Mark Lanegan, sobrevivente do grunge, lança autobiografia com revelações sobre Kurt Cobain e Layne Staley, do Alice In Chains
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Mark Lanegan, sobrevivente do grunge, lança autobiografia com revelações sobre Kurt Cobain e Layne Staley, do Alice In Chains

"A lógica diria a você que, quando um amigo seu morre, você fica esperto e diz: 'Oh, merda, cara, eu também quero terminar assim?' Mas, em vez disso, o que um viciado faz é apenas usar mais drogas e afoga ás mágoas na bebida", diz Mark Lanegan, referindo-se a Kurt Kobain, em entrevista à "Rolling Stone". Na biografia "Sing Backwards and Weep", o ex-vocalista do Screaming Trees, 55 anos, relata situações extremas causadas pelas drogas e reconhece que foi um péssimo amigo. Mas há um improvável final feliz.

Kurt Cobain (1967-1994), vocalista do Nirvana; Layne Staley (1967-2002), vocalista do Alice in Chains; Andrew Wood (1966-1990), do Modern Love Bone; Scott Weiland (1967-2015), vocalista do Stone Temple Pilots; Kristen Pfaff (1967-1994), baixista do Hole. Foi por muito pouco que Mark Lanegan não entrou nessa lista de músicos grunge que morreram ou se suicidaram por causa das drogas. Mas o cantor exorciza um longo período barra pesada de sua vida na biografia "Sing Backwards and Weep", que será lançada terça-feira (28/4) nos EUA pela Hachette Books.

Os fãs de sua voz, aclamada como uma das melhores do rock contemporâneo, terão um álbum novo para acompanhar a leitura, "Straight Songs of Sorrow", com lançamento previsto para 8 de maio.

"As memórias que voltaram eram paralisantes. Se passavam 12, 14 horas e só então eu percebia que nem tinha levantado da cadeira escrevendo aquela merda", conta Mark, sobre o quão dolorido foi lembrar de sua trajetória profissional e pessoal. Líder até o ano 2000 do Screaming Trees, banda de rock pesado e psicodélico ligada ao grunge, ele fala desde sua infância até a morte do amigo Layne Staley em 2002.

Mark Lanegan lança a biografia "Sing Backwards and Weep". Foto: Getty Images
Mark Lanegan lança a biografia "Sing Backwards and Weep". Foto: Getty Images

Mark diz que tentou ficar longe de seu passado por 25 anos "porque há muitos fantasmas lá atrás". Aos 55 anos, sóbrio há quase duas décadas, resolveu enfrentá-los, contando tudo sobre as drogas, relação com os amigos, arrependimentos, e sua recuperação, considerada improvável por quase todos que o cercavam.

Depois de publicar algumas lembranças no livro "I Am the Wolf: Lyrics and Writings", de 2017, Mark foi incentivado pelo amigo Anthony Bourdain (1956-2018) a escrever uma autobiografia. O suicídio do chef foi mais uma desgraça atravessando seu caminho. Ele havia escrito quatro ou cinco capítulos e foi buscar ajuda com o ghost writer Mishka Shubaly para poder concluir o livro. "Escrever foi como ser enterrado diariamente sob uma montanha de lembranças de merda. E eu lembro que Tony e Mishka falavam para mim que eu teria uma experiência catártica. 'Você vai colocar todos esses fantasmas na cama'. E eu falei algo como 'Cara, os fantasmas foram colocados na cama e agora todos estão acordados", conta.

A capa do novo livro do cantor Mark Lanegan. Foto: Reprodução
A capa do novo livro do cantor Mark Lanegan. Foto: Reprodução

Uma das histórias que mais assombra o cantor, certamente, é a do suicídio do líder do Nirvana. "Kurt e eu éramos muito próximos antes de ele se tornar famoso. Na verdade, eu fui o famoso em nosso relacionamento por vários anos. Ele me considerava um irmão mais velho e eu sabia que aquele cara tinha algo mágico. Demorou um pouco, mas obviamente o mundo reconheceu seu talento e todos sabemos o que isso trouxe para ele", lamenta, lembrando que nem mesmo o choque do suicídio do amigo o fez se livrar das drogas. "Quando um viciado em drogas perde um amigo, ele apenas usa mais drogas. Segui com as pessoas que eu conhecia — Dylan Carlson (guitarrista do Earth) e meu melhor amigo em Seattle, Layne Staley — fazendo o que sempre fizemos, mas com a diferença que havíamos perdido um pedaço enorme de nossas vidas", conta.

A morte de Kurt empurrou Mark ainda mais para a depressão e drogas. "Queria desaparecer e esquecer do nosso relacionamento. Eu me perguntava: 'Que tipo de amigo eu sou?' Porque aquele cara me admirava, mesmo vendo meu declínio. Só me lembro de pensar que poderia ter dado alguma orientação decente para aquele garoto. E, em vez disso, eu comprava drogas para seus amigos mais famosos que não podiam sair em público. Isso foi difícil de assumir e sempre será. Eu poderia ter sido um tipo diferente de pessoa, mas não era", lamenta.

Mark não esconde a consciência pesada que o persegue em relação ao suicídio do vocalista do Nirvana. "Sempre sentirei grande culpa por minhas ações no dia em que Kurt decidiu fazer o que fez, porque eu o ignorei voluntariamente. Eu era um maldito idiota egocêntrico que não respondia aos amigos — mesmo que ele atendesse o telefone a qualquer momento que eu ligasse", conta. Mark diz que até hoje fica deprimido ao ouvir Nirvana.

Courtney Love e Kurt Cobain. Foto: Getty Images
Courtney Love e Kurt Cobain. Foto: Getty Images

Curiosamente, sua salvação veio justamente pelas mãos da viúva Courtney Love. Algum tempo depois da morte de Kurt, ele recebeu das mãos de um amigo um folheto sobre reabilitação que Courtney havia deixado para ele. "Minha resposta foi: 'Diga a ela para enfiar sua reabilitação naquele lugar. Naquela época se a pessoa não tivesse algum dinheiro para mim ou algo que eu pudesse vender ou medicamentos, dispensava a ajuda. Eu preferia ficar sem teto do que aceitar a ajuda de alguém", relata.

E foi o que aconteceu: Mark ficou pelas ruas e foi ameaçado de ser preso se não procurasse ajuda ou saísse da cidade. Mas sua brilhante ideia foi dar um golpe num traficante. "Eu não tinha mais nenhum lugar para ir e voltei à loja do meu amigo e perguntei se ele ainda tinha aquele folheto da Coutney. Era um programa de assistência a músicos criado por um saxofonista chamado Buddy Arnold. Eles pagaram pela minha reabilitação e Courtney, meu aluguel", conta, reconhecendo que nunca conseguirá pagar a dívida que tem com a cantora. "Eu falhei com ele quando ele mais precisava de mim. Eu devo a ela e também a muitas pessoas. Eu sempre fiz coisas incrivelmente ruins e tive o amor mais incrível de pessoas que eu mal conhecia que me salvaram", diz agradecido.

Dave Grohl, Troy Van Leeuwen, Nick Oliveri, Josh Homme e Mark Lanegan, do Queens Of The Stone Age, em 2002. Foto: Getty Images
Dave Grohl, Troy Van Leeuwen, Nick Oliveri, Josh Homme e Mark Lanegan, do Queens Of The Stone Age, em 2002. Foto: Getty Images

Após a reabilitação, ele passou um tempo numa casa de recuperação e passou a trabalhar na área de construção em Los Angeles. "Um dia Duff McKagan, do Guns N 'Roses, me procurou e me perguntou se eu queria me mudar para sua casa para tomar conta da propriedade. Não recusei, claro, e fiquei lá por três anos. Mesmo quando comecei a trabalhar, ele nunca me deixou pagar aluguel. Ele era um anjo da guarda! Nesse mesmo período, eu me reconectei com Josh Homme e comecei a tocar com o Queens Of The Stone Age", lembra. A carreira parecia estar de volta aos trilhos quando em 2004 ele teve uma recaída e entrou em coma por dez dias. "Eu quase morri. Quando saí, não consigo explicar, não tinha mais prazer com a música. música que eu amava antes, música nova, música no rádio, qualquer tipo — eu não queria ouvir. Eu estava assim, 'que porra eu vou fazer agora?"", lembra.

Através do amigo Greg Dulli, do Afghan Whigs, Mark voltou a fazer shows e gravações e até trilha para videogame com o produtor Alain Johannes. "Depois que eu fiz essa coisa de videogame e ganhei bastante dinheiro, Alain disse: 'Por que não continuamos fazendo um disco?' Eu não tinha nada, mas topei. Fizemos o 'Blues Funeral' de 2012 exatamente como eu queria, que acabou vendendo o dobro do que meu disco mais vendido anteriormente, o 'Bubblegum', de 2004", compara. Mark ainda tocou com o Soulsavers e Isobel Campbell, do Belle And Sebastian.

Isobel Campbell, Mark Lanegan e Jeff Fielder em um show em 2010. Foto: Getty Images
Isobel Campbell, Mark Lanegan e Jeff Fielder em um show em 2010. Foto: Getty Images

Mark surpreendeu a todos quando conseguiu ficar limpo pois todos achavam que ele não conseguiria tal ponto chegou na dependência de crack, heroína e outras substâncias. Mas foi seu amigo Layne Staley o próximo a sucumbir, aos 34 anos, por overdose de speedball. "Layne era uma pessoa mágica que também estava decidida a usar drogas até morrer. Jerry Cantrell e Mike Inez, do Alice In Chains, me levaram até a casa dele porque não conseguiam falar com ele e achavam que eu conseguiria ser recebido por ele — ele tinha uma câmera então, sempre que alguém do meio o visitava, ele ignorava. Eu queria que ele visse que eu estava limpo, que era possível e que sua previsão de que eu nunca seria capaz de ficar sóbrio falhou", diz.

Quando finalmente o amigo topou recebê-lo, Mark diz que fez questão de falar que estava limpo há mais um ano. "Mas ele estava confuso, tinha perdido a noção de tempo achando que eu havia acabado de sair do rehab. Foi muito triste o jeito com que ele se foi. Eu sempre soube que era isso que aconteceria, embora tivesse esperança de que alguma emergência médica o colocasse no hospital e lhe desse um break longe da rotina de crack e heroína", conta.

Mark está casado há 15 anos, diz ter uma vida estável e anuncia que, em maio, lançará "Straight Songs of Sorrow", álbum que sucede "Somebody’s Knocking", do ano passado, e que reúne músicas que surgiram enquanto escrevia o livro. "Eu fiz um acordo com a Heavenly Records, onde sou dono de minha música, e foi assim que cheguei onde estou agora, onde tenho minha própria casa, o que nunca pensei que fosse acontecer. Eu tenho sorte", comemora.

As coisas só ainda não entraram nos eixos com seus ex-companheiros do Screaming Trees. "Eles conseguiram um trecho do livro e publicaram no Facebook para fazer ameaças físicas e legais contra mim. Eu falei tipo 'Ei, eu tentei falar com você 50 vezes no ano passado para fazer essa merda'. Enviei o que escrevi para os dois bateristas da banda, Mark Pickerel e Barrett Martin, e tinha coisas que não eram lisonjeiras sobre eles, que riram e acharam ótimo. Não me preocupei com Gary Lee Conner, porque ele nunca dava a mínima para o que eu pensava sobre nada", conta.

Depois das tais ameaças, Mark diz que enviou um e-mail a Van Conner citando um trecho em que o elogiava, chamando a atenção para a "personalidade jovial, bondosa, ainda que rebelde de Van, e o senso de humor especialmente louco, eram a minha salvação durante todo o meu tempo no grupo".

Mark Lanegan, Gary Lee Conner, Van Conner e Barrett Martin, em 1993. Foto: Getty Images
Mark Lanegan, Gary Lee Conner, Van Conner e Barrett Martin, em 1993. Foto: Getty Images

A troca de mensagens que veio a seguir não foi muito cordial: "Depois eu escrevi: 'Ei, merda, por que você não lê a porra do livro inteiro antes de começar a fazer ameaças? Tentei falar com você 50 vezes no ano passado e você me ignorou. Ele respondeu: 'Foda-se você e seu livro'. Eu disse: 'Cara, se você não gostar da minha versão do seu tempo comigo, escreva seu próprio livro ou me leve a tribunal e eu vou desmontá-lo'. E ele disse: 'Nunca mais entre em contato comigo'. Encerrei dizendo que a única razão pela qual eu tinha entrado em contato era por cortesia, mas que ele não teve a cortesia de me atender nem ver uma página dessa porra de livro. Foda-se", relatou Mark, fazendo questão de lembrar que "pegou leve" ao retratar seus ex-colegas de palco. "Se eu tivesse entrado em detalhes, nenhum desses caras seria capaz de andar de novo com a cabeça erguida, mas eu não poderia fazer isso com eles", comenta.

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