Madonna, uma heroína na luta pela libertação da sexualidade feminina
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Madonna, uma heroína na luta pela libertação da sexualidade feminina

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Se a medida do sucesso de um artista pop é o número de discos vendidos, ou likes em um vídeo, há aqueles que explodem tais matemáticas frias e passam a ser compreendidos pelos impactos que provocam nos movimentos da história. Acadêmicos e intelectuais se dobram sobre o legado de tais artistas, que não por acaso costumam também ser os que justamente mais vendem discos ou coletam likes – não em certo mês ou semana, mas sim em todos os tempos. É o caso de Madonna, uma artista tão grandiosa que conseguiu tomar a exclusividade de um nome outrora dado à mãe de Jesus. 

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Madonna completou 60 anos no dia 16 de agosto, e qualquer opinião sobre sua música pouco importa diante seu legado. Madonna não é um tópico a ser discutido, mas sim compreendido e admirado. Seja qual for sua cantora pop preferida hoje, e por melhor que realmente seja seu trabalho, entre Lady Gaga, Beyoncé, Taylor Swift ou Rihanna, todas elas devem suas carreiras em boa parte à coragem desbravadora de Madonna – e a maioria dessas estrelas atuais não é capaz de esconder tal influência, ao emular muitas vezes diretamente a sonoridade, postura ou a estética de Madonna sem maiores pudores. 

No início dos 80’s, o feminismo no universo pop era um deserto árido e perigoso, que Madonna enfrentou vestindo sutiãs pontudos ou não vestindo coisa alguma, e dançando com agressiva volúpia sem pedir licença a ninguém – e tudo isso em um cenário pop absolutamente dominado por homens 

Foi Elvis Presley, ao lado dos primeiros desbravadores do rock, quem primeiro colocou o sexo no centro do imaginário cultural quando apareceu rebolando, cantando cerca de três décadas antes de uma jovem americana implodir o cenário da música pop com o provocador e irresistível hit “Like a Virgin”. Pois se Elvis sugeria a sexualidade, o desejo e os impulsos de nossos quadris como o motor por trás da revolução jovem que ele ajudou a moldar, Madonna tornou tal motivação explícita. Sua revolução esfregou quase que literalmente nossas sexualidades em nossas caras, como se ela fosse um espelho. E foi uma revolução feita com tanto talento, charme e um repertório de tal forma sedutor e delicioso, que não seria exagero afirmar que qualquer saúde sexual conquistada coletivamente pelo ocidente nos últimos 30 anos se deve em parte à coragem com que Madonna desafiou nossos tabus, preconceitos e desejos, e os colocou na ribalta sob os olhos do mundo. 

Madonna é parte feminina de uma santíssima trindade, ao lado de Michael Jackson e Prince, que revigorou a cena musical após a passagem do movimento punk, entre o fim da década de 1970 e o início dos anos 1980, e que nos salvou da esvaziada inundação da água-com-açúcar dançante que de modo geral reinava no pop desde a disco music. E se não há dúvidas de que Michael e Prince transformaram a música pop em ouro estético, retomando a tradição negra da Motown, foi Madonna quem radicalizou o aspecto comportamental e se transformou no maior ícone de costumes da década – quiçá de todos os tempos – a empunhar um microfone.

Ela nos fez dançar ao mesmo tempo em que sacudiu deus e o diabo de nossa costumeira anestesia sexual com inteligência, charme e talento. Lembrar hoje de sua dança troncha ao sair de dentro de um bolo vestido de noiva na MTV, ou do até hoje escandaloso clipe de “Like a Prayer”, e do fuzilamento voluptuoso dos vídeos de “Erotica”, “Justify My Love”, “Express Yourself” e tantos outros é lembrar de um desses raros momentos em que um artista toma o debate e os cuidados do mundo para si. Durante a década de 1980 e 1990 era para Madonna que o mundo olhava (mesmo que em segredo, escondido na madrugada de nossos pudores) quando queria saber para onde poderíamos ir – para onde deveríamos apontar nossas pélvis e partes, como haviam feito Elvis, Bowie e como então só ela fazia. Era Madonna quem nos ampliava os limites, e nos dizia que podíamos ir um pouco mais longe – mesmo que também fosse ela quem, sozinha, tivesse de suportar a histeria puritana que quer sempre que o mundo ande para trás, especialmente no campo de nossos desejos.     

Nenhum outro artista antes dela havia abraçado não só a causa como a estética queer com tanta naturalidade e assertividade, de forma franca e despudorada, assim como ninguém havia tratado o sexo na música da maneira que ele realmente merece: com sinceridade e tesão. Vale aqui um aceno à Betty Davis, cantora que na década de 1970 também colocou o sexo explicitamente para dançar, mas que jamais teve o reconhecimento merecido, e que não por acaso é citada por Madonna na letra de “Vogue”.

E se hoje o empoderamento feminino e a afirmação pela igualdade de gênero é pauta incontornável e essencial, não só devemos também agradecer à Madonna como vale lembrar que, no início dos 80’s, o feminismo no universo pop era um deserto árido e perigoso, que Madonna enfrentou vestindo sutiãs pontudos ou não vestindo coisa alguma, e dançando com agressiva volúpia sem pedir licença a ninguém – e tudo isso em um cenário pop absolutamente dominado por homens. Mais do que falar sobre, ser uma artista como Madonna é também encarnar a luta e o empoderamento, superando fantasmas de abusos e machismos que a perseguiram por toda a vida – e que ela sempre denunciou, assim como incansavelmente combateu a homofobia reinante, em especial no contexto do surgimento da Aids. 

Antes de Madonna, uma artista como ela era algo simplesmente impensável. Depois dela, no entanto, ser como Madonna tornou-se um tanto inevitável - é a ela que devemos agradecer pelo fato de hoje a vasta maioria do top 10 da música pop ser habitada por mulheres. Passados quase 40 anos de seu surgimento, Madonna completou 60 anos de idade ainda como uma referência incontornável, tanto na música quanto na atitude. Foi, afinal, ela quem nos lembrou enquanto dançávamos ou quedávamos boquiabertos diante de seus shows ou vídeos, que os desejos imperativos de nossa sexualidade (hétero, bi, gay, trans) possuem um potencial estético imenso, impactante, belo e libertário. 

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