Luiz Melodia e a genialidade de um verdadeiro rei da música brasileira
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Luiz Melodia e a genialidade de um verdadeiro rei da música brasileira

A música brasileira é historicamente tão vasta e rica que muitas vezes se dá ao estranho luxo de cometer injustiças com artistas que, em qualquer outro lugar ou contexto, receberiam louros máximos por seu talento descomunal. Não que um artista da grandeza de Luiz Melodia não seja reconhecido e celebrado: só alguém sem o menor apreço pela vida, sua belezas e fúrias, não é capaz de reconhecer o gênio em Melodia — sua voz e canções. O fato, porém, é que tamanho talento e elegância vestidos por uma das mais belas vozes de todo o mundo, colocam Melodia à altura de um verdadeiro rei.

Se a partir do final dos anos sessenta, em especial da herança do triunfo tropicalista, a mistura de ritmos e estilos se tornou uma das mais fortes virtudes da música brasileira, poucos realizaram tal alquimia com tanta força e originalidade quanto Luiz Melodia — um compositor brilhante, dono de uma voz tão doce quanto singular e visceral.

Luiz Melodia, além de ser um compositor brilhante, é dono de uma voz tão doce quanto singular e visceral. / Foto: Getty Images
Luiz Melodia, além de ser um compositor brilhante, é dono de uma voz tão doce quanto singular e visceral. / Foto: Getty Images
Foi através da mistura, no entanto, que a singularidade da música de Melodia nasceu — atravessando o samba com o rock, o blues e a música negra como um todo

Melodia nasceu no morro de São Carlos, no meio bairro do Estácio onde o próprio samba do Rio de Janeiro nasceu. Foi lá que a primeira escola de samba do país, a Deixa Falar, foi fundada pelo grande Ismael Silva. É, portanto, esse o ritmo que serve de chão e teto para sua música. Foi através da mistura, no entanto, que a singularidade da música de Melodia nasceu — atravessando o samba com o rock, o blues e a música negra como um todo. Do reconhecimento pela imortal gravação de Gal Costa para o clássico “Pérola Negra” — escrita por Melodia e registrada no espetacular show “Gal A Todo Vapor” (e lançada no antológico disco “Fatal”, de Gal) —, nasceu seu primeiro disco, quando o cantor tinha 22 anos. Até hoje, “Pérola Negra” é reconhecido como um dos melhores álbuns da história da música brasileira.

O repertório impecável de canções originais serve de base para uma melancolia híbrida — em que o blues se enamora pelos Beatles para desaguar no samba de poética urbana e lirismo delirante e belo que marca seu primeiro disco. De “Estácio, Eu e Você”, passando por “Vale Quanto Pesa”, o clássico maior “Estácio, Holy Estácio”, “Pra Aquietar”, “Magrelinha”, “Farrapo Humano”, “Abundantemente Morte”, além da faixa que o batiza, tudo em “Pérola Negra” parece forjar um universo poético e estético que só pôde existir através da voz de Melodia — e que faz essa voz brilhar ainda mais enquanto rasga ao meio o coração do ouvinte.

O rótulo de “marginal”, que muitas vezes é votado ao cantor, ainda que ética e esteticamente faça jus a um artista que se manteve livre diante das demandas e desmandos das gravadoras, se torna tão restrito quanto costumam ser os rótulos artísticos de forma geral. Melodia é imenso, e não pode estar preso a rótulo algum — nem mesmo de seu precoce falecimento.

Seu segundo disco, “Maravilhas Contemporâneas”, de 1976, segue com brilhantismo impecável a incrível trajetória de um artista que merece sempre ser descoberto e redescoberto — não como alguém que não fez o sucesso que merecia, mas sim como uma obra que sempre oferece algo de novo e misterioso para tocar no centro de nosso coração feito uma flecha. Ouvir Melodia é necessariamente recomeçar e reencontrar uma beleza que parece significar a música brasileira como uma das maiores do mundo.

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