Mãe de rapper assassinado transformou dor em projeto social
Inspiração

Mãe de rapper assassinado transformou dor em projeto social

Sob o nome artístico de Depzman, Joshua Ribera tornou-se um dos nomes mais promissores do rap inglês no início da década. Recheado de mensagens de amor e esperança, contrariando a vibe “gangsta” do estilo, seu disco de estreia, “2 Real”, chegou ao topo das paradas de hip-hop do iTunes, mas sua escalada para o sucesso foi interrompida precocemente. Na noite de 20 de setembro de 2013, durante um tributo a um amigo que havia sido morto a facadas exatamente um ano antes, Joshua também foi esfaqueado. Morreu no dia seguinte, após sete paradas cardíacas, e seu assassino, Armani Mitchell, um jovem como ele, foi sentenciado à prisão perpétua. Por trás dessa história tão trágica, havia - e ainda há - uma mãe. Alison Cope transformou a dor em missão e juntou forças com os amigos e fãs do filho para, através das belas mensagens que Josh rimava, tentar impedir que mais jovens tivessem um fim tão trágico quanto o dele e o de seu assassino.

Dentro de mim eu tinha todo esse amor e nenhum Josh, então direcionei parte desse amor para os amigos e fãs dele, e a diferença foi imediatamente notada. Consegui mantê-los calmos e unidos, vivendo em minha casa por meses (...) Foram muitas atividades para manter esses jovens focados

Assim que a notícia da morte de Depzman se espalhou, centenas de fãs bateram na porta da casa de Alison, buscando algum alento. “Fiquei impressionada com a onda de pesar. Recebi fãs e amigos traumatizados. Eles não sabiam o que fazer, estavam perdidos. Então eles procuraram a pessoa mais próxima de Josh, e essa era eu. Jovens soluçavam nos meus braços, recorriam ao álcool para lidar com a raiva e com o luto de forma autodestrutiva”, lamenta ela, que decidiu fazer algo concreto para ajudá-los, em entrevista ao Reverb. “Dentro de mim eu tinha todo esse amor e nenhum Josh, então direcionei parte desse amor para os amigos e fãs dele, e a diferença foi imediatamente notada. Consegui mantê-los calmos e unidos, vivendo em minha casa por meses, dormindo na cama dele, confortando uns aos outros. Organizei partidas de futebol, levei-os para para correr de kart, fizemos jantares, festas. Foram muitas atividades para manter esses jovens focados”.

Funcionou. Afinal, Alison sempre acreditou no poder da música. "Muita gente se conectava com os temas que ele cantava. Josh tocou muita gente com sua honestidade e o amor que demonstrava por mim e pela família. Ele mostrou que podemos superar a dor, mostrar amor e sermos bem sucedidos", conta Alison, que teve Joshua com 21 anos e o criou sozinho, já que o pai acabou entrando para o mundo do crime e foi preso por assassinato quando o garoto era adolescente. Anos depois, Alison viu o filho parar num centro de detenção juvenil por um pequeno furto. A experiência o assustou tanto que ele, diagnosticado com transtorno do déficit de atenção com hiperatividade, decidiu canalizar a energia para a música. As histórias que viveu e o sofrimento pelo afastamento do pai, seu maior ídolo, se refletiram em suas composições.

Alison Cope e o filho, Joshua Ribera, o Depzman / Divulgação
Alison Cope e o filho, Joshua Ribera, o Depzman / Divulgação

"As letras dele eram baseadas na verdade, e as pessoas apreciam honestidade”, conta Alison, que viu o filho compor versos como "pare de perder tempo e comece a aprender, deixe de esperar e comece a trabalhar", na faixa "One Love", em que distribuía amor para os amigos, e também para os haters e os grandes nomes da indústria que não acreditavam em sua música. “Joshua nunca ficou constrangido por mostrar seus sentimentos, e isso incluía o amor. Ele passou por muita coisa em sua curta vida. Muita gente passa por dificuldades, muitas vezes em segredo, e Josh se conectou com as pessoas por isso, por dar-lhes esperança. Quando ele morreu, os fãs ficaram devastados porque perderam uma espécie de guia de positividade e sucesso".

O amor que Alison dividiu com completos desconhecidos que também amavam a música de seu filho chamou a atenção de movimentos sociais e autoridades do Reino Unido. A partir daí, ela passou a dividir sua experiência em universidades, escolas, reformatórios - nestes cinco anos, já falou para 250 mil jovens, sempre na esperança de evitar que eles tomem o caminho do crime.

“Meu filho foi muito especial e sinto que muitas vidas mudaram por causa da música e das lições que aprendemos com a morte dele. A maior lição que eu aprendi é que até os jovens mais difíceis podem ser dobrados com a abordagem certa. E aprendi também que não estamos fazendo o suficiente para ajudar os milhares de jovens que sofrem. Se nós genuinamente nos importássemos com isso, a sociedade melhoraria”, diz ela, que venceu o prêmio Pride of Birmingham, em 2015, e está entre os finalistas do prêmio BBC International Outlook este ano.

“Muita gente leu a manchete ‘Depzman é morto a facadas’. O que eu faço é mostrar aos jovens que por trás dessa manchete estava Joshua, meu garotinho, que viveu por 18 anos e que nesse período conquistou muitas coisas. Amar e ser amado, mostrar esse amor, sentir segurança, ter boas maneiras, trabalhar duro e alcançar os objetivos. Todos nós podemos chegar lá, não importa de onde viemos e pelo que nós passamos, esses jovens merecem sentir esperança por um bom futuro, e é isso o que eu tento fazer. Viver sem Joshua é muito difícil, mas eu tive a incrível sorte de ele ser meu filho. Quando ele deixou este mundo, ele estava cheio de amor, esperança e felicidade em seu coração. Eu não poderia estar mais orgulhosa”.

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