Tudo Tanto: Manguebeat ressurge com guitarras pesadas em novo disco de China, 'Manual de Sobrevivência Para Dias Mortos'
Especial

Tudo Tanto: Manguebeat ressurge com guitarras pesadas em novo disco de China, 'Manual de Sobrevivência Para Dias Mortos'

0Ícone do FacebookÍcone do TwitterÍcone do Pinterest

Publicidade

"O mangue beat sempre foi minha grande referência musical. Nasci como músico vendo o movimento crescer", explica o cantor e compositor pernambucano China, nascido Flávio Augusto Câmara, que está lançando seu quarto álbum, "Manual de Sobrevivência Para Dias Mortos". O disco, mais pesado que os trabalhos anteriores do artista, volta às suas raízes musicais, quando liderava o grupo Sheik Tosado — um dos primeiros a nascer no Recife após o movimento idealizado por Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S/A ter chacoalhado as bases do pop brasileiro na última década do século passado — e flerta com a cultura de seu estado e guitarras ruidosas. 

LEIA MAIS: Alessandra Leão retorna à percussão no ritualesco ‘Macumbas e Catimbós’

VEJA TAMBÉM: A explosão de sons do Iconili, big band mineira que se destaca na música instrumental

"Acho que essa sonoridade já está no meu inconsciente há bastante tempo", ele continua. "Ao mesmo tempo, queria me reaproximar de ritmos que escutei a vida toda como o baião, o coco, o frevo. Tentei em outros discos passear por caminhos diferentes para me provar como compositor, mas sou pernambucano e essas raízes culturais que temos estão sempre presentes em tudo o que fazemos. Depois do mangue beat não tivemos nenhum outro grande movimento musical que sacudisse tanto o país, e as canções escritas há trinta anos continuam atuais. O manguebeat é atemporal. As pessoas vão ouvi-lo daqui há 50, 60 anos e se identificarão com aquelas canções."

A capa do álbum 'Manual de Sobrevivência para Dias Mortos' / Foto: Divulgação
A capa do álbum 'Manual de Sobrevivência para Dias Mortos' / Foto: Divulgação

Estas referências musicais estão explícitas neste "Manual de Sobrevivência Para Dias Mortos", que opta musicalmente por deixar a bateria de lado. "Quando já tínhamos todos os esqueletos das músicas partimos, eu e o produtor Yuri Queiroga, pra Olinda para gravar o corpo de percussão com Lucas dos Prazeres, pois a ideia é que o disco não tivesse bateria, só percussão pesada e forte." Foi o primeiro disco que China grava no próprio Recife.

A essa força se soma o peso das guitarras. "O disco tem também as referências roqueiras de riffs curtos e diretos como o som dos Stooges, banda que também faz parte da minha formação musical", continua, citando Gang of Four e Sex Pistols como outras referências roqueiras. Isso veio pelas mãos de alguns dos convidados. Andreas Kisser (do Sepultura) e Neilton (do Devotos) ajudam a deixar o clima mais tenso. "São guitarristas que admiro desde que era moleque e sempre quis fazer um som com eles. Esse disco tinha as músicas certas para isso. Eles gravaram lindamente em 'Frevo e Fúria' e 'Fascismo Tupinambá'."

Além da presença dos guitarristas e do percussionista, China lista outros convidados para quem abriu portas. "Convidei Natália Matos para cantar em 'Mareação', música inspirada num poema de Elizabeth Bishop (poetisa americana, 1911-1979). Ela trouxe a suavidade que precisava para a canção. Assim também rolou com Uyara Torrente, da Banda Mais Bonita da Cidade. Uya é parceira de muitos anos, a banda já gravou músicas minhas, e sempre quis tê-la num disco meu. O dueto que fizemos em 'Pó de Estrela' ficou muito delicado. Bell Puã é poeta do Slam das Minas de Pernambuco, e depois de assistir a um vídeo dela recitando um poema superforte, fiz o convite para participar em 'Moinhos de Tempo'. E tive a contribuição do meu filho Matheus, que pela sua experiência na música eletrônica com a Mamba Negra, trouxe beats interessantes para o disco", conclui.

O tema do disco foi instigado pelo produtor. "Lendo sobre a teoria da evolução de Charles Darwin cheguei na palavra 'sobreviver' e percebi que teria um bom caminho escrevendo sobre todas as coisas que envolvem essa nossa sobrevivência diária", continua, reforçando o clima pesado das letras do disco. 

E comenta a sobrevivência musical através do mercado independente brasileiro. "É incrível e conseguiu quebrar muitas barreiras. De uns anos pra cá vimos vários artistas independentes se destacarem e criarem seu próprio mercado, seu próprio jeito de gerenciar a carreira. Isso é inspirador. Os festivais independentes têm sempre um bom público, revelam novos nomes e apostam na força desse mercado. Até no prêmio Multishow temos um Super Júri, que junta um monte de profissionais que estão, de certa forma, ligados a música independente para falar sobre os lançamentos da cena independente e premiá-los. Acho que estamos em constante evolução e com vários exemplos de sucesso para nos inspirar."

China também fala sobre a importância do papel da arte e da cultura atualmente. "A arte sempre teve um papel fundamental na sociedade. Através dela conhecemos a história do nosso povo, mudamos condições impostas pela sociedade e isso incomoda muita gente. Estamos em 2019 e tem gente que quer acabar com o funk, assim como tentaram fazer com a capoeira e com o samba quando apareceram. A arte faz a gente pensar, refletir, mas vivemos tempos em que o livre pensamento está sendo tolhido, pois pensar é algo extremamente perigoso para uma sociedade chucra e opressora. A arte e a cultura são as nossas armas para combater o retrocesso que estamos vivendo, e não daremos nenhum passo para trás, seguimos em frente espalhando cultura para todos, pois quanto mais conhecimento o povo tiver menor a chance de termos ignorantes dando as regras do jogo."

Instagram URL not provided

Publicidade

Tags relacionadas:
EspecialTudo Tanto
Background

Relacionados

Canais Especiais

Ícone do FacebookÍcone do TwitterÍcone do InstagramÍcone do YoutubeÍcone do DeezerÍcone do SpotifyÍcone do Pinterest