Marina Lima: doc acompanha dez anos de transições e emociona ao mostrar reencontro com o irmão e parceiro Antonio Cícero
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Marina Lima: doc acompanha dez anos de transições e emociona ao mostrar reencontro com o irmão e parceiro Antonio Cícero

Em determinado momento do documentário "Uma Garota Chamada Marina", a cantora, compositora e guitarrista Marina Lima faz uma definição de si e de seu irmão, Antonio Cícero: "Somos vira-latas talentosos querendo mudar o mundo". Uma frase que poderia servir de resumo para sua carreira de mais de 40 anos, que ganhou recorte pelo olhar do diretor Candé Salles no filme rodado entre 2009 e 2019. Com estreia no cinema nesta quinta (23/1) e no programa "Segunda da Música", do Canal Curta!, na segunda-feira (27/1), às 21h35, o documentário mostra o dia a dia de Marina em casa, no estúdio, nos bastidores e nos palcos.

"Cícero e eu viemos de uma família nordestina, nossos pais eram do Piauí e foram pro Rio muitos jovens ainda, se conheceram lá. Ou seja, não há 'pedigree'. Não somos de famílias importantes, tradicionais cariocas ou paulistas. Somos filhos de um intelectual piauiense que ganhou espaço pela sua capacidade", explica Marina, contextualizando o que quis dizer com "vira-latas talentosos". O documentário, aliás, abre com o poeta, filósofo, compositor e integrante da Academia Brasileira de Letras, 75 anos, escrevendo um poema dedicado à irmã.

Cena de 'Uma garota Chamada Marina', com a cantora ensaiando no estúdio. Foto: Divulgação
Cena de 'Uma garota Chamada Marina', com a cantora ensaiando no estúdio. Foto: Divulgação

"Uma Garota Chamada Marina" é dedicado aos "grunkies", termo que significa amigos próximos, ligados pelos mesmos gostos e afinidades. "Não era para ser um documentário, era um registro da nossa turma, dos 'grunkies'”, revela Marina sobre a proposta inicial do filme. Nem ela nem Candé, seu grande amigo e ex-namorado, imaginaram que as filmagens se alongariam por uma década.

O filme começa em 2009, com um show em Porto Alegre, e finaliza com a apresentação no Circo Voador, no Rio, de seu último disco, "Novas Famílias", lançado em 2018. As turnês dos álbuns “Clímax” (2011) e “No Osso” (2016) também foram registradas. Sobre o roteiro, assinado a quatro mãos, Marina diz que foi um processo simples. "O Candé me mostrou o material que ele tinha e a partir do que ele trouxe, ajudei a botar ordem. Foi tranquilo", conta.

Por ter sido filmado com diferentes suportes e formatos digitais — VHS, câmera digital e até celular —, o que resultou em linguagens visuais diversas, o documentário acabou ganhando mais autenticidade na hora de contar as escolhas e mudanças da vida de Marina. Há imagens desfocadas, em cores fortes, em preto e branco, closes... "A linguagem visual ficou totalmente por conta do Candé e da equipe de fotografia. Onde eu pude ajudar foi na roteirização, mas, no resto, foram escolhas dele", diz Marina.

Falando em mudanças na carreira, o documentário dá grande espaço para a decisão de Marina de sair do Rio para morar em São Paulo no início de 2010. "Meu auge já tinha passado no Rio, ir para São Paulo foi uma forma de olhar para dentro. As pessoas sabiam quem eu era, mas não sabiam quem eu queria ser agora", explica Marina em uma das cenas.

Devidamente instalada na capital paulista, a artista resolveu também ensaiar e gravar em casa. "Ter um estúdio em casa, hoje em dia, com a tecnologia, é uma escolha viável e não muito cara. É como um pintor ter um ateliê, acho que facilita muito", fala sobre a experiência. O álbum "Clímax", por exemplo, foi totalmente gravado em sua casa.

Detalhista, organizada e, acima de tudo, minuciosa quando se trata de música, é possível ver como Marina sofreu diante de situações graves, como a depressão que teve depois do lançamento de “Abrigo” (1995). Na época, ela chegou a perder a voz e precisou cancelar muitos shows. "O meu analista disse que aquilo também era resultado de um acúmulo de mágoas. E foi ele quem me incentivou a posar nua, dizendo que poderia me fazer bem, além de ter a vantagem do cachê, que era alto. Fiquei sem reação, mas ele falou que era como uma 'prescrição médica'", conta ela, que foi capa da Playboy em 1999.

Na época, Marina certamente teve que enfrentar sua timidez, uma forte característica de sua personalidade. Há alguns momentos no filme, inclusive, que ela parece estar tensa e nervosa ao falar diretamente para a câmera. "Eu não diria isso. Eu sou tímida mesmo... Fico à vontade quando eu não vejo a câmera ", afirma, rindo. E reforça: "Acho que estou ali nesse filme, inteira".

Marina: 'Fico à vontade quando eu não vejo a câmera'. Foto: Divulgação
Marina: 'Fico à vontade quando eu não vejo a câmera'. Foto: Divulgação

Além de mostrar a criação, produção, ensaios e shows dos discos “Clímax”, “No osso” e “Novas famílias”, o documentário reserva uma parte para o espetáculo “Dois Irmãos”, que Marina produziu ao lado de Antonio Cicero, e também para o dia da posse dele na ABL. Um dos entrevistados do documentário, o professor e escritor Fernando Muniz destaca a importância da parceria dos irmãos no ativismo dos anos 1980. "Criamos uma marca. São mais de 200 músicas. Retratamos uma época ótima de mudança e fervor no Rio. Algumas músicas servem para sempre; aliás, essas geralmente são as melhores", opina Marina.

No filme, ela fala que "deu muita sorte de ter começado a criar com meu irmão" e também comenta sobre a "desassociação" entre os dois, quando Antonio Cícero resolveu se dedicar mais à carreira de poeta. Algo que no começo ela não aceitou bem, mas depois viu que era uma decisão certa para ambos. O filme mostra o show que marcou o reencontro dos dois em Porto Alegre. "Foi lindo, eu e meu irmão relembrando nossa vida e carreira musical e percebendo que estávamos há 15 anos com saudades", lembra, afirmando que hoje a relação é boa. "O Cícero é o único sobrevivente do meu primeiro núcleo . Perdermos um irmão e meu pai e mãe já se foram, então ele representa muito pra mim. Ele faz parte de uma história, de uma família que eu vou amar pra sempre", diz.

Os irmãos Antonio Cícero e Marina Lima durante a posse dele na ABL. Foto: Reprodução Instagram
Os irmãos Antonio Cícero e Marina Lima durante a posse dele na ABL. Foto: Reprodução Instagram

Em vários momentos do documentário, Marina demonstra firmeza na forma como guia sua carreira, mas também não minimiza momentos de dúvidas e tristeza. "O talento existe", diz, firme, na época da decisiva mudança para São Paulo. Segundo ela, o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal é a grande questão na vida de todos. "É o famoso pensamento de Nietzsche: 'Como tornar a sua própria vida uma obra de arte'. Também tem uma frase do Cicero e minha da música 'Meu Sim': 'Talvez o fim não seja nada e a estrada seja tudo'. É uma eterna lapidação", filosofa a cantora de 64 anos. Atualmente, ela roda o Brasil com a turnê do álbum “Novas Famílias” e prepara um songbook.

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