determinada banda tem uma mulher como baterista. A chave para a desconstrução desses estigmas machistas, na opinião de Larissa, é a argumentação. “É com conhecimento e respeito que se muda o mundo. Se a gente estiver sempre disposto a pensar um pouco além, a gente sempre vai além. Todo mundo está aprendendo, ninguém nasceu sabendo”, diz.

Já Anna espera que sua presença na Metronomy sirva de exemplo para homens e mulheres deixarem de lado qualquer barreira sexista no amor pela música. “Enquanto eu estiver com a minha banda, ou tocando bateria, ou cantando no palco, espero que jovens de todos os gêneros, especialmente mulheres, me vejam como uma inspiração para ignorar qualquer comentário negativo sobre ser mulher nesse contexto e pegar um par de baquetas, uma guitarra, um teclado, um microfone e começar a fazer barulho!”.

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