Marianne Faithfull vence o covid-19: seis vídeos para amar a grande sobrevivente dos anos 60
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Marianne Faithfull vence o covid-19: seis vídeos para amar a grande sobrevivente dos anos 60

Marianne Faithfull não gosta de ser chamada de sobrevivente e diz que um dos grandes equívocos sobre sua vida é acharem que foi trágica. "Tive a vida mais incrível", afirma a cantora de 73 anos, que acaba de se recuperar após três semanas internada por causa da Covid-19. Em 20 de maio, Marianne Faithfull publicou em seu Twitter uma mensagem de agradecimento aos profissionais da saúde que a ajudaram a se recuperar do coronavírus. "Basicamente salvaram minha vida. Gostaria de dizer obrigada a todas as pessoas que cuidaram de mim e pensaram em mim, que me enviaram amor, pessoas que conheço, que nunca conheci... todos me ajudaram a melhorar”, escreveu.

Mesmo diante da gravidade da doença, olhando na vida pregressa da cantora, a Covid-19 é apenas um entre muitos percalços. Afinal, ela foi viciada em heroína, teve câncer de mama, hepatite C, outras doenças hepáticas, depressão, anorexia, cinco abortos, um colapso nervoso e um período em coma após acidente doméstico. "Um dos conceitos errados sobre mim é que sou uma espécie de rainha da tragédia. É tão triste. Não sou nada disso. Minha vida não foi trágica, tive a vida mais incrível", afirmou ela, em uma entrevista em 2002.

Filha de uma baronesa (de linhagem austro-húngara), Marianne Faithfull foi descoberta em uma festa por Andrew Loog Oldham, então empresário e produtor dos Rolling Stones. Além de linda e carismática, cantava bem. Meses depois, ainda menor de idade, 17 anos, estourou com a linda balada "As Tears Go By", composta por Mick Jagger e Keith Richards, dos Rolling Stones. Recém-separada e com um filho pequeno, Nicholas, foi morar com Keith Richards e Anita Pallemberg, que virou sua best friend forever. Logo ela formaria com Mick o casal 20 da Swinging London. "Dormi com três (dos Rolling Stones) e decidi que o cantor era a melhor aposta", disse ela, em uma famosa entrevista ao "NME".

Separamos seis momentos musicais que mostram que a cantora Marianne Faithfull é tão fascinante quanto a personalidade Marianne Faithfull.

1) 'As Tears Go By'

Apesar de ter vida própria como artista (fez vocais de apoio em "Yellow Submarine", dos Beatles), Marianne desinteressou-se um pouco da carreira durante parte do tempo que passou com Mick Jagger. No mítico episódio que culminou com a prisão por alguns dias de Mick e Keith Richards, Marianne ficou com a pior parte. Foi divulgado em tabloides que, quando os policiais entraram na casa do guitarrista em busca de um flagrante de posse de drogas, ela estava nua, enrolada em um tapete, e com uma barra de chocolate na vagina. Em sua autobiografia, Marianne mostrou indignação com o que definiu como "fantasia de velho tarado.. desses que vão em dominatrix toda quinta-feira para ser espancados: bem aquilo que um policial imagina que pessoas que tomam ácido fazem". "Aquilo me destruiu. Para um homem, ser viciado em drogas e fazer coisas assim é algo glamourizado, que acrescenta à biografia. Uma mulher nessa situação vira logo puta e mãe ruim", compara.

2) 'Something Better'

Marianne Faithfull ficou viciada em cocaína e sofreu um aborto quando já havia até escolhido o nome para a filha que teria com Mick, Corrina. Ela inspirou diretamente canções como “You Can’t Always Get What You Want”, e indiretamente várias outras, como “Sympathy For The Devil” e “Wild Horses”. O crédito como co-autora de “Sister Morphine” ela só recebeu décadas depois, mas não por culpa de Mick e Keith. Durante um período, no começo dos anos 1970, em que ela esteve na sarjeta, viciada em heroína, todos os royalties destinados a Marianne eram interceptados.

3) 'I Got You, Babe'

O relacionamento de Marianne Faithfull e Mick Jagger terminou em maio de 1970. No mesmo ano, ela perdeu a custódia de seu filho Nicholas e tentou o suicídio pela primeira vez. Apesar do que muitos podem pensar, Marianne não guarda mágoas de Mick. Ela diz que "nunca senti que tinha sido traída, perdida e abandonada". Em 2006, quando já havia 20 anos que estava livre de drogas, ela descobriu um câncer de mama. "Pertenço à geração que pensa que câncer significa morte, então fiquei petrificada", lembrou. Fãs e amigos a apoiaram, mas uma ligação em particular a emocionou, pouco depois da mastectomia. "Eu atendi o telefone. Eram duas da manhã e uma voz veio: 'Olá, Marian, como vai você?' Eu conhecia aquela voz e ele é o único que me chama de Marian. Tivemos uma conversa e foi adorável. Ele havia telefonado para meu agente para conseguir o número", lembra. Foi a primeira ligação de Mick em 35 anos.

"Tenho pena e compaixão por Courtney Love. Ela está fazendo o melhor que pode. Quando a conheci, eu disse: 'endireite-se e voe direito'", disse, em uma entrevista em 2002 para o "Belfast Telegraph". O repórter comentou ter sido uma pena ninguém ter dito isso para ela em 1970. "Ninguém sabia disso, na época não falávamos sobre saúde mental. Eu estava anoréxica, usava heroína e estava sem casa. Estou novamente sem casa, mas é completamente diferente. E eu certamente não sou anoréxica!", disse, rindo. Ao ser questionada se havia vendido seu apartamento, gargalhou: "Vender? Eu nunca tive um apartamento. Não tive nada".

Por causa das drogas, Marianne Faithfull virou sem-teto pelas ruas e albergues de Londres. "De repente, quando eu morava nas ruas de St. Anne's Court, no Soho, percebi que os seres humanos eram realmente bons. O restaurante chinês me deixava lavar minhas roupas lá. O homem que tinha a barraca de chá me dava xícaras de chá. Os usuários de metanfetamina cuidavam de mim", lembra ela, que passou pelo programa de drogas do NHS (o SUS britânico), onde era umas das que tinha as prescrições mais altas — 25 doses de heroína por dia.

Nos anos 1970, afetada por problemas de saúde mental e drogas, a carreira musical de Marianne foi errática. Esta participação em um especial de TV que David Bowie fez em 1973, mostra um pouco do que estava se passando. Sem ensaio, ela topou gravar esse dueto com ele, em clima de karaokê. Marianne não estava nem aí para sua imagem como artista.

4) 'Why D'Ya Do It?'

Da lama, Faithfull se mudou para um squat (apartamento ilegalmente ocupado) sem eletricidade e sem água quente. Mas em 1979 conseguiu um comeback memorável, ao lançar seu álbum de maior reputação, “Broken English”, abraçando um som contemporâneo pós-punk e algum charme radical chic. Uma das joias do disco é a híbrida e originalíssima “Why D’Ya Do It?”, com elementos de tango, reggae e rock e um flow que evidenciava sua voz transformada precocemente pelos excessos e carências da década.

5) 'Boulevard Of Broken Dreams'

Infelizmente, Marianne Faithfull não conseguiu ficar sóbria por muito tempo. Fiascos, uma parada cardíaca, um casamento, um relacionamento paralelo com um homem que se matou, Howard Tose. E a quem ela dedicou “Strange Weather”, álbum que funcionou como novo retorno (em termos) triunfal, em modo cantora de cabaré. Cantou Billie Holiday, Bessie Smith, Tom Waits (autor da faixa título) e brilhou em um tango estilizado da Broadway dos anos 1930, bem conhecido na voz de Tony Bennett.

6) 'Born To Live'

Nos anos 90, entre altos e baixos, ela gravou uma faixa co-produzida por Keith Richards, "Ghost Dance", com Charlie Watts e Ron Wood entre os músicos. Também fez uma linda colaboração com o maestro Angelo Badalamenti (o colaborador musical do cineasta David Lynch), e acabou recuperando de vez o prestígio artístico. Nos anos 2000, manteve lançamentos muito elogiados, mesmo com a vida pessoal zoada pelos problemas habituais. Trabalhou com Roger Waters (ex-Pink Floyd), Daniel Lanois (produtor do U2), Nick Cave, PJ Harvey, Blur.

Marianne estava na edição de 2006 do Festival de Cannes quanto teve um colapso devido a uma infecção nos rins. Ela entrou em coma por três dias. Ao acordar, a reação foi ótima: "Posso dizer que quase valeu a pena uma experiência de quase-morte para eu conseguir perder 10 quilos!" brincou. Ela também ficou próxima da morte quando caiu da escada de sua casa em Wicklow em 2000, após um jantar com o ator Daniel Day-Lewis e sua mulher Rebecca Miller. Ela diz que conseguiu, no último minuto, girar o corpo no ar e cair sobre o ombro. "Foi pura vaidade. Eu não suportava pensar em ser encontrada morta de cabeça para baixo", comentou, maravilhosamente, na época.

Mas sobreviveu a tudo, viveu para cantar. E em 2019, em seu mais recente álbum, deixou uma versão comovente de "Born To Live", dedicada a memória da amiga Anita Pallemberg (1943-2017), atriz, mãe de três filhos de Keith Richards, que havia entrado para o círculo dos Rolling Stones como namorada de Brian Jones (1942-1969).

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