Tudo Tanto: Manguebeat ressurge com guitarras pesadas em novo disco de China, 'Manual de Sobrevivência Para Dias Mortos'
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Tudo Tanto: Manguebeat ressurge com guitarras pesadas em novo disco de China, 'Manual de Sobrevivência Para Dias Mortos'

"O mangue beat sempre foi minha grande referência musical. Nasci como músico vendo o movimento crescer", explica o cantor e compositor pernambucano China, nascido Flávio Augusto Câmara, que está lançando seu quarto álbum, "Manual de Sobrevivência Para Dias Mortos". O disco, mais pesado que os trabalhos anteriores do artista, volta às suas raízes musicais, quando liderava o grupo Sheik Tosado — um dos primeiros a nascer no Recife após o movimento idealizado por Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S/A ter chacoalhado as bases do pop brasileiro na última década do século passado — e flerta com a cultura de seu estado e guitarras ruidosas.

"Acho que essa sonoridade já está no meu inconsciente há bastante tempo", ele continua. "Ao mesmo tempo, queria me reaproximar de ritmos que escutei a vida toda como o baião, o coco, o frevo. Tentei em outros discos passear por caminhos diferentes para me provar como compositor, mas sou pernambucano e essas raízes culturais que temos estão sempre presentes em tudo o que fazemos. Depois do mangue beat não tivemos nenhum outro grande movimento musical que sacudisse tanto o país, e as canções escritas há trinta anos continuam atuais. O manguebeat é atemporal. As pessoas vão ouvi-lo daqui há 50, 60 anos e se identificarão com aquelas canções."

A capa do álbum 'Manual de Sobrevivência para Dias Mortos' / Foto: Divulgação
A capa do álbum 'Manual de Sobrevivência para Dias Mortos' / Foto: Divulgação

Estas referências musicais estão explícitas neste "Manual de Sobrevivência Para Dias Mortos", que opta musicalmente por deixar a bateria de lado. "Quando já tínhamos todos os esqueletos das músicas partimos, eu e o produtor Yuri Queiroga, pra Olinda para gravar o corpo de percussão com Lucas dos Prazeres, pois a ideia é que o disco não tivesse bateria, só percussão pesada e forte." Foi o primeiro disco que China grava no próprio Recife.

A essa força se soma o peso das guitarras. "O disco tem também as referências roqueiras de riffs curtos e diretos como o som dos Stooges, banda que também faz parte da minha formação musical", continua, citando Gang of Four e Sex Pistols como outras referências roqueiras. Isso veio pelas mãos de alguns dos convidados. Andreas Kisser (do Sepultura) e Neilton (do Devotos) ajudam a deixar o clima mais tenso. "São guitarristas que admiro desde que era moleque e sempre quis fazer um som com eles. Esse disco tinha as músicas certas para isso. Eles gravaram lindamente em 'Frevo e Fúria' e 'Fascismo Tupinambá'."

Além da presença dos guitarristas e do percussionista, China lista outros convidados para quem abriu portas. "Convidei Natália Matos para cantar em 'Mareação', música inspirada num poema de Elizabeth Bishop (poetisa americana, 1911-1979). Ela trouxe a suavidade que precisava para a canção. Assim também rolou com Uyara Torrente, da Banda Mais Bonita da Cidade. Uya é parceira de muitos anos, a banda já gravou músicas minhas, e sempre quis tê-la num disco meu. O dueto que fizemos em 'Pó de Estrela' ficou muito delicado. Bell Puã é poeta do Slam das Minas de Pernambuco, e depois de assistir a um vídeo dela recitando um poema superforte, fiz o convite para participar em 'Moinhos de Tempo'. E tive a contribuição do meu filho Matheus, que pela sua experiência na música eletrônica com a Mamba Negra, trouxe beats interessantes para o disco", conclui.

O tema do disco foi instigado pelo produtor. "Lendo sobre a teoria da evolução de Charles Darwin cheguei na palavra 'sobreviver' e percebi que teria um bom caminho escrevendo sobre todas as coisas que envolvem essa nossa sobrevivência diária", continua, reforçando o clima pesado das letras do disco.

E comenta a sobrevivência musical através do mercado independente brasileiro. "É incrível e conseguiu quebrar muitas barreiras. De uns anos pra cá vimos vários artistas independentes se destacarem e criarem seu próprio mercado, seu próprio jeito de gerenciar a carreira. Isso é inspirador. Os festivais independentes têm sempre um bom público, revelam novos nomes e apostam na força desse mercado. Até no prêmio Multishow temos um Super Júri, que junta um monte de profissionais que estão, de certa forma, ligados a música independente para falar sobre os lançamentos da cena independente e premiá-los. Acho que estamos em constante evolução e com vários exemplos de sucesso para nos inspirar."

China também fala sobre a importância do papel da arte e da cultura atualmente. "A arte sempre teve um papel fundamental na sociedade. Através dela conhecemos a história do nosso povo, mudamos condições impostas pela sociedade e isso incomoda muita gente. Estamos em 2019 e tem gente que quer acabar com o funk, assim como tentaram fazer com a capoeira e com o samba quando apareceram. A arte faz a gente pensar, refletir, mas vivemos tempos em que o livre pensamento está sendo tolhido, pois pensar é algo extremamente perigoso para uma sociedade chucra e opressora. A arte e a cultura são as nossas armas para combater o retrocesso que estamos vivendo, e não daremos nenhum passo para trás, seguimos em frente espalhando cultura para todos, pois quanto mais conhecimento o povo tiver menor a chance de termos ignorantes dando as regras do jogo."

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