Mano DJ, o 'garimpeiro' do funk paulista
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Mano DJ, o 'garimpeiro' do funk paulista

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Em algum momento de 2015, a conceituada cantora Björk virou notícia no Brasil por uma situação inusitada: tocou um funk do MC Brinquedo durante um set dela como DJ. A percepção da islandesa marcou uma época em que a KL Produtora vivia seu auge, com nomes como Bin Laden, Pikachu e próprio Brinquedo colecionando views na internet e engordando a agenda de shows. E por trás de todos esses MCs havia uma figura em comum: o Mano DJ. Além de produtor responsável por desenvolver as batidas que marcaram parte do boom do funk paulista nesta década, ele também foi o “olheiro” por trás de vários talentos. “Os caras falam que eu sou... Garimpeiro que chama, né?”, ele brinca, em entrevista ao Reverb.

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Mano DJ foi ficar realmente conhecido pelos idos de 2014, mas a história dele com a música é antiga. Nascido em São Luiz, no Maranhão, desde a infância ele é morador do Heliópolis, em São Paulo, onde ganhou o apelido que hoje leva no nome. “Era uma brincadeira, porque eu gingava com as mãos, ficava parecendo um DJ”, explica. “Um dia, até chegou um casal precisando de um DJ para tocar no casamento deles. Tive que explicar que não era DJ, que era só apelido", brinca. 

A alcunha ele já tinha, faltava apenas o ofício. Mano então arrumou um trabalho em uma lan house e começou a pesquisar sobre música (“mais rap, black music”), a conhecer outros DJs e a brincar com programas. A primeira vez comandando uma plateia foi uma espécie de “cilada”: aos 16 anos, foi visitar os avós no Maranhão e um amigo o chamou para “acompanhar o DJ” em uma festa. “Quando chegou na hora ele falou: ‘tenho um bagulho para te contar, o DJ da festa é você!’ Baixei um programinha ali, pesquisei. Isso em 2007. Ele me mostrou os atalhos no teclado, fui tocando e geral gostou. Aí comecei a me aprofundar”.

Paralelamente às primeiras experiências de Mano DJ nas picapes, o funk começava a ficar mais forte nas periferias de São Paulo, especialmente no Heliópolis. “Falei com a minha mãe e ela comprou um computador para mim. Eu ia pra cima e pra baixo com ele, e o pessoal ajudava. Um levava o teclado, o outro a CPU”, recorda. Nessa época, ele foi fazendo nome com “bicos” nas apresentações de outros MCs (principalmente os cariocas). 

“Tinha também muita festa da favela. Alugavam som e um caminhãozinho para o DJ tocar lá em cima e os meninos rimarem. Aí foi aparecendo festinha de aniversário, casamento e um dinheirinho”. Foi só na virada da década que Mano DJ resolveu desenvolver a veia de produtor, montando um estúdio caseiro, embaixo da escada para garantir o isolamento acústico: “Peguei um arame e fiz a aranha no microfone. Botei uma meia velha da minha mãe,  dessas de mulher, que esticam, só para gravar”.

Dali para frente foi um pulo. O funk ostentação ganhava espaço em São Paulo e Mano DJ foi conhecendo mais MCs até ser contratado pela KL Produtora, onde ficou até 2016. Era DJ de shows do MC 2k – e de quem mais aparecesse – e começou a cuidar de algumas produções das músicas lançadas no canal. Ele quem indicou Bin Laden à produtora. “O Bin Laden sempre me enchia o saco para gravar”, conta. “Um dia ele veio com a música chamada ‘Lança de Coco’. Botei um tamborzão da música do 'Bufalo Bil', bem antiga. E lembrei que, na escola, tinha um barulho que a gente botava no celular e incomodava a professora. Falei: 'vou colocar isso na música para encher o saco dos caras que usam ‘lança’, porque a brisa era essa, né?”, lembra. A partir dali vieram “Bololo Hahaha”, “Tá Tranquilo, Tá Favorável” e o estouro absoluto de Bin Laden. 

Depois foi a vez de Brinquedo. “Na época, ele se chamava MC Menorzinho. Achamos que cantava bem, falamos: ‘Aí ‘menor’, vai no nosso escritório’”, lembra Mano DJ. “Ele chegou, ficou felizão. Colocamos o apelido porque ele cantava isso numa música. Toda letra, em vez de ter por exemplo ‘piru’, tinha ‘brinquedo’. Pintamos o cabelo de azul e rosa, porque o Bin Laden já tinha o cabelo preto e amarelo. Aí usamos como uma espécie de ‘afilhado’”. Depois, veio o MC Pikachu. “Já tinha visto o moleque, achava que ele ia estourar mais que o MC Pedrinho (do hit ‘Dom Dom Dom’)”, explica. “Um dia abri o Facebook e tinha uma mensagem dele. Não tinha empresário, era de Suzano. Fomos encontrá-lo na Sé e o Brinquedo foi também. Chegando lá, ele passou debaixo da catraca, estava todo felizão. Ele tinha mania de cantar batendo no peito, tinha dificuldade de cantar no beat, mas foi o que estourou mais rápido. Produzi ‘Tava na Rua’. Em uns três meses, ele já era o cachê mais alto da KL”.

Foi nessa época em que Mano DJ se estabeleceu como referência de produção no funk paulista: “Tinha vez que eu fazia dez produções em um dia. Tinha fila para gravar comigo”. Foi também quando ele virou queridinho dos gringos, recebendo uma visita dos produtores mundialmente famosos Skrillex e Diplo. “O Skrillex era mais simpático que o Diplo”, revela. “Ele era o cara que, como a gente fala, pagava mais pau. O Diplo era mais na dele. O Skrillex beijou minha mão, falou que eu sou muito foda, que minha criatividade era além, era uma honra me conhecer”. Mano DJ não entendeu a dimensão dos novos fãs até ir pesquisar mais sobre os envolvidos: “Depois fui ver que os caras já produziram um monte de gente famosa, tipo Madonna e Justin Bieber. Meus Deus do céu. E aí eu pensando: ‘Porra, os caras são muito mais pica do que eu e estão pagando pau para mim. Mas é o que eu falo: cada um tem o seu dom”.

De lá pra cá, ele já fez três turnês na Europa e segue produzindo, agora em busca de montar o próprio estúdio. “O funk mudou demais depois da internet, veio o canal do Kondzilla, que está muito forte inclusive lá fora”, Mano DJ reflete sobre as evoluções no gênero, que chegou inclusive a outras classes sociais. “Eu estava acostumado a fazer outras coisas. Funk, comunidade, maloqueiros. E esse público me abraçou de uma forma que eu fiquei... Pô, em 2007 a gente fazia CD, entregava nas casas de show (risos)”.

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